O algoritmo não pode ser o editor: Vozes em Órbita debate o futuro do podcast narrativo
- Andriolli Costa
- 15 de ago.
- 9 min de leitura
Rodrigo Alves, Fábio Silveira e Rodrigo Vizeu discutiram descoberta, periodicidade, monetização e os caminhos para preservar a autoria em um mercado orientado por plataformas
O crescimento das plataformas de distribuição ampliou o público dos podcasts, criou possibilidades de financiamento e facilitou o encontro entre produções e ouvintes. Ao mesmo tempo, introduziu novas pressões: publicar com frequência, disputar atenção, produzir imagens para as redes sociais e adaptar títulos, capas e formatos aos mecanismos de busca e recomendação.
Como aproveitar essas possibilidades sem transformar o algoritmo em editor? A pergunta atravessou a mesa “A narrativa e o algoritmo: o que querem as plataformas?”, realizada em 29 de setembro durante o Vozes em Órbita – I Encontro Nacional de Podcasts Narrativos, na UERJ.
Mediada pelo jornalista Rodrigo Alves, criador do Vida de Jornalista e da produtora Escuta Aqui, a atividade reuniu Fábio Silveira, ex-head de conteúdo da Wondery no Brasil e sócio da Wega, e Rodrigo Vizeu, criador de Presidente da Semana e líder de parcerias de podcasts do Spotify Brasil. A gravação da mesa está disponível no canal do Lunar.
O podcast depois do videocast
Fábio Silveira dividiu a história recente do podcast brasileiro em diferentes momentos. Em uma primeira fase, iniciada nos anos 2000, as produções eram realizadas principalmente por pessoas apaixonadas pela mídia, sem uma perspectiva clara de remuneração. A partir de 2018, o investimento de plataformas ajudou a profissionalizar o setor e ampliar sua audiência.
A pandemia marcou uma nova transformação. Impossibilitados de se reunir presencialmente e em busca de alternativas de divulgação e receita, muitos produtores incorporaram câmeras às conversas. O videocast se consolidou como um dos formatos mais populares do país, especialmente em programas de entrevistas.
Para Fábio, conteúdos baseados em conversas e convidados encontram no vídeo uma ferramenta importante de circulação. Os cortes permitem promover cada episódio no YouTube, no Instagram e no TikTok, plataformas nas quais a imagem ocupa uma posição central.
Essa transformação, contudo, criou um dilema para o podcast narrativo. Por um lado, o gênero passou a ocupar um espaço próprio como produção concebida especialmente para o som. Por outro, tornou-se mais difícil explicar seu valor em um ambiente no qual parte considerável do público passou a associar podcast a duas ou mais pessoas conversando diante de câmeras.
Ainda podemos chamar isso de podcast?
Rodrigo Alves apresentou a questão a partir da própria experiência. Ao recomendar seu trabalho, percebe que algumas pessoas esperam encontrar uma entrevista filmada em estúdio, e não uma narrativa construída com roteiro, apuração, montagem e desenho de som.
“Será que eu preciso largar o termo podcast e falar que faço uma audiossérie, jornalismo em áudio ou uma série narrativa em áudio? Eu quero ter razão sobre a palavra ou quero que as pessoas entendam o que faço?”, perguntou.
Rodrigo Vizeu respondeu que a palavra podcast já passou por diferentes transformações e continua em disputa. Antes da popularização do formato, era comum precisar explicar o significado do termo. Posteriormente, o videocast alterou novamente a percepção do público. “Não soltem a mão da palavra podcast”, recomendou Vizeu.
Fábio propôs um critério baseado na experiência sonora: se uma produção continua fazendo sentido quando o ouvinte fecha os olhos, o áudio permanece como seu elemento principal. Nesse caso, mesmo que existam câmeras, o programa pode ser compreendido como podcast.
O sucesso de projetos exclusivamente sonoros, como Não Inviabilize, mostra que o áudio não perdeu sua potência. Há experiências narrativas cuja linguagem depende justamente da ausência de imagens e da relação íntima criada entre voz e ouvinte.
Uma história que pode atravessar diferentes mídias
Fábio destacou que o podcast narrativo possui valor não apenas como programa sonoro, mas também como propriedade intelectual. Uma história desenvolvida em áudio pode posteriormente dar origem a livros, filmes, séries, eventos e outros produtos.
Produções como A Mulher da Casa Abandonada, Pico dos Marins e outros podcasts jornalísticos foram mencionadas como exemplos de histórias que despertaram interesse para adaptações audiovisuais. O áudio funciona como um espaço relativamente acessível para testar uma narrativa, formar público e demonstrar a força de personagens e conflitos.
Essa possibilidade não elimina o principal obstáculo do gênero: produzir um podcast narrativo exige tempo e investimento. É necessário pesquisar, localizar personagens, realizar entrevistas, escrever roteiros, editar as falas e construir uma paisagem sonora. Mesmo custando menos do que um documentário audiovisual, trata-se de uma produção mais complexa do que uma conversa gravada.
“O podcast narrativo é um formato premium para contar histórias. Ele permite dar tempo a uma investigação e alcançar revelações que talvez não acontecessem com uma câmera apontada para o entrevistado”, defendeu Fábio.
Como exemplo, ele recordou a produção de um podcast sobre sexualidade e futebol. Durante uma entrevista realizada sem câmeras, o ex-jogador Richarlyson falou publicamente sobre sua bissexualidade. Para Fábio, a intimidade proporcionada pelo som teve papel importante na construção daquele momento.
A dor das séries limitadas
Os participantes também discutiram a dificuldade enfrentada por podcasts com temporadas fechadas. Uma série narrativa pode concentrar atenção durante o lançamento e continuar sendo descoberta posteriormente, mas deixa de oferecer episódios novos quando sua história termina.
Vizeu observou que esse tipo de produção costuma apresentar um pico de audiência seguido por uma cauda longa mais discreta. Já os programas semanais ou quinzenais criam uma relação recorrente com o público e oferecem mais oportunidades de inserção publicitária.
Isso não significa que todos os produtores devam abandonar as séries limitadas. Uma alternativa é reunir diferentes temporadas em um mesmo feed, como faz o Projeto Humanos. Outra possibilidade é combinar formatos, mantendo episódios narrativos ao lado de entrevistas, comentários ou produções mais curtas.
O Rádio Novelo Apresenta e o Rádio Escafandro foram citados como projetos capazes de manter a linguagem narrativa dentro de uma periodicidade regular. O Ciência Suja, por sua vez, passou a alternar reportagens narrativas com outros formatos para permanecer em contato com a audiência enquanto desenvolve investigações mais demoradas.
“O podcast demora a construir audiência. Quando há uma entrega recorrente, o público tem tempo de conhecer aquele trabalho e estabelecer uma relação com ele”, explicou Vizeu.
Produzir dentro do que cabe na vida
Periodicidade não depende apenas de estratégia. Também precisa ser compatível com a estrutura e o tempo disponíveis para cada equipe.
Vizeu recordou que criou o Presidente da Semana enquanto trabalhava na editoria de política da Folha de S.Paulo, em pleno ano eleitoral. Sua referência inicial envolvia viagens, cenas externas e diversos entrevistados por episódio. Diante das condições concretas de produção, precisou simplificar o formato.
Cada episódio passou a ser construído principalmente a partir de um entrevistado. Em vez de reproduzir integralmente o modelo que o inspirou, Vizeu identificou o mínimo necessário para realizar uma produção que considerasse consistente.
“Como posso ser eficiente e não me perder em uma pesquisa que talvez eu nunca consiga colocar no mundo? Cada produtor precisa descobrir o que consegue fazer com os recursos que possui”, afirmou.
Fábio concordou que equipes pequenas podem reunir profissionais capazes de desempenhar diferentes funções, embora essa concentração esteja distante das condições ideais. A eficiência, entretanto, não pode eliminar o tempo necessário para a apuração.
Rodrigo Alves resumiu a discussão com uma pergunta destinada a quem deseja iniciar um projeto: “Essa história cabe na minha vida?”. Antes de começar, o produtor precisa avaliar se sabe editar, se necessitará contratar alguém, quanto tempo possui e por quanto tempo conseguirá conviver com a pauta.
“A palavra é obsessão. Você pode passar dois anos com aquela história. Se não existir prazer e conexão, o podcast acaba se transformando em um estorvo”, acrescentou Fábio.
O algoritmo não escolhe a pauta
Uma estudante perguntou até que ponto o criador consegue preservar sua autenticidade diante dos algoritmos e se a busca por viralização poderia padronizar as produções.
Fábio diferenciou as lógicas da economia dos criadores das decisões editoriais tomadas na produção de podcasts narrativos. Segundo ele, os projetos desenvolvidos durante suas passagens pela Globo e pela Amazon não eram escolhidos para agradar ao algoritmo, mas a partir da força das histórias e da possibilidade de encontrar público.
“Nenhuma decisão criativa que tomei foi pensando no algoritmo. A pergunta era se aquela era uma grande história e se existia uma maneira interessante de contá-la”, afirmou.
Ele descreveu uma divisão utilizada para orientar projetos: cerca de 70% de apostas mais seguras, 15% de propostas ousadas e 15% de “apostas de maluco”. Essa última parcela seria fundamental para experimentar linguagens e evitar que a produção se limite à repetição do que já funciona.
Para Fábio, o podcast narrativo brasileiro ainda possui espaço para inovar. A demanda do público, em sua avaliação, é maior do que a quantidade de projetos financiados e lançados.
Vizeu também argumentou que o consumo de podcasts mantém características diferentes da navegação acelerada em redes sociais. O ouvinte pode salvar um episódio, retornar posteriormente e permanecer por mais tempo com um conteúdo. Essa relação mais lenta permite construir vínculos que não dependem exclusivamente da viralização.
Ser autoral não significa ser invisível
Não produzir para o algoritmo é diferente de ignorar as formas pelas quais as pessoas encontram um programa. Capas, títulos, descrições e palavras-chave ajudam os mecanismos de busca e também informam o público sobre o que será ouvido.
Vizeu recomendou que as capas sejam pensadas para o tamanho reduzido em que aparecem na tela do celular. Muitos textos ou elementos visuais podem desaparecer quando a imagem é colocada ao lado de dezenas de outros programas.
Os títulos dos episódios também devem apresentar informações relevantes. Em um podcast de entrevistas, por exemplo, chamar os programas apenas de “episódio 1” e “episódio 2” desperdiça a possibilidade de destacar o nome do entrevistado e o assunto da conversa. As descrições podem conservar algum mistério, mas precisam incluir termos que ajudem a identificar os temas tratados.
Fábio alertou contra fórmulas rígidas de duração. Em vez de decidir antecipadamente que todos os episódios precisam ter 20 minutos ou uma hora, o produtor pode observar os dados de retenção e compreender o comportamento de sua própria audiência.
Produções longas como as temporadas do Projeto Humanos demonstram que ouvintes permanecem por horas quando estão envolvidos com a história. A duração adequada não é determinada por uma regra universal, mas pelo conteúdo, pela estrutura narrativa e pela relação já estabelecida com o público.
Existe uma prosódia brasileira?
Durante as perguntas, Andriolli Costa retomou sua experiência com versões brasileiras de produções estrangeiras. Mesmo quando narradas em português por profissionais brasileiros, algumas adaptações da Wondery lhe pareciam conservar uma sonoridade estrangeira.
“Existe uma prosódia do Brasil que faz com que nossas histórias sejam contadas de outra maneira? Como trazer formatos criados fora do país pensando não apenas em tradução, mas em adaptação?”, perguntou o coordenador do Lunar.
Fábio afirmou que esse debate esteve presente em sua passagem pela empresa. Parte da produção norte-americana se aproxima de uma narração documental de matriz hollywoodiana. Apenas traduzir o roteiro pode conservar uma estrutura pouco próxima das formas brasileiras de conversar, narrar e organizar experiências.
Para ele, o podcast precisa ser entendido como continuidade das tradições orais. O Não Inviabilize, por exemplo, incorpora a estética da fofoca; outros programas podem se aproximar da conversa familiar, da narrativa circular, do humor, do testemunho ou de diferentes maneiras populares de contar histórias.
“Podcast é tradição oral. O desafio é pensar quais oralidades estamos deixando de incorporar e quais outras formas podemos utilizar para contar nossas histórias”, respondeu.
O trabalho autoral aparece justamente nessa aproximação. Mais do que reproduzir um modelo reconhecido internacionalmente, o narrador precisa mostrar por que está envolvido com aquela pauta e por que deseja compartilhá-la.
“Quanto mais o roteirista e o narrador trouxerem sua alma para a história, mais o ouvinte perceberá que existe alguém apaixonado explicando por que aquilo importa”, completou Fábio.
Audiência não é o mesmo que comunidade
A sustentabilidade financeira ocupou a parte final da conversa. Foram discutidos anúncios inseridos pelas plataformas, apoio recorrente de ouvintes, financiamento coletivo, publicidade e leis de incentivo.
Os participantes evitaram apresentar um caminho único. Uma produção pode combinar fontes de receita, buscar editais, desenvolver parcerias com marcas ou crescer a partir do apoio direto de sua comunidade. Projetos independentes como o Rádio Escafandro e o História em Meia Hora mostram que é possível construir operações sustentadas, ao menos parcialmente, pelos próprios ouvintes.
Fábio defendeu que as marcas não tentem transformar podcasts em grandes anúncios. Em vez de controlar integralmente a pauta, podem apoiar conteúdos que tenham valor próprio para o público. Quando o programa se limita a promover diretamente um produto, tende a perder o vínculo que torna o podcast atrativo.
A mesa também diferenciou audiência de comunidade. Um programa pode alcançar milhões de reproduções sem mobilizar seus ouvintes, enquanto uma produção menor pode lotar encontros, financiar temporadas e manter um público disposto a divulgar o conteúdo.
Rodrigo Alves mencionou os encontros que realiza com ouvintes do Vida de Jornalista. Mesmo quando reúnem apenas dez pessoas em uma cidade, esses momentos fortalecem uma comunidade claramente identificada: jornalistas e estudantes de jornalismo.
“Podcast não é igual a formato social. Podcast é igual a comunidade”, sintetizou Fábio.
O debate mostrou que as plataformas influenciam a maneira como os programas são encontrados, financiados e consumidos, mas não precisam determinar o que será criado. Dados podem orientar decisões, capas e descrições podem facilitar a descoberta e diferentes formatos podem sustentar a periodicidade. A história, porém, continua sendo o ponto de partida.
O algoritmo pode ajudar uma produção a chegar ao ouvinte. Não pode substituir a escuta, a apuração, a oralidade e a obsessão necessárias para fazer uma narrativa ganhar vida.




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