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Prêmio Cápsula Lunar reconhece seis TCCs dedicados aos podcasts narrativos

Estudo sobre o podcast 37 Graus e radiodocumentário sobre uma emissora comunitária mineira conquistaram os primeiros lugares nas categorias Melhor Monografia e Melhor TCC Prático



O Prêmio Cápsula Lunar anunciou os melhores trabalhos de conclusão de curso dedicados aos podcasts narrativos. A cerimônia, realizada durante a programação on-line do Vozes em Órbita — I Encontro Nacional de Podcasts Narrativos, reconheceu seis pesquisas e produções desenvolvidas em universidades de diferentes regiões do país.


Na categoria Melhor Monografia, o primeiro lugar ficou com Estela Magalhães Ribeiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por um estudo sobre o uso do radiojornalismo narrativo na divulgação científica. Entre os trabalhos práticos, venceu A Voz da Serra, radiodocumentário produzido por Maria Izabela Ferreira, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), sobre uma emissora comunitária de Araponga, na Zona da Mata mineira.


A comissão julgadora foi formada por Felipe Ivanicska, criador do podcast Histórias Vizinhas e colaborador do Lunar; Bárbara Rubira, jornalista da Rádio Novelo; e Heloiza Barbosa, pesquisadora, escritora e criadora do podcast Faxina.


Mais do que estabelecer uma classificação, a proposta do prêmio foi criar um espaço de escuta, circulação e discussão sobre trabalhos que frequentemente permanecem restritos às bancas e aos repositórios universitários.


“Mais do que um ranking, esta é uma oportunidade de parar para pensar junto. A produção do podcast narrativo é muito solitária, e ter esse momento de troca já é muito importante”, afirmou Felipe Ivanicska durante a abertura da cerimônia.


Pesquisa sobre o 37 Graus vence Melhor Monografia

O primeiro lugar na categoria Melhor Monografia foi concedido a Estela Magalhães Ribeiro pelo trabalho O radiojornalismo narrativo como gênero de divulgação científica: uma análise do podcast 37 Graus. A pesquisa, orientada pelo professor Marcelo Kischinhevsky, foi defendida na UFRJ em 2024.


A partir da análise do episódio “O crânio do pai da Bia”, Estela investigou como o 37 Graus combina apuração jornalística, recursos sonoros, proximidade com o ouvinte e técnicas de storytelling para comunicar temas científicos. O estudo também considerou as dimensões multimídia do podcast e as formas de interação estabelecidas com o público.

Para a autora, o TCC representou o início de uma trajetória que continua no mestrado em Comunicação da UFRJ.


“Foi totalmente a minha porta de entrada para o mundo acadêmico e para a pesquisa. É uma coisa de que gosto muito e que quero continuar estudando, aprendendo e trabalhando”, contou Estela depois do anúncio do resultado.


O segundo lugar ficou com Isabela Cabral Barbosa, autora de Jornalismo narrativo em podcast: uma análise da linguagem, da mídia e do cenário. Orientada pela professora Patrícia Maurício, a monografia foi defendida na PUC-Rio em 2015 e registra um momento em que os podcasts ainda começavam a conquistar espaço nas universidades brasileiras.


Larissa Ferreira de Queiroz recebeu o terceiro lugar com Testemunho e subjetividade no podcast narrativo “Rádio Novelo Apresenta” em tempos de formatos híbridos. Defendido na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em 2024, sob orientação da professora Cláudia de Albuquerque Thomé, o trabalho investiga as estratégias narrativas empregadas pelo programa da Rádio Novelo.


Larissa escolheu o objeto depois de perceber que o Rádio Novelo Apresenta abordava personagens e acontecimentos pouco presentes no noticiário cotidiano. A pesquisa discute testemunho, subjetividade, formatos híbridos e a construção de um narrador que estabelece uma relação mais próxima e dialógica com as fontes e com o público.

Os jurados destacaram a capacidade da autora de equilibrar a observação das ferramentas técnicas com a análise da linguagem sonora.


Rádio comunitária de Araponga inspira melhor trabalho prático

Na categoria Melhor TCC Prático, o primeiro lugar foi conquistado por Maria Izabela Ferreira com A Voz da Serra. Orientado pela professora Kátia Fraga e apresentado na UFV em 2025, o radiodocumentário acompanha a Muriqui FM, única emissora comunitária de Araponga, município de aproximadamente oito mil habitantes no interior de Minas Gerais.


Maria Izabela cresceu ouvindo rádio e partiu de um incômodo pessoal: a afirmação recorrente, sobretudo em contextos urbanos, de que o meio estaria próximo do fim. Em sua cidade, o rádio continuava presente na vida familiar, na circulação de informações e nas relações cotidianas.


O trabalho investiga como a emissora produz pertencimento, preserva a memória local e forma redes de afeto entre locutores e ouvintes. A narrativa também procura enfrentar representações estereotipadas do interior mineiro, permitindo que seus próprios moradores contem a experiência de viver naquele território.


“A gente sempre vê a representação do mineiro contada por outras pessoas. Tudo bem: o mineiro faz um ótimo café e gosta de morar na roça. Mas deixa que a gente conta essa história”, defendeu Maria Izabela.


A proximidade da autora com as fontes tornou-se uma das forças do projeto. As entrevistas foram realizadas presencialmente, em conversas informais com moradores, ouvintes, familiares e profissionais que participaram da história da rádio. Sons captados na cidade e referências pessoais ajudam a construir o ambiente da narrativa.


Maria Izabela contou que quase deixou de inscrever o trabalho no prêmio por acreditar que uma história tão local talvez não interessasse a ouvintes de outros lugares.

“Eu pensei e repensei um milhão de vezes antes de mandar esse trabalho. Ficava me perguntando: será que essa história interessa? Será que as pessoas vão se identificar?”, recordou.


Para os jurados, foi justamente a capacidade de partir de uma pequena comunidade e alcançar questões mais amplas sobre rádio, pertencimento e memória que colocou A Voz da Serra em primeiro lugar.


Fundação Casa e cinema de rua completam o pódio

O segundo lugar entre os trabalhos práticos ficou com Júlia Dal Bello da Silva e Núbia Anjos, da ESPM-SP, pela série Como se Antes Fosse. Orientado pela professora Patrícia Rangel e concluído em 2025, o podcast investiga a trajetória da Fundação Casa, antiga Febem, e a permanência de violações de direitos no sistema socioeducativo.


A produção nasceu do interesse das autoras por pautas de justiça social. A série recupera a transformação histórica da Febem em Fundação Casa, analisa documentos e leis e reúne relatos sobre os impactos das práticas institucionais na vida de adolescentes.

A comissão julgadora destacou o equilíbrio entre a dimensão emocional dos depoimentos e o rigor jornalístico. O uso de documentos oficiais, diferentes vozes e entrevistas disponibilizadas integralmente ajudou a sustentar uma narrativa cuidadosa sobre um tema sensível.


Em terceiro lugar ficou Luz, Câmera e Ação! A história do primeiro e único cinema de rua de Imaruí, de Nilton Marcolino. Produzido na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sob orientação da professora Stefanie Carlan da Silveira, o trabalho foi concluído em 2024.


O podcast reconstrói a trajetória do Cine Atalaia, posteriormente chamado Cine Globo, que funcionou em Imaruí entre 1965 e 1973. Hoje transformado em restaurante, o edifício conserva vestígios do período em que recebeu moradores para sessões de cinema.


A ideia surgiu quando Nilton descobriu que o avô de sua namorada havia sido responsável pelo estabelecimento. Diante da perda de fotografias, cadernos, rolos de filmes e outros documentos, ele percebeu que a voz dos antigos frequentadores poderia se tornar o principal arquivo daquela experiência.


“A memória precisa ser documentada por áudio. O texto consegue registrar, mas a pessoa falando tem outro peso, outra forma de manter a história”, explicou.


A narrativa foi estruturada como um roteiro cinematográfico, dividido em “luz”, “câmera”, “ação” e “pós-créditos”. O projeto também ganhou um site com fotografias, transcrição e materiais complementares sobre o cinema e a memória cultural do município.


Formação de produtores e ouvintes

Para os jurados, a diversidade dos trabalhos demonstra que o podcast narrativo passou a ocupar um espaço crescente na formação universitária. As pesquisas não se limitam a estudar produtos de grandes empresas: também documentam rádios comunitárias, cinemas do interior, instituições públicas e experiências sociais frequentemente ausentes dos meios de comunicação nacionais.


Heloiza Barbosa destacou a qualidade dos trabalhos acadêmicos e das produções realizadas por estudantes e criadores independentes. “Fiquei absolutamente maravilhada com a qualidade da produção e com a diversidade de linguagem. Foi difícil escolher, porque a vontade era reconhecer todo mundo”, afirmou.


Bárbara Rubira lembrou que, durante sua própria graduação, produzir um podcast como trabalho de conclusão de curso ainda não era uma possibilidade comum. Para ela, a incorporação do formato por estudantes e professores contribui tanto para formar profissionais quanto para ampliar a escuta crítica do público.


“Isso me alegra muito porque estamos formando novos produtores. Quando fazemos conteúdo bom, bem pensado e bem produzido, também criamos ouvintes que se acostumam a ouvir coisas boas e passam a procurar cada vez mais”, avaliou.


Confira a classificação completa

Melhor Monografia

1º lugar — Estela Magalhães Ribeiro

O radiojornalismo narrativo como gênero de divulgação científica: uma análise do podcast 37 Graus

Orientação: Prof. Dr. Marcelo Kischinhevsky

UFRJ, 2024

2º lugar — Isabela Cabral Barbosa

Jornalismo narrativo em podcast: uma análise da linguagem, da mídia e do cenário

Orientação: Profa. Dra. Patrícia Maurício

PUC-Rio, 2015


3º lugar — Larissa Ferreira de Queiroz

Testemunho e subjetividade no podcast narrativo “Rádio Novelo Apresenta” em tempos de formatos híbridos

Orientação: Profa. Dra. Cláudia de Albuquerque Thomé

UFJF, 2024


Melhor TCC Prático

1º lugar — Maria Izabela Ferreira

A Voz da Serra

Orientação: Profa. Dra. Kátia Fraga

UFV, 2025


2º lugar — Júlia Dal Bello da Silva e Núbia Anjos

Como se Antes Fosse

Orientação: Profa. Dra. Patrícia Rangel

ESPM-SP, 2025


3º lugar — Nilton Marcolino

Luz, Câmera e Ação! A história do primeiro e único cinema de rua de Imaruí

Orientação: Profa. Dra. Stefanie Carlan da Silveira

UFSC, 2024

 
 
 

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