Como transformar ciência em história: Bia Guimarães compartilha caminhos da narrativa em áudio
Uma das criadoras do 37 Graus discutiu apuração, roteiro e edição no Vozes em Órbita e explicou como perguntas, personagens e incertezas científicas podem conduzir um podcast
Uma planária pode ser o ponto de partida para investigar a imortalidade. Um boato sobre um show pode conduzir a uma discussão sobre a mentira. A lembrança de um acidente de carro pode abrir perguntas sobre memória, testemunho e injustiça. Nas histórias do podcast 37 Graus, a ciência aparece como uma maneira de olhar para experiências que despertam curiosidade — e de acompanhar perguntas cujas respostas nem sempre estão dadas.
Esses caminhos orientaram a participação da jornalista Bia Guimarães na mesa de encerramento do Vozes em Órbita — I Encontro Nacional de Podcasts Narrativos, em 1º de outubro de 2025. Realizada on-line, a conversa teve condução de Andriolli Costa, coordenador do Lunar, e do historiador e podcaster Victor Creti. O encontro foi promovido pelo Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ, com financiamento da Faperj.
Jornalista e mestra em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp, Bia retomou experiências do 37 Graus, criado com a bióloga Sarah Azoubel, e de seu trabalho na Rádio Novelo. Ao longo da conversa, discutiu como encontrar histórias, construir o percurso de uma investigação e reconhecer quando uma ideia pede outro formato.
A ciência como maneira de olhar
No 37 Graus, o conhecimento científico orientava a investigação de questões que também atravessam a vida cotidiana. Os episódios podiam começar com uma lembrança pessoal, uma notícia ou uma situação aparentemente distante de um laboratório.
Bia explicou que a dupla encarava “a ciência como uma lente da gente pro mundo”. Essa perspectiva permitia partir de uma inquietação e procurar os conhecimentos necessários para investigá-la, sem limitar previamente os assuntos do programa a uma especialidade.
Foi o que aconteceu em Este episódio é falso, que aproximou um boato sobre uma apresentação do Daft Punk de discussões sobre lógica, filosofia e mentira. O trabalho das produtoras envolvia construir relações entre experiências e campos do conhecimento que dificilmente apareceriam juntos em uma entrevista isolada.
Descobrir junto com quem escuta
No episódio Procura-se Regina, a capacidade de regeneração das planárias aproxima uma investigação biológica de uma inquietação humana: o desejo de não chegar ao fim. Durante a mesa, Bia explicou que o encantamento era uma das estratégias centrais do programa. A proposta envolvia compartilhar com o ouvinte o processo de descobrir alguma coisa.
Esse percurso exigia abertura para que a apuração transformasse a ideia inicial. As produtoras perseguiam perguntas, entrevistavam pesquisadores e construíam o episódio a partir dos caminhos encontrados. A curiosidade das repórteres ajudava a conduzir a curiosidade do público.
Em Um acidente de memória, esse movimento chegou à experiência da própria narradora. Uma conversa com um perito criminal levou Bia a revisitar um acidente de carro que sofreu e a investigar como lembranças podem ser alteradas ou induzidas. A história se ampliou para discutir testemunhos, reconhecimento de suspeitos e injustiças.
A experiência pessoal oferecia uma entrada para questões mais amplas, investigadas por meio de entrevistas e pesquisas. O ouvinte acompanhava tanto a história quanto a transformação da maneira de compreendê-la.
Encontrar o que acontece
Para Bia, escolher um assunto ainda não define o que acontecerá no episódio. Uma proposta sobre astronomia, por exemplo, precisa encontrar pessoas, perguntas, obstáculos e acontecimentos capazes de sustentar o percurso de escuta.
O conflito pode estar no próprio trabalho científico. A jornalista lembrou uma reportagem sobre um pesquisador que investigava o comportamento de peixes elétricos na Amazônia. A necessidade de estudar animais capazes de dar choques apresentava um obstáculo concreto, tornando visível o esforço necessário para produzir conhecimento.
Nem toda ideia, porém, se desenvolve como o produtor imaginou. Bia contou que muitas pautas investigadas pela dupla não chegaram a virar episódios. Algumas perderam força durante a apuração; outras pediam uma abordagem diferente.
No 37 Graus, uma produtora funcionava como editora da outra. Na Rádio Novelo, esse olhar passou a ser compartilhado por uma equipe maior. A avaliação de outras pessoas ajuda a perceber o que precisa ser explicado, quais trechos não acrescentam informação e quando uma história está sendo estendida além do que consegue sustentar.
Definir para quem se conta
A escolha do público também atravessou a conversa. Bia questionou expressões como público geral e público leigo quando utilizadas sem explicar quem são as pessoas que o projeto pretende alcançar.
Mesmo pessoas com características sociais semelhantes podem ter interesses, conhecimentos e hábitos de escuta diferentes. Compreender essas diferenças ajuda a decidir quais explicações são necessárias, que referências podem ser compartilhadas e qual formato faz sentido.
A discussão se estendeu ao reconhecimento das ciências humanas na divulgação científica. Bia observou que podcasts de história e de outras humanidades nem sempre são percebidos como programas de ciência, mesmo quando trabalham com pesquisa e conhecimento especializado. A maneira de apresentar e classificar uma produção também participa dessa percepção.
O formato e o tom precisam servir à história
Apesar do entusiasmo com o podcast narrativo, Bia ponderou que sua produção exige tempo, equipe e um compromisso de escuta. A escolha precisa considerar aquilo que se deseja comunicar e as condições disponíveis para realizar o trabalho.
No 37 Graus, assuntos que interessavam às produtoras, mas não sustentavam um episódio, chegaram a ser desenvolvidos em uma newsletter. A investigação podia encontrar outro caminho de publicação.
As decisões também envolvem o tom da narrativa e o cuidado com as pessoas retratadas. Ao comentar a série Sala de Espera, sobre ameaças ao acesso ao aborto previsto em lei no Brasil, Bia relatou escolhas por uma narração e uma edição sonora mais sóbrias. A delicadeza do assunto, a proteção das fontes e o objetivo de alcançar profissionais da medicina orientaram essas escolhas.
Terminar um episódio sem encerrar as perguntas
Ao discutir a construção dos episódios, Bia destacou uma particularidade das histórias de ciência: concluir o percurso narrativo não significa oferecer uma resposta definitiva sobre o assunto.
“Quando a gente tá falando de ciência, o final é sempre algo em aberto, uma incerteza”, afirmou.
O episódio pode mostrar o que foi possível compreender, como se chegou àquele conhecimento e quais questões continuam sem resposta. Para quem produz divulgação científica, esse desfecho exige construir uma experiência de escuta que também comporte os limites da investigação e a possibilidade de novas descobertas.






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