De 24 horas a menos de duas: Thiago Miro revela os atalhos da edição de podcasts
- Andriolli Costa
- 12 de ago.
- 7 min de leitura
Editor sênior da Rádiofobia e criador do Mundo Podcast compartilhou com estudantes da UERJ técnicas para gravar melhor
A primeira vez que Thiago Miro editou uma hora de podcast, o trabalho consumiu, somadas as diferentes sessões, quase 24 horas. Mais de uma década depois, um programa de igual duração, quando bem gravado, podia ficar pronto em menos de duas.
A diferença não veio de uma ferramenta milagrosa. Foi construída pela prática, pelo domínio dos atalhos e, principalmente, pela criação de um fluxo de trabalho no qual cada clique economizado se acumula ao longo do episódio.
Em 14 de abril de 2023, Thiago compartilhou parte dessa experiência com os estudantes da disciplina Comunicação em Rádio da UERJ, ministrada pelo professor Andriolli Costa. Editor sênior da Rádiofobia Podcast e Multimídia, criador do portal Mundo Podcast e integrante do projeto informativo Castnews, ele falou sobre a história da mídia e abriu os bastidores de seu processo de edição.
Thiago começou a ouvir podcasts em 2009 e lançou sua primeira produção em 2011. Naquele momento, lembrou, ainda era necessário explicar a quase todas as pessoas o que significava a palavra podcast.
“Tudo era feito por tentativa e erro. Hoje é possível encontrar conhecimento técnico e começar o primeiro episódio em um nível muito mais alto. Naquela época, tudo precisava ser feito muito na mão”, afirmou.
Os produtores precisavam criar um site, contratar hospedagem, configurar o feed e descobrir como distribuir os arquivos. Como havia pouco conteúdo em português ensinando essas etapas, outros podcasters passaram a procurar Thiago em busca de ajuda.
Depois de responder repetidamente às mesmas dúvidas, ele decidiu publicar tutoriais. A orientação era que os textos fossem compreensíveis mesmo por quem não sabia programar. O conteúdo começou no site do Telhacast, criado em 2011, e se expandiu até dar origem ao Mundo Podcast, nome adotado pelo projeto em 2014.
A entrada de Thiago nesse universo não veio de uma formação em tecnologia ou comunicação. Na época, ele cursava Química Industrial. Concluiu as disciplinas, mas não realizou o estágio obrigatório. Enquanto percebia que não desejava seguir carreira na área, o trabalho com podcasts começava a ocupar cada vez mais espaço.
Ao produzir os próprios programas e ensinar outras pessoas a criar os seus, tornou-se uma referência em um campo que ainda reunia poucos profissionais. Durante parte da década de 2010, o Mundo Podcast esteve entre os raros portais brasileiros dedicados regularmente a tutoriais de produção.
A aproximação com a Rádiofobia começou de maneira pouco convencional: por causa de uma meia que nunca chegou.
Thiago acompanhava o trabalho de Leo Lopes e foi uma das primeiras pessoas a comentar quando a Rádiofobia lançou um novo site. Como agradecimento, recebeu a promessa de ganhar uma meia do programa. O presente não foi enviado. Thiago passou então a cobrar publicamente a entrega, e a insistência fez com que Leo se lembrasse dele.
Tempos depois, quando preparava um livro sobre produção de podcasts, Leo o convidou para escrever a parte técnica. Em seguida, Thiago foi chamado para desenvolver um novo site para a produtora. Começou a editar programas profissionalmente pela Rádiofobia em 2015 e, no ano seguinte, passou a trabalhar em etapas da edição do NerdCast.
A participação tinha um significado pessoal. O NerdCast havia sido o primeiro podcast que Thiago escutou. Anos depois, ele se tornou uma das primeiras pessoas a ouvir episódios aguardados por milhões de ouvintes — especialmente as edições de RPG — porque o material precisava passar por suas mãos antes de chegar ao público.
A trajetória também acompanhou uma mudança na diversidade de vozes da podosfera. Nascido em Olinda, Pernambuco, Thiago contou que enfrentou insegurança em relação ao próprio sotaque e à dicção. Nos primeiros anos, produtores nordestinos recebiam comentários xenofóbicos e encontravam mais dificuldades para atrair anunciantes.
Para ele, a popularização dos podcasts ajudou a romper a predominância dos sotaques do Rio de Janeiro e de São Paulo na mídia nacional. Ao colocar pessoas de diferentes regiões diretamente nos fones dos ouvintes, o formato tornou familiares vozes que antes apareciam pouco nas produções de grande alcance.
Na edição, porém, aquilo que o público escuta como uma conversa espontânea costuma ser resultado de muitas intervenções. Respirações excessivamente fortes, repetições, frases interrompidas, engasgos e pausas podem ser reduzidos ou retirados.
“Leo costuma dizer que nós, editores, somos fonoaudiólogos digitais. Você ouve o NerdCast e ninguém gagueja, ninguém trava. Todo mundo fala perfeitamente do início ao fim”, contou.
O efeito fica mais perceptível quando uma mesma pessoa participa de programas com estilos diferentes de edição. Em um podcast, ela pode parecer extremamente objetiva e articulada. Em outro, no qual as pausas e hesitações são preservadas, o público escuta o tempo real necessário para construir cada raciocínio.
Essa intervenção não deve apagar completamente a maneira de falar do participante. Thiago citou apresentadores e entrevistados que usam pausas longas como parte de sua identidade. O editor pode abreviar alguns intervalos, mas, se retirar todos, a fala começa a soar artificial.
“Se você corta demais, fica extremamente falso. É uma questão de tempo e de prática. Você aprende editando”, explicou.
Antes mesmo de abrir o programa de edição, uma decisão tomada durante a gravação pode facilitar todo o trabalho: registrar cada participante em uma faixa separada.
Uma única faixa é mais rápida de editar, mas oferece pouco controle. Quando quatro ou cinco pessoas gravam separadamente, a tela fica mais complexa e o trabalho demora mais. Em compensação, o editor consegue corrigir sobreposições causadas pela internet, ajustar atrasos e silenciar ruídos sem afetar as demais vozes.
Se uma pessoa conta uma piada durante uma gravação remota, por exemplo, cada participante pode rir em um momento ligeiramente diferente por causa do atraso da conexão. Com as vozes separadas, as risadas podem ser reposicionadas para recuperar o ritmo da conversa.
“Dá um pouco mais de trabalho, mas, sempre que existir essa opção, gravem separadamente. O resultado final vai ficar melhor”, recomendou.
As faixas independentes permitem até reconstruções mais profundas. Um participante que entrou depois pode aparecer desde a abertura. Outro, cuja contribuição não foi aproveitada, pode ser retirado sem exigir uma nova gravação. Reações captadas em diferentes momentos também podem ser reposicionadas para dar fluidez à conversa.
Thiago contou que algumas produções mantêm bancos de risadas e pequenas reações dos apresentadores. Esses arquivos são inseridos pontualmente quando uma fala longa começa a parecer um monólogo. O recurso precisa ser usado com variedade e cuidado: repetir sempre a mesma risada produz o efeito contrário e torna a montagem evidente.
Outro fator decisivo é a qualidade da gravação. Thiago comparou três cenários enfrentados por um editor: uma faixa única, limpa e gravada por um comunicador experiente; duas faixas com apresentadores e convidados; e uma sessão com quatro a sete participantes, cada um registrando o próprio áudio.
Quanto melhor o som original e mais preparados os participantes, menor será o tempo necessário para corrigir problemas. Comunicadores acostumados ao microfone tendem a repetir uma informação desde o início quando erram, o que permite substituir o trecho sem deixar marcas.
A familiaridade com o programa de edição também reduz o trabalho. Thiago começou no Audacity, ferramenta gratuita que considera adequada para aprender conceitos básicos. Depois migrou para o Adobe Audition, que utilizava havia mais de uma década na ocasião da aula. Dentro da Rádiofobia, os demais editores trabalhavam principalmente com o Reaper.
Mais importante do que o programa escolhido, segundo ele, é aprender os princípios da edição. Quem domina cortes, faixas, níveis, redução de ruído e transições consegue migrar para outra ferramenta; precisa apenas descobrir onde cada comando está localizado.
Thiago demonstrou ainda como personalizou o próprio espaço de trabalho. Um pequeno teclado de macros, colocado ao lado do computador, concentrava os comandos mais utilizados. Em vez de pressionar três teclas ou abrir menus, bastava tocar um botão para cortar um intervalo ou iniciar um processo de redução de ruído.
“Qualquer coisa que me economize um clique, eu uso. Pode economizar um milésimo, mas, no final de um dia inteiro editando, representa menos tempo e menos esforço”, disse.
Com a repetição, os atalhos se transformam em memória muscular. Thiago também aprendeu a reconhecer visualmente respirações, vícios de linguagem e até as vozes de participantes frequentes pelas formas de onda apresentadas na tela.
Um grito, um “é...” prolongado ou a repetição de uma sílaba produz desenhos reconhecíveis. O editor pode antecipar o corte pelo gráfico, mas Thiago reforçou que é necessário ouvir o resultado antes de seguir adiante. A imagem acelera a localização do problema; o ouvido confirma se a emenda preservou a naturalidade.
Editar a própria voz também pode melhorar a forma de gravar. Ao observar repetidamente as palavras que deixa morrer, as terminações que não completa e os vícios que mais utiliza, o produtor começa a corrigi-los nas gravações seguintes. Falar melhor passa a ser uma maneira de diminuir o próprio trabalho na pós-produção.
A sonorização exige outro tipo de cuidado. Thiago alertou para o uso de músicas comerciais em podcasts. Plataformas como o Spotify possuem sistemas capazes de identificar faixas protegidas, e episódios antigos podem ser bloqueados ou removidos. Para evitar problemas, o produtor deve utilizar trilhas licenciadas ou bibliotecas que permitam claramente aquele tipo de uso.
Para quem começava um podcast em 2023, Thiago recomendava investir primeiro em um bom microfone. A oferta de programas já era grande demais para esperar que o público permanecesse em uma produção com áudio difícil de compreender.
Mesmo em um projeto originalmente pensado apenas para áudio, ele aconselhou gravar também um vídeo vertical pelo celular. Os melhores momentos poderiam ser transformados em trechos para YouTube, Instagram e TikTok, levando novos ouvintes ao episódio completo.
No encerramento da aula, Thiago apresentou seu trabalho no Castnews, projeto que reunia um portal com notícias diárias e um podcast semanal sobre a indústria do áudio. Naquele momento, a iniciativa era uma parceria entre Bicho de Goiaba Podcasts e Rádiofobia Podcast e Multimídia.
Sua função começava antes da redação. Thiago acompanhava redes sociais, produtores, plataformas e movimentos da podosfera para identificar assuntos que poderiam se transformar em pauta. As sugestões eram encaminhadas aos jornalistas da equipe, responsáveis por verificar as informações e escrever as matérias.
“Eu não escrevo no site. Fico caçando notícias. Quando encontro algo que pode ser relevante, mando para a equipe. O jornalista vai lá, checa e produz a matéria”, explicou.
Do podcast criado por tentativa e erro aos projetos acompanhados por milhões de pessoas, a trajetória de Thiago mostra como a profissionalização da mídia passou também pela criação de conhecimentos compartilhados. Os tutoriais que nasceram para responder às dúvidas de outros produtores acabaram abrindo o caminho para sua própria carreira.
A redução de 24 para menos de duas horas de trabalho não significa que a edição tenha se tornado automática. Por trás da velocidade permanecem milhares de decisões: onde cortar, quanto silêncio preservar, quando uma reação ajuda a conversa e em que momento a correção começa a apagar a pessoa que está falando.




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