Turma de Comunicação em Rádio da UERJ conhece os bastidores de Estrelas da Capa
- Andriolli Costa
- 14 de ago.
- 5 min de leitura
Após uma audição coletiva do podcast, estudantes conversaram com Laura Capelhuchnik, editora-assistente de podcasts e documentários do UOL, sobre roteiro, desenho de som, humor e temas sensíveis
A turma da disciplina Comunicação em Rádio da UERJ participou de uma audição coletiva de Estrelas da Capa: As Histórias da Playboy, podcast narrativo do UOL Prime. Após acompanhar parte do primeiro episódio, os estudantes conversaram com a jornalista Laura Capelhuchnik, que participou da coordenação da série e do tratamento dos roteiros.
Conduzida pelo professor Andriolli Costa, coordenador do Lunar, a atividade aconteceu de maneira híbrida, com estudantes em sala de aula e participantes acompanhando a transmissão e enviando perguntas pela internet. Na ocasião, a turma recebeu acesso especial ao podcast e ouviu aproximadamente dois terços do episódio de estreia, A toca do coelho.
Apresentada pelos jornalistas Adriana Negreiros e Juca Kfouri, a série Estrelas da Capa recupera a trajetória da edição brasileira da revista Playboy. Ao longo de cinco episódios, a produção aborda os bastidores dos ensaios, as negociações com as mulheres convidadas para as capas, o trabalho jornalístico da redação e as transformações culturais ocorridas durante os 42 anos em que a revista circulou no país.
O primeiro episódio começa desmontando o imaginário construído em torno da redação da publicação. Em vez do ambiente permanentemente festivo e erotizado imaginado por parte do público, antigos profissionais descrevem um espaço de trabalho convencional, com jornalistas, editores, prazos apertados e decisões editoriais. A narrativa também recupera histórias envolvendo personalidades como Xuxa, Pelé, Claudia Raia e Hortência.
Nem toda boa história funciona em áudio
Durante a conversa, Laura Capelhuchnik explicou que a equipe de podcasts narrativos atua de maneira transversal dentro da redação do UOL. As pautas podem surgir de investigações desenvolvidas por outras editorias, de sugestões de repórteres ou de acontecimentos que ofereçam uma oportunidade para recuperar determinada história.
A existência de uma pauta interessante, entretanto, não é suficiente para justificar sua transformação em podcast.
“Não é simplesmente pensar: ‘temos uma história boa, vamos contá-la em áudio’. É preciso entender se realmente existem elementos para contar essa história em áudio”, explicou Laura.
No caso de Estrelas da Capa, o cinquentenário do lançamento da revista no Brasil ofereceu o ponto de partida. A equipe também contava com a experiência de Adriana Negreiros e Juca Kfouri, que haviam trabalhado na publicação, além de entrevistas, memórias de antigos profissionais e histórias ainda pouco conhecidas pelo público.
O desafio estava em transformar esse material em uma narrativa sonora. Diferentemente de um podcast investigativo baseado em deslocamentos, descobertas e cenas gravadas em campo, Estrelas da Capa trabalha principalmente com lembranças. Além disso, a revista tinha na fotografia e na composição de suas capas alguns de seus elementos mais reconhecidos.
Como contar uma revista sem mostrar as imagens?
A relação entre som e imagem orientou uma das principais discussões da aula. Enquanto ouviam o episódio, os estudantes puderam consultar algumas das fotografias mencionadas. A comparação mostrou como a descrição sonora produz uma imagem mental que nem sempre corresponde ao material original.
Para Laura, essa distância entre o objeto visual e aquilo que cada ouvinte imagina pode ser explorada de maneira criativa.
“O podcast tem essa magia de apostar na imaginação e permitir que o ouvinte complete a história com os próprios pensamentos”, afirmou.
A equipe investiu em descrições detalhadas dos ensaios e em um desenho de som capaz de transportar o público pelas diferentes décadas. As trilhas acompanham as mudanças de época, enquanto efeitos, músicas e escolhas de montagem procuram recuperar o humor e a descontração associados à antiga redação.
O som também ajuda a construir o contexto para ouvintes que não conheceram a revista. A turma reunida na UERJ era formada majoritariamente por jovens que não viveram o período de maior circulação da Playboy, o que permitiu observar se a narrativa oferecia informações suficientes para um público sem memória direta da publicação.
Um quebra-cabeça de histórias e épocas
Questionada pelos estudantes sobre a organização dos episódios, Laura comparou o processo a um quebra-cabeça. A cronologia da revista funcionou como a espinha dorsal da temporada, desde seu lançamento durante a ditadura militar, em 1975, até a crise provocada pelas mudanças no mercado editorial e pela expansão da internet.
Sobre essa linha do tempo, a equipe distribuiu histórias de bastidores, entrevistas e temas considerados fundamentais, como as transformações do jornalismo, os padrões de beleza, as relações de gênero e as mudanças nos costumes.
Cada episódio recebeu uma história principal, capaz de guiar o ouvinte, acompanhada de relatos menores e episódios curiosos. A estrutura foi montada a partir do material disponível, com as histórias distribuídas como se fossem anotações colocadas sobre uma mesa e posteriormente agrupadas de acordo com a época e o tema.
A produção realizou a maior parte das entrevistas especialmente para a série. Em alguns casos, porém, mulheres que haviam posado para a revista não quiseram voltar ao assunto. A equipe recorreu, então, a entrevistas de arquivo, devidamente identificadas no roteiro.
Humor também exige edição
O tom bem-humorado de Estrelas da Capa motivou perguntas sobre os limites entre ironia, deboche e reprodução de preconceitos. Laura revelou que diversas piadas foram retiradas durante a edição.
A preocupação era recuperar a atmosfera irreverente da revista sem ignorar que sua história também foi atravessada por misoginia, racismo, gordofobia e padrões restritivos de beleza. O texto passou pela avaliação de uma equipe diversa em gênero, raça e faixa etária, além de audições internas antes da versão final.
De acordo com a editora, o humor foi utilizado não apenas para reproduzir o ambiente da redação, mas também para olhar criticamente para a própria revista. As decisões eram revistas durante a escrita, a edição e a gravação. Algumas piadas precisaram ser alteradas porque funcionavam no roteiro, mas não pareciam adequadas quando ditas pelos apresentadores.
A abordagem dos temas sensíveis seguiu a mesma lógica. Em vez de oferecer uma conclusão única sobre a revista, o podcast reúne perspectivas divergentes. Algumas entrevistadas consideram os ensaios uma experiência de autonomia e enfrentamento ao moralismo; outras identificam processos de objetificação e violência.
Laura explicou que a equipe procurou distinguir o uso de uma fala preconceituosa para revelar determinada realidade de sua reprodução apenas para expor a fonte e voltar a ofender as pessoas atingidas por aquele discurso. Para isso, o roteiro contextualiza as declarações, apresenta dados e explicita os dilemas enfrentados pela produção.
Audição como experiência de formação
A conversa também abordou o tempo de produção da série. As primeiras ideias começaram a ser desenvolvidas em maio de 2025. Depois de cerca de três meses de pesquisa, entrevistas e elaboração dos roteiros, as gravações começaram em agosto, seguidas pelas etapas de montagem, edição e lançamento.
Ao final, Andriolli Costa destacou o valor da audição coletiva como exercício para a formação dos estudantes. “O podcast costuma ser uma experiência muito individual. A audição coletiva talvez não dê conta de toda a dimensão do trabalho, mas funciona como uma primeira entrada para que os estudantes compreendam suas escolhas de produção”, avaliou.
A atividade permitiu que a turma relacionasse os conceitos trabalhados em sala às decisões concretas de uma produção profissional. Roteiro, estrutura, memória, descrição, trilha, arquivo, humor e responsabilidade editorial deixaram de aparecer apenas como etapas técnicas e puderam ser discutidos a partir de seus efeitos sobre a experiência do ouvinte.




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