Pavulagem amplifica vozes indígenas e ribeirinhas para narrar os encantados da Amazônia
Em conversa realizada durante o Vozes em Órbita, criador do podcast Pavulagem falou sobre oralidade, memória, encantarias e o direito de indígenas e ribeirinhos narrarem as próprias histórias
Como transformar tecnologias contemporâneas em instrumentos de preservação da memória sem retirar das comunidades o protagonismo sobre suas histórias? A questão atravessou a entrevista realizada pela bolsista do Lunar Lorena Fernandes com o jornalista, escritor e podcaster Maickson Serrão, durante o Vozes em Órbita – I Encontro Nacional de Podcasts Narrativos.
Promovido pelo Lunar entre 29 de setembro e 1º de outubro de 2025, na UERJ, o evento reuniu pesquisadores, estudantes e profissionais para discutir diferentes experiências de produção em áudio. Na entrevista, Maickson apresentou os bastidores de Pavulagem, podcast que registra histórias dos seres encantados da Amazônia pelas vozes de narradores indígenas e ribeirinhos.
Integrante do povo Tupinambá, Maickson nasceu na comunidade de Boim, na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, em Santarém, no Pará. É jornalista, mestre em Ciências Humanas e doutorando em Antropologia Social. Além do podcast, é autor do livro infantil A Mãe da Mata e diretor da animação A Origem da Noite.
Quando contar histórias era o entretenimento
Ao perguntar como surgiu a ideia de utilizar o podcast para narrar suas vivências, Lorena conduziu a conversa até a infância de Maickson. Ele cresceu em uma comunidade que só recebeu energia elétrica quando já era adulto. Antes da chegada da televisão, da internet e dos celulares, as histórias contadas por familiares e moradores ocupavam um lugar central na vida coletiva.
“Esse momento de contação de histórias e de transmissão da cultura oral era muito forte e muito rico. Era também o nosso entretenimento”, recorda.
Quando se mudou para a cidade, Maickson percebeu que muitas crianças, inclusive aquelas que viviam em Manaus e estavam geograficamente próximas de comunidades indígenas e ribeirinhas, desconheciam as narrativas amazônicas.
A constatação fez com que ele passasse a enxergar o jornalismo e a produção sonora como instrumentos de registro. Na visão de Maickson, a oralidade é potente porque atravessa gerações, mas também pode ser frágil quando deixa de ser transmitida.
“Muito desse conhecimento está na cabeça dos contadores de histórias. Quando essas pessoas ancestralizam, levam consigo todo esse saber, caso não tenham conseguido passá-lo para alguém”, explica.
O desafio, portanto, não seria rejeitar as novas tecnologias que chegavam às comunidades, mas incorporá-las aos processos de circulação dos saberes ancestrais.
“A tecnologia está aí. A questão é como podemos usá-la como uma ferramenta para nos auxiliar. Eu decidi amplificar essas vozes e essas narrativas por meio do podcast, porque a oralidade e a contação de histórias estão muito presentes na voz e no áudio.”
Contar com as próprias vozes
O cuidado com quem fala e com a maneira como cada história é apresentada orienta a produção de Pavulagem. Maickson destaca que o projeto não busca apenas recolher conteúdos das comunidades, mas respeitar as narrativas como conhecimentos oferecidos pelos próprios contadores.
“O meu maior medo era não respeitar essas histórias e essas vozes. Era preciso ter muito cuidado com a forma de falar e de abordar. Essas narrativas são um presente que os contadores trazem não apenas para mim, mas para quem ouve o podcast”, afirma.
Essa preocupação também aparece na valorização dos sotaques, das expressões e dos regionalismos. Em vez de adotar uma voz radiofônica padronizada, o podcast preserva diferentes modos de falar da Amazônia.
Para Maickson, essa liberdade é uma das riquezas do podcast narrativo. As particularidades da fala não representam ruídos que devem ser apagados, mas elementos que revelam a origem, a experiência e a identidade de cada pessoa.
Lorena relacionou essa escolha à presença de materiais estereotipados sobre povos indígenas na educação e na mídia. Em resposta, Maickson observou que muitas histórias indígenas ainda são registradas exclusivamente por pessoas externas às comunidades.
“São narrativas do nosso povo, mas faladas por outras pessoas. A gente já viu muito disso na história do Brasil: a história sendo contada apenas por um segmento. Precisamos ter o olhar indígena e contar nossas próprias histórias com as nossas próprias vozes”, defende.
O podcast como memória sonora
Durante a entrevista, Lorena perguntou se os podcasts narrativos poderiam ser compreendidos como formas de preservação do patrimônio imaterial. Maickson respondeu que o áudio pode desempenhar essa função quando registra histórias socialmente relevantes e mantém as vozes dos narradores disponíveis para as próximas gerações.
Alguns dos contadores ouvidos por Pavulagem faleceram depois das gravações. Suas vozes, no entanto, continuam presentes no podcast.
“Três contadores de histórias que participaram já ancestralizaram. As vozes e as histórias deles estão imortalizadas por meio dessa tecnologia. Poderão ser ouvidas pelos netos, bisnetos e pelas gerações futuras”, conta.
O registro não substitui a transmissão oral nem transforma o podcast em proprietário das narrativas. Sua função é ampliar a circulação das histórias recebidas dos antepassados, mantendo a identidade dos contadores e das comunidades que as preservaram.
Para Maickson, existe um campo amplo a ser explorado. Quando soube de outra pessoa interessada em desenvolver um trabalho semelhante, recusou a ideia de que se tratava de uma concorrência.
“Há muito espaço para todos nós e muitas histórias para contar. O que queremos é justamente que existam mais produtos, mais materiais e mais narrativas feitas por nós.”
A floresta como paisagem sonora
A estética de Pavulagem foi outro tema abordado por Lorena. Maickson explicou que a equipe construiu um acervo de sons da floresta, reunindo cantos de pássaros, sapos, outros animais, passos e diferentes atmosferas noturnas.
Os sons captados durante as entrevistas também integram a narrativa. Como as conversas costumam acontecer perto da mata, o ambiente participa naturalmente das gravações. A intenção é transportar o ouvinte para o território onde as histórias circulam.
“Desde o início, a ideia era fazer com que os ouvintes se sentissem dentro do cenário, como se estivessem na floresta”, explica.
Enquanto Maickson realiza sozinho grande parte das viagens e entrevistas de campo, uma equipe especializada trabalha na pós-produção. O programa surgiu no Sound Up Brasil, iniciativa do Spotify voltada à formação e à ampliação da presença de criadores sub-representados na podosfera. Desenvolvido como um Original Spotify, o projeto contou com a produção da Trovão Mídia.
O processo envolveu formação em roteiro, captação, edição e desenho de som. Maickson afirma que, quando ingressou no programa, ainda não dominava a linguagem dos podcasts, mas acreditava na força da ideia.
“A decisão acertada foi trazer uma equipe profissional, empregar os melhores recursos e fazer tudo com muito cuidado e respeito por essas vozes e histórias.”
Produzir áudio na Amazônia
A realização de um podcast de campo na Amazônia também apresenta desafios financeiros e logísticos particulares. Para encontrar os narradores, Maickson percorre municípios, aldeias e comunidades acessíveis por avião, ônibus ou barco. Algumas viagens levam dias.
A primeira temporada reuniu histórias que ele já conhecia. À medida que o programa passou a circular, os próprios ouvintes começaram a indicar novos narradores. Assim foi formada parte da rede de fontes da segunda temporada.
Para continuar percorrendo estados como Acre e Rondônia, o projeto depende da obtenção de novos recursos. Na avaliação de Maickson, políticas públicas e editais precisam reconhecer a produção cultural e a oralidade como dimensões fundamentais da preservação da Amazônia.
Ele menciona avanços proporcionados pelas leis de incentivo à cultura, mas considera que ainda são insuficientes diante da quantidade de histórias e conhecimentos que permanecem sem registro.
“As políticas públicas precisam enxergar a oralidade e os conhecimentos que não estão registrados como uma potência. Se isso não acontecer, acabamos perdendo uma riqueza enorme que ainda está na cabeça das pessoas.”
Materiais para a educação
A publicação do livro A Mãe da Mata também responde ao desejo de alcançar crianças e educadores. Maickson lembra que a Lei nº 11.645, de 2008 tornou obrigatório o estudo da história e da cultura afro-brasileira e indígena no ensino fundamental e médio.
Na prática, porém, professores ainda encontram poucos materiais produzidos a partir das perspectivas dos próprios povos indígenas. Quando existem registros, eles podem reproduzir distorções, generalizações e estereótipos.
“A gente precisa incentivar a produção de materiais para que os professores possam trabalhar e fazer valer essa lei. Eu estou fazendo uma parte, mas é um trabalho de formiguinha diante de tudo o que ainda pode ser feito”, avalia.
A expansão de Pavulagem para livros, animações e documentários busca alcançar públicos que não consomem podcasts. Maickson passou a chamar esse conjunto de iniciativas de “Pavulagem em Produções”, indicando que o projeto já não se limita a uma única mídia.
Encantarias como parte da vida
Na parte final da conversa, Maickson chamou atenção para um aspecto fundamental: os seres encantados não são compreendidos pelas comunidades apenas como personagens fantasiosos.
“Muita gente vê isso como folclore, como fantasia ou como mentira. Para nós, não é assim. A gente acredita, tem medo, viveu experiências. Os seres encantados fazem parte do nosso universo e do nosso cotidiano”, explica.
Ao reconhecer essa perspectiva, Pavulagem evita reduzir as narrativas amazônicas a curiosidades exóticas. O podcast parte do entendimento de que as encantarias expressam formas próprias de perceber o território, relacionar-se com a floresta e transmitir conhecimentos entre gerações.
A entrevista conduzida por Lorena Fernandes mostra, assim, que registrar uma história não é apenas conservá-la. É também decidir quem pode contá-la, por qual linguagem, com quais sons e a partir de qual experiência de mundo.





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