Giovana Mesquita apresenta radionovelas que unem ficção e informação em aula na UERJ
Professora da UFPE compartilhou experiências de produção sonora com estudantes e comunidades, discutindo criação de personagens, apuração e comunicação em saúde.
Em junho de 2025, a jornalista e professora Giovana Mesquita, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), participou de uma aula da disciplina Comunicação em Rádio na UERJ, ministrada por Andriolli Costa, coordenador do Laboratório Lunar. Na conversa com a turma, apresentou experiências em que radionovelas aproximam literatura, jornalismo e comunicação em saúde, com histórias produzidas por estudantes e integrantes de comunidades pernambucanas.
Entre os trabalhos apresentados estava Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia, uma adaptação da obra de Ariano Suassuna desenvolvida no Centro Acadêmico do Agreste da UFPE, em Caruaru. O projeto já trabalhava com adaptações literárias quando a chegada da covid-19 motivou uma mudança no roteiro: o universo de João Grilo e Chicó passou a incorporar os conflitos daquele momento, incluindo a circulação de informações falsas e as disputas políticas e econômicas em torno das medidas de prevenção.
A trama ganhou personagens como o Capitão Covid, o prefeito de Taperoá e um jornalista, que ajudava a discutir a importância de buscar fontes confiáveis. Segundo Giovana, a equipe acompanhava o noticiário e consultava profissionais de saúde para transformar informações verificadas em situações dramáticas. Um dos desafios era preservar o humor da obra sem banalizar o sofrimento provocado pela pandemia. “O objetivo é levar informação às pessoas”, afirmou.
A mesma preocupação orientou Santos Conectados no Combate à Covid-19, produção do projeto de extensão Solte Sua Voz: Os Invisíveis Midiáticos. Diante da suspensão das festas juninas, a equipe recorreu à relação de Caruaru com Santo Antônio, São João e São Pedro para construir uma narrativa sobre prevenção. Na ficção, os santos criavam um grupo de WhatsApp e conversavam com seus devotos. Santo Antônio, por exemplo, precisava convencer uma fiel a adiar a procura presencial por um marido, enquanto São João explicava por que a festa daquele ano deveria acontecer em casa.
Os bastidores dessas produções também entraram na conversa com os estudantes da UERJ. Durante o isolamento, os participantes gravavam suas falas em diferentes cidades de Pernambuco, usando os celulares disponíveis. Para contornar o barulho doméstico, houve quem gravasse à noite, dentro de guarda-roupas ou debaixo de cobertas. As vozes eram reunidas na edição, enquanto a direção solicitava novas tomadas e ajustes de interpretação. O trabalho envolvia ainda roteiro, sonoplastia, trilha musical, criação visual e divulgação.
Outra experiência apresentada foi Picada de Ódio: a picada que ninguém gostaria de sentir na pele, realizada em parceria com integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de Pernambuco e o projeto Arbocontrol. Voltada à informação sobre dengue, zika e chikungunya, a radionovela foi criada com a participação de assentados e assentadas, que também interpretaram os personagens. Entre eles estavam o Mosquitão, a Mosquitona e uma agente de saúde, envolvidos em situações que permitiam discutir prevenção e desinformação.
Para Giovana, produzir comunicação em saúde exige considerar as condições de vida de quem recebe a mensagem. Ao recordar outro trabalho com jovens de Brasília Teimosa, no Recife, ela questionou: “Como é que você diz para lavar as mãos para alguém que não tenha água dentro de casa?”. A preocupação também atravessava Picada de Ódio: a abordagem buscava discutir os cuidados com a saúde sem responsabilizar individualmente os moradores por problemas relacionados às condições dos lugares onde viviam.
Na discussão com a turma, Andriolli relacionou essas experiências à folkcomunicação, destacando o uso de elementos das culturas populares na comunicação sobre saúde. Nas produções apresentadas, o reconhecimento de personagens, referências religiosas, modos de falar e situações do cotidiano fazia parte da construção das histórias e da aproximação com os públicos.
A circulação de Picada de Ódio pelos grupos de WhatsApp do MST rendeu um relato sobre essa relação com os ouvintes. Segundo Giovana, em um encontro presencial posterior à produção, os participantes se cumprimentavam pelos nomes dos personagens. Nas visitas de uma agente de saúde que havia participado da radionovela, moradores faziam referência ao Mosquitão para mostrar que estavam cuidando da casa. Durante a aula, a professora contou ainda que havia recebido pedidos para reutilizar a história em novas ações de informação sobre as doenças.





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