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Até onde pode ir a ficção no jornalismo? Lunar debate ética em podcasts narrativos

14 de ago.
4 min de leitura

Encontro recebeu o professor Guilherme Fernandes, da UFRB, e discutiu os limites entre jornalismo e ficção a partir de um episódio retratado do programa This American Life



O Lunar realizou, no dia 30 de março, uma reunião aberta dedicada aos desafios éticos da produção de podcasts narrativos. Mediado pelo professor Andriolli Costa, o encontro contou com a participação de integrantes do laboratório e do professor Guilherme Fernandes, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).


Professor de radiojornalismo no campus de Cachoeira, Fernandes desenvolve pesquisas sobre mídia sonora, folkcomunicação, ficção seriada e telenovela. O pesquisador também trabalha com podcasts narrativos em sala de aula e participou da reunião como convidado para acompanhar e contribuir com o debate.


A atividade tomou como ponto de partida o episódio Mr. Daisey and the Apple Factory, publicado em janeiro de 2012 pelo programa estadunidense This American Life. A produção apresentava um trecho do monólogo teatral The Agony and the Ecstasy of Steve Jobs, no qual o ator e escritor Mike Daisey narrava uma viagem a Shenzhen, na China, e seus supostos encontros com trabalhadores da Foxconn, empresa responsável pela fabricação de dispositivos eletrônicos para a Apple.


Dois meses depois, o próprio This American Life retirou o áudio original de circulação e publicou o episódio especial Retraction. A decisão ocorreu após o repórter Rob Schmitz localizar Cathy Lee, intérprete que acompanhou Daisey na China, e descobrir que diferentes passagens do monólogo haviam sido inventadas, exageradas ou reunidas como se tivessem sido testemunhadas pessoalmente pelo artista.


Performance envolvente, apuração insuficiente

Na primeira parte da reunião, os integrantes do Lunar compartilharam suas impressões sobre o episódio. Entre os aspectos discutidos estiveram a longa duração do monólogo, as risadas da plateia, o uso do humor diante de temas como exploração e trabalho infantil e a ausência de trabalhadores chineses falando diretamente sobre suas experiências.


O grupo também identificou uma representação estereotipada da China e de seus habitantes. As mudanças de voz empregadas pelo narrador, o uso frequente de adjetivos e a caracterização dos trabalhadores como pessoas ingênuas ou incapazes de compreender a própria condição foram associados a um olhar orientalista e condescendente.


Ao transformar sua passagem pelas fábricas chinesas em uma performance, Daisey criou cenas capazes de envolver emocionalmente o público. Essa eficiência narrativa, entretanto, também ajudou a ocultar as fragilidades da apuração. O episódio depositava grande confiança em uma única fonte, apesar de o programa contar com recursos e correspondentes que poderiam ter verificado as informações diretamente na China.


“Pela estética, o público acaba se deixando levar e ignora princípios éticos. Fica ludibriado pela beleza do processo: o narrador se expressa bem e constrói cenas que ativam diretamente o imaginário. Isso pode funcionar no teatro, mas é insuficiente para o jornalismo, que precisa de mais vozes e de verificação”, explica Andriolli Costa, coordenador do Laboratório.


A discussão mostrou como uma narrativa bem construída pode levar jornalistas, editores e ouvintes a aceitar uma história porque ela parece coerente, relevante e dramaticamente poderosa. No caso analisado, o desejo de denunciar condições precárias de trabalho contribuiu para que o programa deixasse de realizar verificações indispensáveis.


A mentira pode servir a um “bem maior”?

Outro eixo do encontro foi a justificativa apresentada por Mike Daisey. O artista sustentou que sua intenção era sensibilizar o público para as condições dos trabalhadores chineses e que, no teatro, poderia recorrer à dramatização para atingir esse objetivo.


Para os participantes, o problema não estava somente na utilização de recursos ficcionais no palco, mas na manutenção dessas informações quando o monólogo foi incorporado por um programa jornalístico. Daisey apresentou como experiências pessoais acontecimentos que havia conhecido por meio de reportagens e pesquisas. Também dificultou o processo de checagem ao afirmar que sua intérprete não poderia ser localizada.


O debate aproximou o caso das estratégias contemporâneas de desinformação e da ideia de que seria aceitável distorcer fatos em defesa de determinada causa. Os integrantes ressaltaram que a defesa de um objetivo considerado justo não elimina a responsabilidade sobre os métodos empregados.


Guilherme Fernandes destacou que a verdade permanece um princípio fundamental do jornalismo, mesmo quando o conhecimento sobre os acontecimentos é provisório e pode ser posteriormente corrigido.


“Quando se pensa nos elementos de dramaturgia trazidos para o jornalismo, eles precisam estar vinculados a uma perspectiva verdadeira. O falseamento, seja em nome de um bem maior ou não, não deveria ser admitido em um produto jornalístico”, afirmou.


Quais são os limites da dramatização?

Na parte final da reunião, o grupo discutiu situações nas quais a dramaturgia pode contribuir para o jornalismo sonoro. Recursos como diálogos encenados, reconstruções e personagens ficcionalizados podem ajudar a apresentar documentos históricos, representar acontecimentos sem registro sonoro ou tornar compreensíveis experiências distantes no tempo.


Como contraponto ao caso do This American Life, os participantes recordaram o podcast Caça às Bruxas: uma história de terror real, da Agência Pública. Na produção, cenas e entrevistas imaginadas são explicitamente anunciadas ao público e construídas a partir de documentos históricos. A sinalização permite que o ouvinte diferencie o material documental da elaboração dramatúrgica.


O encontro ressaltou, porém, que não existe uma fórmula aplicável a todos os projetos. O emprego de ficção exige transparência, pesquisa, curadoria e atenção especial quando envolve temas controversos ou a representação de grupos culturais e religiosos. Uma voz, um sotaque, uma trilha ou determinada forma de interpretação também produzem sentidos e podem reforçar estereótipos, ainda que o roteiro não faça isso expressamente.


Ao encerrar a reunião, os participantes defenderam que a potência imaginativa do áudio deve estar acompanhada de responsabilidade. O podcast narrativo pode mobilizar emoções e transportar o ouvinte para cenas que ele nunca presenciou. Justamente por isso, precisa deixar claro o que foi testemunhado, o que foi documentado e o que resulta de uma escolha dramatúrgica.


A reunião aberta integrou as atividades de formação e ampliação de repertório do LUNAR, aproximando pesquisadores, professores e estudantes interessados nos modos de produzir, analisar e ensinar o jornalismo narrativo em áudio.

 
 
 

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