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Entre a imersão e o justiçamento: Gisele Sobrinho entrevista Rogério Christofoletti

14 de ago.
5 min de leitura

Professor da UFSC analisa as fronteiras entre jornalismo e entretenimento no true crime e discute os dilemas éticos de A Mulher da Casa Abandonada



Até que ponto os recursos narrativos empregados pelo true crime ajudam o público a compreender um caso — e quando passam a transformar crimes reais em entretenimento? A questão orientou a entrevista realizada pela jornalista e ex-bolsista do Lunar Gisele Sobrinho com Rogério Christofoletti, professor e pesquisador do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


Especialista em ética jornalística, credibilidade e crítica de mídia, Christofoletti foi uma das fontes consultadas durante a produção de De Volta à Casa Abandonada, podcast desenvolvido por Gisele como trabalho de conclusão de curso na UERJ. O programa revisita a repercussão de A Mulher da Casa Abandonada, produção da Folha de S.Paulo apresentada pelo jornalista Chico Felitti em 2022.


Durante a entrevista, Christofoletti discutiu o sucesso das narrativas de crime real, a economia da atenção e a responsabilidade dos jornalistas pelos efeitos provocados por suas escolhas estéticas.


O desejo de que a justiça seja feita

Para Christofoletti, a popularidade do true crime não pode ser explicada apenas pela curiosidade em torno de crimes e investigações. O gênero também responde a uma insatisfação social com o funcionamento das instituições públicas, especialmente em países marcados pela desigualdade e pela impunidade.


“Na minha opinião, o true crime é uma maneira de as pessoas satisfazerem, pelo menos em parte, suas expectativas de que a justiça seja feita e de que quem fez coisas ruins seja punido”, afirma.


Essa expectativa aproxima o true crime da literatura policial. Em muitas dessas narrativas, um acontecimento rompe a ordem inicial, desencadeia uma investigação e conduz à identificação e à punição do responsável. A estrutura oferece ao público uma espécie de redenção simbólica: ao final da história, o mundo parece novamente organizado.


A insatisfação com a impunidade, porém, encontra produções cada vez mais sofisticadas, capazes de envolver emocionalmente os ouvintes. Para o pesquisador, o sucesso do gênero nasce da combinação entre uma demanda social por justiça e a competência dos realizadores em construir histórias envolventes: “Junta a fome com a vontade de comer”.


Uma encruzilhada entre técnica, estética e ética

O principal objeto da conversa foi A Mulher da Casa Abandonada. O podcast investiga a história de Margarida Bonetti, acusada de manter uma trabalhadora doméstica em condições análogas à escravidão nos Estados Unidos. A produção tornou-se um fenômeno de audiência e levou centenas de pessoas até a casa onde ela vivia, em Higienópolis, São Paulo.


Christofoletti reconhece os méritos técnicos do trabalho, como a edição, a ambientação sonora, o ritmo e a capacidade de sustentar o interesse dos ouvintes. Para ele, no entanto, justamente essa eficiência torna o podcast um caso importante para os estudos de ética jornalística.


“O podcast é um sucesso do ponto de vista técnico, mas também é uma encruzilhada entre técnica, ética e estética”, resume.


Em 2022, o pesquisador publicou no Observatório da Imprensa o artigo “O podcast da ética abandonada”, no qual questionou decisões narrativas adotadas pela produção. Entre elas estão o uso de gravações sem o conhecimento das fontes, a exposição de informações pessoais e a extensão da história em episódios estruturados por dúvidas, revelações e ganchos de suspense.


Na entrevista, Christofoletti reforça que sua crítica não se dirige à profundidade da apuração, mas ao prolongamento artificial da narrativa para manter o público conectado.

“O alongamento é um artifício do narrador. Quando se estende uma história dessa maneira, não se produz apenas uma novelização, mas também uma espetacularização do caso”, explica.


O recurso dos cliffhangers, que interrompem a narrativa em momentos de tensão para estimular o consumo do episódio seguinte, aproxima o podcast das séries de streaming. A diferença é que, nesse caso, não se trata de uma obra ficcional, mas de uma história envolvendo violência, trabalho escravo e pessoas reais.


Justiça não é justiçamento

A repercussão social do podcast também esteve no centro da entrevista. Gisele recordou o momento em que a casa de Margarida Bonetti se tornou um ponto de peregrinação. Pessoas se reuniam diante do imóvel, publicavam fotografias nas redes sociais e cobravam uma punição imediata para a moradora.


“Eu lembro de pensar: ‘Meu Deus, e se as pessoas forem até lá e a lincharem?’ Aquilo estava chegando a um ponto que já não dava mais”, comentou Gisele.


A resposta de Christofoletti sintetiza um dos principais dilemas discutidos na conversa:

“Aí não é justiça, Gisele, é justiçamento. Em sociedades democráticas, ou que pretendem ser democráticas, não é assim que devemos proceder.”


Nos episódios finais, a produção passou a divulgar advertências contra agressões e perseguições aos envolvidos. Para o professor, os avisos indicam que os realizadores perceberam a dimensão assumida pelo fenômeno, mas já não tinham controle sobre seus efeitos.


A responsabilidade jornalística, ressalta, não termina quando a reportagem é publicada. Quem conta uma história precisa considerar os impactos que ela poderá provocar sobre as pessoas retratadas, inclusive quando existem acusações graves contra elas.

Isso não significa minimizar crimes ou defender a impunidade. Significa reconhecer que o jornalismo não substitui a Justiça e não deve transformar o público em tribunal ou multidão punitiva.


A disputa pela atenção

O prolongamento de narrativas também foi relacionado por Christofoletti à economia da atenção. Plataformas de áudio e vídeo disputam o tempo dos usuários e adotam métricas que valorizam permanência, engajamento e consumo contínuo.

“A nossa atenção e o nosso tempo são dois dos principais ativos do mundo hoje. Todo mundo está disputando isso porque são recursos muito escassos”, observa.


Nesse ambiente, uma história pode ser estendida não porque o assunto exige mais espaço, mas porque episódios adicionais mantêm o público conectado por mais tempo. Quando esse procedimento é aplicado ao jornalismo, há o risco de o interesse público ser substituído por uma lógica comercial de retenção da audiência.


Christofoletti diferencia ainda a curiosidade do interesse. A primeira é imediata, superficial e facilmente mobilizada por mistérios, excentricidades e revelações. O interesse exige mais concentração e permite compreender a dimensão social de um problema.


Em vez de discutir de forma ampla o trabalho doméstico análogo à escravidão, por exemplo, uma narrativa excessivamente centrada em uma personagem excêntrica pode fazer com que o público se interesse mais por seus hábitos e por sua aparência do que pelas estruturas que tornam esse tipo de exploração possível.


Imersão não precisa ser sensacionalismo

A entrevista também abordou os limites entre imersão e sensacionalismo. Para Christofoletti, criar uma experiência imersiva não é um problema em si. O áudio permite construir cenas, paisagens sonoras e pontos de vista capazes de aproximar o ouvinte da história.


O problema aparece quando os recursos são utilizados para objetificar pessoas, banalizar situações ou mobilizar emoções primárias como medo, nojo e curiosidade mórbida. “A imersão é um recurso que ajuda a contar uma boa história. O sensacionalismo, por outro lado, se apoia em técnicas artificiais para manter o público engajado, objetificar uma pessoa ou uma situação e, muitas vezes, banalizá-la”, diferencia.


O jornalismo pode dialogar com a literatura, o cinema e outras formas narrativas. Pode adotar estruturas não lineares, reconstruir cenas e trabalhar cuidadosamente com música e ambientação. A questão ética está na dosagem e na finalidade dessas escolhas.


“Esses recursos precisam ajudar a contar a história, e não se transformar no grande elemento da narrativa. Se, depois de ouvir, a pessoa se lembra do recurso, mas não se lembra da história, nós falhamos ao narrar”, afirma.


No caso de crimes reais, o cuidado deve ser ainda maior. Para Christofoletti, o entretenimento não pode se sobrepor à gravidade do tema: “A grande discussão, do ponto de vista ético, é a responsabilidade”.

 
 
 

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