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Caatingueira aproxima ciência e saberes das mesinheiras do Cariri

14 de ago.
6 min de leitura

Durante o Vozes em Órbita, criadora do Caatingueira falou sobre medicina popular, divulgação científica e o compromisso de ampliar as vozes de mulheres e comunidades do Cariri



Os saberes populares e o conhecimento científico precisam ocupar lados opostos? A pergunta atravessou a entrevista realizada pela estudante de Relações Públicas e integrante do Lunar Lorena Fernandes com a jornalista Pâmela Queiroz, criadora do Caatingueira.


Gravada durante o Vozes em Órbita – I Encontro Nacional de Podcasts Narrativos, a conversa abordou a produção do podcast, o conhecimento das mesinheiras do Cariri cearense, as desigualdades presentes na podosfera e o papel das narrativas sonoras na reinvenção das memórias populares.


Natural do Cariri, no sul do Ceará, Pâmela dedica-se à produção de histórias por meio do texto, da imagem e do som. O interesse pelo áudio aproximou seu trabalho da divulgação científica e dos saberes tradicionais, encontro que resultou no Caatingueira, podcast de ciência sobre biomas, mulheres e conhecimentos populares.


Uma árvore de raízes profundas

O nome do podcast faz referência à catingueira, árvore nativa da Caatinga apresentada por Pâmela como um símbolo de resistência e permanência. Suas raízes representam a capacidade de buscar água em profundidade e conservar a vida mesmo durante os períodos de estiagem.


A imagem sintetiza a proposta da produção: mergulhar nas raízes culturais do Cariri para compreender conhecimentos que permanecem vivos porque são transmitidos, praticados e transformados pelas comunidades.


A ideia começou a ganhar forma depois que Pâmela participou do Sound Up, programa de formação para criadores de podcasts promovido pelo Spotify. O projeto desenvolvido inicialmente era mais amplo e previa um episódio sobre mulheres que produziam remédios tradicionais com plantas da Caatinga.


Ao aprofundar a pesquisa, a jornalista percebeu que existia ali uma questão capaz de sustentar um programa próprio. “Eu queria entender o que havia de semelhante e de diferente entre essas duas maneiras de experimentar o cuidado: o fazer ancestral e o fazer científico”, explica.


Quem são as mesinheiras?

Com cinco episódios, a primeira temporada acompanha mulheres reconhecidas por seus conhecimentos sobre plantas e pela produção de chás, banhos, garrafadas e outros preparos tradicionalmente utilizados no cuidado comunitário.


As chamadas mesinheiras vivem principalmente em comunidades tradicionais e periféricas, espaços onde o acesso institucional à saúde foi historicamente precário. Seus conhecimentos foram construídos por gerações de mulheres que cuidavam de crianças, familiares e vizinhos com os recursos disponíveis no território.


A ampliação do acesso ao Sistema Único de Saúde não fez esses conhecimentos desaparecerem. Eles continuaram presentes no cotidiano e passaram por adaptações e reinvenções.


O podcast não apresenta a medicina popular como substituta do atendimento profissional. Em vez disso, investiga como diferentes práticas de cuidado podem dialogar, quais conhecimentos apresentam evidências de eficácia e onde surgem crenças, relações afetivas ou práticas de charlatanismo.


“Durante muito tempo colocamos os saberes tradicionais, os saberes populares e a ciência em lugares opostos, como se existisse necessariamente uma disputa. O que queremos não é estabelecer um conflito, mas construir um espaço de diálogo”, afirma Pâmela.


“Eu sou mesinheira”

Lorena perguntou como as mulheres reagiram ao convite para gravar suas histórias. Pâmela explicou que as entrevistadas já demonstravam uma consciência muito clara sobre a importância de seus conhecimentos.


As gravações aconteceram em comunidades como Batateiras, bairro periférico do Crato, e Chico Gomes, comunidade indígena em processo de retomada. Muitas das mesinheiras também participam de grupos de dança do coco e de outras práticas culturais coletivas.

Essa participação fortalece tanto os vínculos comunitários quanto a percepção de que seus conhecimentos possuem uma história e uma função social.


Um dos encontros mais marcantes aconteceu com dona Raimundinha. Ao ouvir que as pessoas procuravam seus remédios e voltavam para contar que haviam melhorado, Pâmela perguntou se ela se considerava uma espécie de médica. “Ela olhou para mim com muita tranquilidade e respondeu: ‘Não, claro que não. Eu sou mesinheira’”, recorda.


A resposta demonstra que a medicina popular não precisa imitar a medicina institucionalizada para reconhecer sua importância. Dona Raimundinha distingue os dois campos e, ao mesmo tempo, relata o diálogo que mantém com a médica da unidade de saúde da própria comunidade.


“Uma das coisas que mais aprendi com elas foi esse lugar de autoestima. Elas sabem o que significa ser mesinheira, por que fazem aquilo e como esse conhecimento é transmitido para as próximas gerações”, observa Pâmela.


Divulgação científica precisa ser compreendida

A primeira temporada do Caatingueira recebeu apoio do Instituto Serrapilheira, por meio de uma chamada voltada a projetos de jornalismo e divulgação científica. Antes da produção, os selecionados participaram de uma formação sobre pesquisa, apuração e comunicação da ciência.


Pâmela destaca que divulgar ciência não significa apenas resumir um artigo acadêmico e publicá-lo em uma linguagem aparentemente mais simples. Cada mídia exige estratégias próprias para apresentar conceitos a um público que pode estar entrando em contato com o assunto pela primeira vez.


Durante a escrita, uma das perguntas utilizadas por ela para avaliar os roteiros era se sua avó e as próprias mesinheiras conseguiriam acompanhar o raciocínio.


“Eu queria que a minha avó escutasse e que as mesinheiras escutassem. Elas conseguiriam entender o que havia de ciência e de saber popular? Conseguiriam identificar também o que era charlatanismo? Essa foi uma preocupação constante”, conta.

A linguagem precisava ser acessível sem eliminar a complexidade do assunto. O objetivo não era apenas transmitir informações, mas oferecer elementos para que o público compreendesse as diferenças entre experiências culturais, evidências científicas e promessas enganosas.


Viajar até o Cariri pelos ouvidos

Pâmela também falou sobre a comunidade formada em torno do programa. A maior parte do público é composta por mulheres entre 25 e 35 anos, muitas delas estudantes de graduação ou pós-graduação. Os ouvintes estão principalmente nas regiões Norte e Nordeste, mas o podcast também alcançou o Sudeste e brasileiros residentes em outros países.


Para esses ouvintes, o áudio oferece uma possibilidade de viajar até o Cariri sem estar fisicamente presente. "Muitos brasileiros que vivem fora me escreveram falando dessa sensação de saudade e da possibilidade de chegar ao Cariri apenas pelos ouvidos”, relata.


As histórias, as vozes e os sons do território ajudam a desfazer representações que associam a Caatinga somente à seca, à pobreza e à falta de recursos. O bioma aparece como um espaço diverso, habitado por conhecimentos, práticas de cuidado, manifestações culturais e formas próprias de compreender a relação entre pessoas e natureza.


Essa perspectiva também permite relacionar os saberes das comunidades às discussões sobre emergência climática, justiça ambiental e justiça social.


Quem consegue produzir podcasts?

Na parte final da entrevista, Lorena questionou Pâmela sobre as desigualdades da produção brasileira de podcasts. Embora novas vozes tenham conquistado espaço, a podosfera ainda é marcada pela predominância de homens brancos e de produtores concentrados no Sudeste.


Para Pâmela, essa configuração está diretamente relacionada às desigualdades de acesso à internet, aos equipamentos e aos recursos necessários para produzir.


“Se consumir podcast já foi e continua sendo um desafio para uma parcela da população, quem dirá produzir. Ainda existem muitas pessoas sem computador ou internet em casa, que acessam tudo pelo celular e dependem do 4G”, ressalta.


Nesse contexto, sua atuação está ligada a um “compromisso quase radical” com histórias que permaneceram fora dos meios de comunicação durante muito tempo.


“Eu sei que quem vai ouvir e valorizar essas histórias são pessoas iguais a mim. É por isso que faço esse trabalho de todo o coração, completamente apaixonada”, afirma.


Tradições não desaparecem: elas se reinventam

Para o futuro, Pâmela pretende transformar o Caatingueira em uma plataforma que combine novas temporadas com atividades de formação. A proposta é criar espaços para que jovens de comunidades periféricas, indígenas e quilombolas aprendam a utilizar diferentes linguagens para narrar seus territórios.


Os convites para oficinas recebidos depois da primeira temporada indicaram que o projeto poderia ultrapassar a publicação de episódios e contribuir para a formação de novos comunicadores.


Ao falar sobre memória, Pâmela rejeita a ideia de que as tradições simplesmente desapareçam. Elas passam por mudanças, estabelecem novos diálogos e encontram outros meios de circulação.


“Não acho que uma tradição simplesmente evapore. Tudo se reinventa. Produções como o Caatingueira podem ser espaços de reinvenção dessas tradições a partir da comunicação, da narrativa e da valorização das memórias.”


A mensagem deixada pela jornalista ao final da entrevista resume o compromisso que orienta o projeto: reconhecer que as experiências cotidianas também merecem ser narradas.


“Tem coisas que só serão contadas se você contar. Valorize o seu olhar, a forma como você vê o mundo, os lugares por onde passa e as histórias que encontra. Depois, veja o que é possível fazer com isso.”

 
 
 

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