“Capoeira é toda hora”: o patrimônio que Mestre Chico guarda no corpo
- Andriolli Costa
- 15 de ago.
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Entrevista gravada para o podcast Patrimônio, do Lunar, percorre mais de cinco décadas de capoeira e mostra como ginga, canto e presença transmitem história, estabelecem limites e transformam comunidades

Antes mesmo do início formal da entrevista, a capoeira já estava presente. Aparecia nas brincadeiras de Mestre Chico, na maneira como ele recebia as pessoas, nas histórias puxadas por uma palavra e nos conselhos dirigidos a quem circulava pela instituição onde trabalha com pessoas com deficiência. “Capoeira é todo dia, toda hora”, resumiu o mestre.
A conversa foi gravada pelo professor Andriolli Costa para o Patrimônio, podcast do Lunar dedicado a registrar como diferentes pessoas se relacionam com o patrimônio cultural. O depoimento deverá integrar o episódio sobre “Corpo”, mas também abre caminhos para pensar o “Gesto”: ao longo da entrevista, Mestre Chico apresenta a ginga não apenas como movimento físico, mas como maneira de observar, negociar, proteger-se e ocupar o mundo.
Conhecido na vida civil como Robson Coutinho, Mestre Chico começou a aprender capoeira em 1970 e tornou-se mestre em 1998. Seu cadastro no Iphan registra a influência de Mestre Rui Charuto de Pilares e uma trajetória como educador em projetos sociais, incluindo o Germinal Mel. Durante décadas, desenvolveu trabalhos de capoeira com crianças, jovens de comunidades populares e pessoas com deficiência.
A entrevista foi realizada depois de Mestre Chico participar de uma aula da disciplina de Seminários Especiais na UERJ. Ao final daquele primeiro encontro, o capoeirista partilhou: sentiu-se renovado. Uma "fênix", comparou, renascido pela oportunidade de compartilhar sua experiência. A fala motivou a visita para uma conversa mais longa.
O objetivo, explicou Andriolli, era escutar alguém que não apenas estudou a cultura popular, mas construiu sua vida dentro dela. Em Mestre Chico, a capoeira não aparece como um assunto separado do cotidiano. Ela organiza sua memória, suas relações familiares, sua atuação como educador e sua maneira de interpretar a história brasileira.
Um corpo que continua jogando
Mestre Chico conta que, durante muitos anos, frequentou a capoeira diariamente. Mesmo quando estava desempregado e enfrentava problemas com a bebida, comparecia às rodas, jogava, cantava, tocava berimbau e ajudava a animar os encontros.
“Eu ia porque gostava da capoeira. Gostava, não: gosto até hoje”, corrigiu.
Hoje, o corpo já não responde da mesma maneira. Os joelhos, o coração e outros limites físicos alteraram seu jogo, mas não interromperam sua relação com a prática. Em vez de abandonar a roda, ele adapta seus movimentos e sua forma de participação ao que o corpo permite.
“Já não jogo a capoeira rápida como jogava antigamente. O joelho não aguenta, o coração não aguenta. O que o berimbau tocar, o capoeirista deve jogar — ou não”, explicou.
A ressalva é importante. O corpo do capoeirista não obedece mecanicamente ao instrumento. Ele escuta o toque, interpreta a situação e decide como responder. O jogo se constrói no encontro entre ritmo, memória, condição física e presença do outro.
Em 2017, Mestre Chico sofreu um infarto. Ao recordar o atendimento, contou que o médico relacionou sua sobrevivência e sua recuperação à prática constante de atividade física. A capoeira havia deixado marcas no corpo, mas também fornecido recursos para que ele continuasse vivendo e ensinando.
Até durante o sono ela permanece. “Sabe qual é a melhor capoeira que jogo? Quando estou dormindo. Ninguém me bate, ninguém me vence, ninguém me desafia. Aí eu vou vadiar mesmo”, brincou.
A ginga começa no olhar
Na roda, o gesto nunca existe sozinho. Cada movimento responde ao corpo colocado diante dele. Para Mestre Chico, jogar exige prestar atenção aos olhos, às intenções e às mudanças de ritmo do adversário.
“A capoeira é quase como um namoro. Estou jogando com você e olhando no seu olho”, comparou. Um golpe pode fazer parte do jogo ou funcionar como provocação. A diferença aparece no olhar de quem o executou, no sorriso depois do contato e na maneira como cada participante reage. A ginga, nesse sentido, não se limita ao balanço do corpo: ela envolve leitura, dissimulação e negociação.
Essa percepção continua fora da roda. Ao comentar algumas passagens de sua atuação em comunidades, Mestre Chico mostrou como aprendeu a contornar conflitos, reconhecer hierarquias locais e conversar com pessoas diferentes sem abandonar seus princípios.
Andriolli observou que aquelas histórias pareciam prolongar a própria ginga: o mestre se deslocava entre obstáculos, avaliando cada aproximação antes de dar o passo seguinte.
A malandragem, nesse contexto, não é sinônimo de desonestidade. É a capacidade de evitar a confrontação previsível, esconder recursos e preservar o fator surpresa.
“O bom capoeirista tem que ter o fator surpresa. Ninguém sabe o que ele vai fazer. Quanto menos falar, melhor para ele”, afirmou.
O berimbau organiza o gesto
Se os olhos permitem interpretar o outro, o berimbau organiza o tempo do encontro. Seu toque orienta a velocidade, a intensidade e a forma de jogar. A música não acompanha a roda como simples decoração: ela participa das decisões tomadas pelos corpos.
Os cantos também transmitem mensagens. Uma cantiga pode convidar alguém que observa de fora a se aproximar, provocar um jogador, advertir quem está agindo de maneira agressiva ou pedir que o ritmo diminua.
“Você vai rimando e vai avisando para o cara”, explicou Mestre Chico.
Durante a gravação, ele demonstrou como versos podem nascer de uma situação cotidiana. Contou a história de um capoeirista que deixou de frequentar os treinos porque a esposa reclamava de suas ausências. O acontecimento foi transformado em canto e passou a circular na roda.
A ladainha, observou, é uma maneira de narrar. Alguém canta enquanto os demais escutam, respondem e guardam aquela história. A palavra se liga ao toque e ao movimento, fazendo da roda um lugar de memória.
Por isso, a transmissão da capoeira é simultaneamente oral e gestual. O próprio Iphan, ao registrar a Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres como Patrimônio Cultural do Brasil, em 2008, reconheceu que esse saber é partilhado de modo participativo, nas rodas, nas ruas, nas academias e nas relações entre mestres e aprendizes. A roda reúne canto, instrumentos, dança, golpes, brincadeira, símbolos e códigos de ética. Em 2014, ela também foi inscrita pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
A capoeira também precisa ser falada
Durante muito tempo, Mestre Chico acreditou que ensinar capoeira significava principalmente demonstrar os movimentos e colocar os alunos para jogar. Essa compreensão começou a mudar durante o período em que viveu e trabalhou nos Estados Unidos.
Convidado inicialmente para participar de um evento, ele passou a oferecer aulas e ajudou a estruturar grupos. A curiosidade dos estudantes estrangeiros o levou a perceber que as pessoas não queriam apenas repetir golpes. Elas desejavam compreender a história, os instrumentos, as cantigas e as razões de cada ritual.
“Um aluno americano começou a me ensinar que a capoeira precisa ser falada em algum momento. Ela tem que ser explicada”, recordou.
O aprendizado transformou sua atuação como mestre. O corpo continua sendo central, mas não carrega sozinho toda a história. O gesto precisa ser acompanhado pela palavra para que os alunos compreendam o que estão fazendo e assumam responsabilidade sobre aquilo que receberam.
O mestre aparece, assim, como guardião e mediador. Ele não transmite uma sequência imutável de movimentos. Interpreta o passado, explica códigos e decide o que deve continuar ou ser transformado.
Quando preservar também significa mudar
Mestre Chico conheceu rodas marcadas por confrontos violentos. Em um período no qual havia menos grupos e espaços de prática, a chegada a uma roda também podia ser uma disputa por reconhecimento. Capoeiristas invadiam territórios simbólicos, desafiavam jogadores e tentavam demonstrar superioridade diante do público.
“Antigamente, a capoeira era muito mais violenta, mas também era muito mais unida”, avaliou. As rivalidades costumavam terminar no bar, onde os participantes bebiam juntos depois da roda. Nem sempre, porém, o ressentimento desaparecia. “Quem bate esquece; quem apanha, não”, advertiu.
Ao ensinar, Mestre Chico decidiu interromper parte desse legado. Alguns golpes que aprendeu deixaram de ser transmitidos por ele dentro da roda porque poderiam ferir gravemente os joelhos ou provocar quedas perigosas. Também se posiciona contra socos, tapas e agarrões durante o jogo.
“Se quero que a capoeira seja arte e cultura, preciso parar com isso. Eu sei fazer, mas vou ensinar para quê, se pode prejudicar o joelho ou fazer alguém bater com a cabeça no chão?”, questionou.
Preservar a capoeira, portanto, não significa repetir tudo o que foi recebido. A salvaguarda também envolve escolhas éticas. O mestre avalia os movimentos, os contextos e as consequências antes de decidir o que deve passar adiante.
Inclusão não é separar
Essa responsabilidade se torna ainda mais evidente no trabalho de Mestre Chico com pessoas com deficiência. Considerado um dos pioneiros da capoeira inclusiva no Rio de Janeiro, ele desenvolveu atividades com crianças e jovens de diferentes condições físicas, mentais e sensoriais.
Para o mestre, inclusão não significa organizar grupos permanentemente separados. É possível respeitar limites específicos durante o processo de aprendizagem, mas a roda precisa produzir encontros.
“Inclusão é pegar mulher, homem, criança e velho e colocar no mesmo lugar. Se trabalho somente com velho ou somente com criança, isso é divisão. Em algum momento é preciso fazer aquele grupão, cada um dentro de seu limite”, defendeu.
A capoeira ensina respeito mútuo porque obriga cada participante a reconhecer o corpo colocado diante dele. Uma criança não deve atacar um adulto sem critério, assim como o adulto precisa controlar sua força ao jogar com uma criança. O limite deixa de ser apenas uma restrição e passa a integrar a inteligência do gesto.
“A capoeira dá limite. Ela dá respeito mútuo”, sintetizou.
Uma roda que continua fora da roda
Mestre Chico acompanhou durante décadas o crescimento de alunos que chegaram ainda crianças. Alguns viviam em comunidades atravessadas pela pobreza e pela violência. Na entrevista, ele recordou famílias que reconhecem na capoeira uma das razões pelas quais os jovens permaneceram unidos, formaram suas próprias famílias e assumiram responsabilidades profissionais.
Entre eles estão alunos que se tornaram professores, contramestres e mestres. O vínculo permanece mesmo quando já não conseguem frequentar os treinos. Para Chico, a presença é um valor central: aprender capoeira não significa apenas executar golpes, mas comparecer, observar, tocar, cantar e partilhar o espaço.
Ao graduar um grupo de antigos alunos, decidiu não romper o ciclo formado desde a infância. Mesmo reconhecendo diferenças na frequência aos treinos, preservou a história coletiva construída entre eles.
“A família fecha igual a uma roda de capoeira”, afirmou. A frase ajuda a compreender por que a capoeira atravessa toda a sua vida. A roda não termina quando o berimbau se cala. Ela reaparece nas redes de cuidado, nos reencontros com antigos alunos, na responsabilidade pelos mais jovens e na permanência dos ensinamentos recebidos de Mestre Rui Charuto de Pilares.
Registrar um patrimônio vivo
A gravação realizada pelo Lunar preserva também o ambiente em que a conversa aconteceu. Portas se abrem, pessoas chegam, alguém oferece almoço, uma furadeira invade as falas e Mestre Chico interrompe histórias para apresentar alunos e colegas. Em vez de surgir isolado em um estúdio, o mestre é ouvido no interior da rede comunitária da qual participa.
Esse ambiente revela algo fundamental: o patrimônio não está apenas na informação transmitida durante a entrevista. Está na maneira de falar, brincar, receber, corrigir, cantar e chamar outras pessoas para perto. Está em um corpo que envelheceu, adaptou o jogo e permaneceu na roda.
No episódio de Patrimônio, a trajetória de Mestre Chico ajudará a mostrar que o corpo não é apenas suporte de uma prática cultural. Ele é arquivo, instrumento e lugar de transmissão. Cada ginga guarda uma experiência; cada canto reorganiza uma lembrança; cada gesto responde aos corpos que vieram antes e prepara o caminho para aqueles que ainda entrarão na roda.



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