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Fantasia é gostar de carnaval


Como o jornalismo pode transformar nossa visão de mundo em torno do maior espetáculo da Terra


Por: Carlos Geremias


Bastidores do ensaio em Santa Teresa
Bastidores do ensaio em Santa Teresa

O carnaval é a maior festa popular do Brasil e do mundo. Um verdadeiro laboratório de estudos e de conhecimento. E é por meio do jornalismo que o professor e coordenador do Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ (Lunar), Andriolli Costa, se debruça neste universo. É a reportagem que lhe permite entender as dinâmicas da cidade não somente nos quatro dias de desfile - uma vez que o carnaval dura o ano todo - mas enquanto espelho da essência carioca. Um patrimônio imaterial da cidade.


O começo não foi nada fácil: mais de 1400 km separam o Rio de Janeiro de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde ele nasceu e cresceu. Além disso, a relação com carnaval era praticamente inexistente quando se mudou para as terras cariocas, há pouco mais de três anos. Era apenas mais um feriado. Não assistia pela TV, não ia para blocos - e a própria cultura dos blocos, em sua região, floresceu só depois que ele já havia se mudado.


Hoje ele trabalha não apenas o carnaval, e sim “Outros Carnavais”, o maior e mais ambicioso projeto de podcast narrativo do Lunar. Um dos pontos de partida é a narrativa da fuga da freira Carmelita do convento, em Santa Teresa. Um mito que se transforma em objeto de reflexão: para onde vai o carnaval do Rio? Quantos carnavais temos aqui? Quais blocos a freira frequentaria? Por que ela volta para o convento ao fim dos dias de festa?


Assim como o professor, este bolsista também tinha pouca relação com a folia.


Desde pequeno acostumado a ficar em casa, não suportava o som das batucadas, as luzes, as multidões nas ruas. Lembro-me de um dia ter assistido ao DVD do filme Transformers durante a transmissão do desfile do Salgueiro, que hoje é a minha querida escola de samba. Naquele tempo nem imaginava que trocar uma noite de desfiles por uma obra de ficção científica fosse uma escolha tão ruim - sem desmerecer o filme, que é até hoje um dos meus favoritos.

A grande virada de chave finalmente veio trazendo um elemento em comum: o jornalismo. Por meio dos registros e de documentos históricos consegui entender o clamor, a energia, a força e a resistência presente nestas festas. Após auxiliar minha prima Tatiana Alves na conclusão de sua monografia de graduação pela UNIRIO, o impacto causado pelos estudos me fez criar uma paixão que aumenta cada vez mais. O trabalho dela retrata o samba como instrumento de denúncia às mazelas sociais,


O enredo Monstro é aquele que não sabe amar - os filhos abandonados da pátria que os pariu, da Beija-Flor de Nilópolis, foi o mote do TCC, e o marco para a ampliação dos conhecimentos científicos de cidadania e de Sociologia entre o samba e o povo. Conforme destaco, Salgueiro é minha escola do coração, mas o carnaval nos ensina, através das composições, que muito mais que uma competição, o carnaval é instrumento de resistência à violência simbólica, de denúncia às violações aos direitos de celebração dos cultos de matrizes afro-diaspóricas.


Tudo isso enquanto celebra a vida de forma fugaz e alegre, independentemente de estar no vermelho, ter tido uma desilusão amorosa ou de não ter conseguido cumprir os objetivos do ano. Um espetáculo catártico que subverte as linhas da sacralização e da profanidade, extrapolando os limites do comportamento humano, uma receita efervescente e singular.


Estudar o carnaval é refletir justamente sobre a vida, quando o folião vira rei e mostra a sua fantasia para o mundo, ocupando as mesmas ruas que costuma passar em alta velocidade para não se atrasar para o trabalho, na insana correria do dia. O tempo, desta vez, ousa parar de modo que seu desfile seja o mais elaborado possível.


O trabalho de campo no Lunar me fez perceber estas particularidades: fantasias e mais fantasias subiam e desciam as ladeiras; os vendedores de água com suas maletas pesadas, lutando para enfrentar o desafiador aclive de Santa Teresa; o ensaio fotográfico da freira que parecia tão real dada à grande elaboração.


Às vezes penso que carnaval não é brincadeira, o empenho para a confecção dos trajes é bem rigoroso. Mas ao mesmo tempo é uma forma de se misturar à multidão mostrando uma versão que eventualmente não será vista ao longo de um ano após as Cinzas. Fazer parte desta narrativa, que vai se tornar o maior projeto até agora, é um alento a um coração que ainda não conhecia a magia desta festa.


Na sexta-feira 13, dia da abertura dos desfiles, o primeiro episódio vai ser lançado no Spotify. Além disso, você pode conferir este e outros projetos no site oficial do Podcast Narrativo e no Instagram.





 
 
 

1 comentário


Sabrina Massuia
Sabrina Massuia
13 de fev.

ameii o texto!! o ensaio e o podcast estão maravilhosos! 💕

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