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Quem conta o Brasil? Vozes em Órbita debate sotaques, territórios e diversidade no podcast

Pâmela Queiroz, Maickson Serrão e Paula Scarpin discutiram como ampliar as vozes presentes na podosfera sem separar as histórias das pessoas e comunidades que lhes dão sentido



Não basta diversificar as fontes entrevistadas. Para ampliar as narrativas sobre o Brasil, também é necessário transformar quem escolhe as pautas, conduz as entrevistas, escreve os roteiros e empresta sua voz às histórias. Essa foi uma das principais reflexões da mesa “Brasil: outras narrativas”, realizada em 30 de setembro durante o Vozes em Órbita – I Encontro Nacional de Podcasts Narrativos, na UERJ.


A atividade reuniu a jornalista Pâmela Queiroz, criadora do podcast Caatingueira; o jornalista, professor e podcaster Maickson Serrão, responsável pelo Pavulagem; e Paula Scarpin, diretora de criação da Rádio Novelo. A abertura foi conduzida pela bolsista de extensão do Lunar Bruna Sebollela.


Ao apresentar a proposta da mesa, o coordenador do Lunar, Andriolli Costa, chamou atenção para uma prática comum no jornalismo: pressionadas pelos prazos, as equipes recorrem repetidamente às fontes que já conhecem e às pessoas que circulam em seu entorno.


“Como, de maneira propositiva, podemos construir em nossos podcasts outras vozes, incorporar outras brasilidades e trazer pessoas que normalmente não aparecem nessas produções?”, questionou.


O que significa produzir “outras narrativas”?

Pâmela Queiroz iniciou sua participação interrogando o próprio título da mesa. Se existem “outras narrativas”, explicou, é porque determinadas histórias foram estabelecidas como centrais, enquanto as demais passaram a ser percebidas como periféricas, locais ou regionais.


Criada no sertão, a jornalista contou que sua relação com o território foi inicialmente mediada pela literatura. Obras como Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, mostraram que o sertão poderia ultrapassar representações simplificadoras e se transformar em uma metáfora sobre a existência. Ao mesmo tempo, os estudos de Durval Muniz de Albuquerque Júnior ajudaram-na a compreender o Nordeste como uma construção discursiva, atravessada tanto pela romantização quanto pelo estigma.


Diante desse cenário, Pâmela encontrou no mergulho no cotidiano uma forma de escapar das imagens prontas. As histórias mais próximas, sustentadas pela experiência territorial, poderiam revelar um Brasil mais complexo do que aquele organizado por oposições fáceis.

“Contar as histórias a partir da nossa própria perspectiva nos permite construir narrativas diversas, com cenários que expressem a complexidade de um país continental”, afirmou.


Entre suas referências, Pâmela mencionou Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, e sua leitura do sertão como território ancestral de resistência à colonialidade. Também apresentou Luiz Gonzaga como um dos grandes narradores brasileiros, capaz de falar sobre desigualdade, transformações ambientais e modos populares de interpretar o mundo por meio do encontro entre palavra e som.

Ciência, cotidiano e saberes tradicionais

Essas inquietações deram origem ao Caatingueira, podcast de ciência dedicado às relações entre bioma, mulheres e saberes populares. Em cinco episódios, a produção acompanha mestras da cultura, profissionais da saúde e pesquisadores para discutir plantas medicinais, cura, ancestralidade e conhecimento científico.


Pâmela explicou que a Caatinga, apesar de ser um bioma exclusivamente brasileiro, ainda ocupa um espaço reduzido nas principais discussões sobre mudanças e justiça climática. Para ampliar as vozes associadas ao território, ela procurou mulheres de comunidades tradicionais e investigou como seus conhecimentos dialogam com aqueles produzidos em universidades e laboratórios.


“A ciência de laboratório sempre esteve de um lado e os saberes tradicionais e populares, do outro. Eu queria abrir um canal, uma fissura, uma rachadura de diálogo entre esses mundos que habitam o mesmo mundo”, explicou.


Nesse processo, a escuta funciona como uma “bússola ancestral”. É ela que permite identificar conhecimentos que nem sempre estão visíveis em um primeiro contato e construir relações que não tratem os entrevistados apenas como fornecedores de informação.


A jornalista contou que algumas entrevistas exigiram diversas visitas. Antes de ligar formalmente o microfone, era preciso conversar, tomar café e compreender o cotidiano das participantes. Esse investimento de tempo acrescentou à narrativa camadas que dificilmente apareceriam em uma abordagem apressada.


“Tudo é possível de ser contado, mas precisamos afiar nossos ouvidos e nossos olhos para encontrar histórias que façam sentido para nós e para os outros”, resumiu.


Encantados não são apenas personagens

Para Maickson Serrão, a criação do Pavulagem está diretamente ligada à sua infância na Vila de Boim, comunidade indígena e ribeirinha localizada às margens do Rio Tapajós, no Pará.


Durante boa parte de sua infância, sua casa não tinha energia elétrica. Em vez dos desenhos animados e videogames que marcaram outras crianças de sua geração, uma das principais formas de entretenimento era visitar os mais velhos para ouvir histórias sobre os seres encantados que habitam os rios, as matas e outros lugares sagrados.

“Para nós, não é folclore, não é lenda. São seres que estão presentes no nosso cotidiano. A gente sente a presença deles e acredita neles”, afirmou.


Anos depois, ao trabalhar como professor em Manaus, Maickson percebeu que muitas crianças desconheciam essas histórias, mesmo vivendo em uma cidade próxima de comunidades indígenas e ribeirinhas. A constatação o levou a inscrever a proposta do então Contos da Floresta no programa Sound Up, do Spotify.


Selecionado pelo projeto, recebeu formação e equipamentos para desenvolver o piloto que se transformaria no Pavulagem. O podcast apresenta histórias de encantarias por meio das vozes de indígenas, ribeirinhos e contadores tradicionais da Amazônia.

“Eu não estou dando voz, porque essas pessoas já têm voz. O que fazemos é amplificar as vozes dos contadores de histórias, que são meus amigos, meus vizinhos e pessoas da minha comunidade”, destacou.


Maickson também falou sobre o receio que sentia em relação à própria voz. Durante muito tempo, acreditou que trabalhar com rádio exigia uma locução padronizada, distante de seu sotaque e de seus regionalismos.


“Minha voz é cheia de sotaque, é muito amazônida e muito cabocla. Eu achava que ela não era uma voz de rádio, mas percebi que é justamente nisso que mora a beleza do podcast e sua possibilidade de trazer outras histórias”, disse.


O podcast como arquivo da oralidade

O avanço da eletricidade, dos celulares e da internet pelas comunidades amazônicas modificou os momentos dedicados à contação de histórias. Para Maickson, a mesma tecnologia que concorre com essas práticas pode ser utilizada para registrá-las e fazê-las circular.


A oralidade permanece forte, mas é também frágil quando depende exclusivamente da transmissão entre gerações. Parte desse conhecimento, observou, continua guardada apenas na “biblioteca da cabeça” dos mais velhos.


Alguns dos contadores entrevistados pelo Pavulagem já faleceram — ou, como diz Maickson, “ancestralizaram”. Suas vozes, entretanto, permanecem disponíveis para filhos, netos, escolas e futuras gerações. O projeto também já se desdobrou em animações e livros.


O registro sonoro não pretende congelar as histórias em uma versão definitiva. Ao entrevistar narradores de diferentes regiões, a equipe encontra variações para figuras como o boto e a Matinta Pereira. Essas mudanças não representam falhas: são parte da riqueza e do movimento próprio da oralidade.


Quem deve contar cada história?

Paula Scarpin refletiu sobre sua posição como mulher branca e paulista em uma mesa dedicada à diversidade. A jornalista trabalhou durante 12 anos na revista piauí, onde participou da criação de projetos sonoros, antes de idealizar a Rádio Novelo com Branca Vianna e Flora Thomson-DeVeaux.


Para ela, buscar fontes diversas é importante, mas insuficiente. Também é necessário criar condições para que profissionais de diferentes regiões possam publicar, narrar e interpretar as histórias a partir de suas próprias experiências.


“Não pode ser sempre uma pessoa do Sudeste contando histórias que se passam fora do Sudeste. É preciso abrir espaço para que as pessoas falem com a própria voz e contem as próprias histórias”, defendeu.


Como exemplo, Paula recordou uma reportagem de Pâmela para o Rádio Novelo Apresenta sobre o fóssil do dinossauro Ubirajara jubatus, encontrado na região do Cariri e levado irregularmente para a Alemanha. A relação da repórter com o território permitiu aproximar o caso de experiências e referências que dificilmente apareceriam em uma cobertura produzida exclusivamente a partir do Sudeste.


A jornalista também destacou a importância de iniciativas como o Sound Up. Além de selecionar propostas, o programa forneceu computadores, microfones e acesso à internet durante a pandemia. A diversidade, nesse sentido, não depende apenas de convites: exige infraestrutura, formação, remuneração e condições materiais para produzir.


Gravar o território, não apenas a entrevista

A mesa também abordou os desafios práticos da reportagem sonora. Para inserir o ouvinte na história, não basta voltar do campo com entrevistas. É preciso registrar ambientes, deslocamentos, imprevistos e acontecimentos que revelem a experiência da apuração.


Maickson relatou uma viagem a São Gabriel da Cachoeira na qual o avião não conseguiu pousar. Como estava com o gravador ligado, registrou o anúncio da tripulação e incorporou a situação ao podcast. A cena permitiu mostrar não apenas o destino, mas também os obstáculos envolvidos em chegar até ele.


O volume de material produzido, porém, pode tornar a edição difícil. Para organizar os registros, Maickson mantém um diário de campo no qual anota ou grava, ao final de cada dia, os acontecimentos que considera mais relevantes.


Pâmela explicou que utiliza as transcrições como um mapa visual do episódio. Os trechos indispensáveis são destacados, os que podem ser descartados recebem outra marcação e aqueles que podem ser aproveitados dependendo da estrutura permanecem sublinhados. Post-its, imagens e linhas do tempo ajudam a transformar as entrevistas em um quebra-cabeça narrativo.


Para Maickson, o roteiro se torna mais rico quando é construído coletivamente. A escuta das sonoras permite descobrir conexões, referências culturais e possibilidades que não estavam previstas no início da apuração.


A história precisa voltar para quem a contou

Uma pergunta do público deslocou a discussão para o que acontece depois da entrevista. Como evitar que jornalistas cheguem a uma comunidade, recolham histórias, publiquem seus trabalhos e nunca mais retornem? Pâmela lembrou que mestras e detentoras de saberes populares recebem constantemente pesquisadores, documentaristas e jornalistas. Muitas vezes, essas produções circulam por festivais e recebem prêmios sem que as próprias participantes tenham acesso ao resultado.


No Caatingueira, a equipe procurou retornar com os episódios, enviar os arquivos pelo WhatsApp e organizar momentos de escuta. Como a ética jornalística impede o pagamento pela entrevista, as mestras foram posteriormente convidadas e remuneradas por sua participação em atividades formativas. Um grupo de coco do qual uma das entrevistadas fazia parte também se apresentou no lançamento do podcast.

“A decisão foi voltar com esse material para que elas pudessem ouvir, guardar o arquivo e compartilhar com as amigas e com o bairro”, explicou.


No Pavulagem, o retorno ocorre por meio de familiares, arquivos enviados pelo WhatsApp e parcerias com rádios comunitárias. O cuidado é necessário porque muitos entrevistados não utilizam plataformas como o Spotify ou sequer possuem contas nesses serviços.

A circulação comunitária também evidencia os limites das métricas digitais. Um episódio ouvido coletivamente em uma escola, retransmitido por uma rádio ou compartilhado em grupos de mensagens alcança pessoas que não aparecem nos números das plataformas.


Redes construídas como formigueiros

Ao final da mesa, Pâmela foi questionada sobre os desafios de produzir a partir do Nordeste em um mercado ainda concentrado no Sudeste e marcado pela recorrência de vozes brancas e sotaques considerados neutros.


A resposta não apontou uma solução imediata. Pâmela falou sobre paciência, persistência e construção de redes. Depois da primeira temporada do Caatingueira, precisou lidar com a ansiedade pela continuidade do projeto e compreender que novas temporadas dependeriam de editais, parcerias e relações cultivadas ao longo do tempo.


“Eu não me sinto sozinha por causa da audiência. A comunidade foi se construindo como formiguinhas: vai chegando aos poucos. Isso me faz manter a confiança e a esperança”, afirmou.


 
 
 

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