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Escutar também é construir mundos: Lunar debate Ser Sonoro e paisagens sonoras

14 de ago.
7 min de leitura

Reunião aberta relacionou o podcast de Fernando Cespedes às ideias de R. Murray Schafer e Steven Feld, discutindo arquitetura, desigualdade, violência e responsabilidade na criação sonora



O Lunar retomou, em 25 de maio de 2026, sua programação de reuniões abertas com um encontro dedicado às paisagens sonoras. Conduzida pelo professor Andriolli Costa, a atividade partiu da audição do podcast Ser Sonoro para discutir como os sons produzem memórias, organizam espaços, despertam emoções e interferem na maneira como as pessoas conhecem o mundo.


Além dos integrantes do laboratório, a reunião recebeu participantes que conheceram a atividade pelo grupo de pesquisadores de rádio. Entre eles estavam Cassiano, de Caxias do Sul, que se prepara para produzir seu primeiro podcast independente, e Daniel, que acompanhou a conversa e contribuiu pelo chat.


O material principal foi Origens, primeiro episódio de Ser Sonoro, projeto criado pelo pesquisador, músico e sound designer Fernando Cespedes. Lançado originalmente como podcast em 2020, o trabalho nasceu da tese de doutorado defendida por Cespedes na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, em 2019.


Em 2023, o projeto ganhou uma versão revista e ampliada, composta por 13 programas transmitidos pela Cultura FM. A adaptação exemplifica como uma pesquisa acadêmica pode circular por diferentes formatos, tornando-se podcast, programa de rádio, exposição e material de divulgação científica.


Sons que despertam o corpo

No episódio analisado, Fernando Cespedes conduz o ouvinte por uma experiência sobre as possíveis origens da música. A narrativa imagina grupos humanos reunidos em torno de uma fogueira, atentos aos sons da mata e aos sinais que poderiam indicar a aproximação de um predador.


Batimentos cardíacos, passos, folhas em movimento, vozes e sons de animais constroem uma cena que mobiliza o corpo do ouvinte. Mesmo sabendo que não existe um tigre próximo, a alteração repentina das frequências, do volume e do ritmo pode produzir tensão.


Os participantes relacionaram essa experiência a sons cotidianos. Um simples toque de despertador reproduzido em um vídeo, por exemplo, pode acelerar o coração de quem associa aquele sinal à obrigação de acordar. O som não precisa anunciar um perigo real para despertar uma reação física.


O episódio também compara vocalizações animais a recursos empregados por trilhas de filmes de suspense e terror. Escutados separadamente, os sons podem parecer distantes. Quando são sobrepostos, a semelhança se torna perceptível e mostra como variações abruptas entre graves e agudos ajudam a construir sensações de instabilidade e ameaça.

A orientação para que o público use fones de ouvido também chamou a atenção. Parte dos integrantes escutou o programa uma segunda vez e percebeu como a separação espacial dos sons modifica a experiência.


Uma brincadeira muito séria

Ao reconstruir uma possível cena primordial de escuta coletiva, Ser Sonoro apresenta a música como um espaço de invenção. O ser humano não se limita a reconhecer o som de um predador: ele também pode imitá-lo quando não existe ameaça, transformando o alerta em jogo, narrativa, fantasia e criação musical.


A reunião discutiu, porém, que esse espaço lúdico não está separado das funções sociais do som. A música pode inspirar, acalmar, produzir pertencimento e movimentar o corpo. Também pode ser usada para constranger, intimidar, controlar ou torturar.


“É um espaço de fantasia, criação e expressão, mas que também possui funções práticas. Para trabalhar com som, é preciso compreender essa complexidade e a responsabilidade envolvida em cada escolha”, explicou Andriolli Costa.


A conclusão acompanhou uma das ideias centrais do episódio: produzir música e organizar sons pode ser uma brincadeira, mas é uma brincadeira muito séria. Com os mesmos recursos, é possível construir ambientes de acolhimento ou de medo.


O que forma uma paisagem sonora?

Para aprofundar o debate, Andriolli apresentou as contribuições do compositor e pesquisador canadense R. Murray Schafer. O conceito de paisagem sonora se refere ao conjunto de sons, ruídos e silêncios que caracteriza determinado ambiente ou comunidade.


O canto dos pássaros, o trânsito, uma sirene, os sinos de uma igreja, o aparelho de ar-condicionado e as conversas dos vizinhos participam da composição sonora de um lugar. Alguns desses elementos são permanentes; outros aparecem em horários ou circunstâncias específicas.


Schafer diferencia paisagens de alta e baixa fidelidade. Em ambientes de alta fidelidade, os sons se sobrepõem menos e podem ser distinguidos com maior clareza. Em paisagens de baixa fidelidade, sinais particulares são encobertos por uma massa contínua de ruídos. A diferença não está na frequência dos sons, mas na possibilidade de reconhecer cada acontecimento sonoro dentro do ambiente.


Os integrantes lembraram experiências em áreas de mata, como a Floresta da Tijuca, nas quais é possível perceber o canto de diferentes espécies e acompanhar sua localização. Andriolli recordou os bugios que escutava durante a infância. Com a redução da mata e o desaparecimento dos animais, aquela paisagem também se transformou.


O exemplo mostrou que uma paisagem sonora não é estática. Ela registra mudanças ambientais, sociais e tecnológicas. Quando uma espécie deixa de habitar um território, não desaparece apenas um animal: desaparece também uma voz que participava da memória sonora daquela comunidade.


A arquitetura também decide o que escutamos

A conversa avançou para a influência da arquitetura sobre a escuta. Materiais como vidro, metal, porcelanato e paredes finas refletem ou deixam passar o som de maneiras diferentes da madeira, dos tecidos e das antigas paredes de alvenaria.


Os participantes observaram que muitos apartamentos recentes tornam os ruídos dos vizinhos mais presentes. Elevadores, escadas rolantes, aparelhos de ventilação e sistemas de ar-condicionado produzem sons contínuos que, depois de algum tempo, deixam de ser percebidos conscientemente. A existência do ruído se torna evidente somente quando a máquina é desligada.


A própria UERJ serviu de exemplo. Aparelhos de ar-condicionado dificultam a comunicação em algumas salas e precisam ser desligados durante gravações. Em outros espaços, a arquitetura espalha os sons dos corredores, do Maracanã e dos equipamentos instalados no prédio.


“Os sons antigos muitas vezes começavam e terminavam. Um sino tocava e depois parava. Hoje convivemos com equipamentos, motores e trânsito que permanecem ligados durante horas. Essa continuidade produz um cansaço que nem sempre percebemos”, afirmou Andriolli.


O encontro também discutiu a ideia de “limpeza dos ouvidos” proposta por Schafer. Mais do que buscar silêncio absoluto, a prática consiste em interromper a exposição automática aos estímulos e reaprender a prestar atenção aos sons.


O som também é um marcador de desigualdade

As paisagens sonoras urbanas não são distribuídas de maneira igual. Durante a reunião, os participantes compararam o metrô subterrâneo de algumas áreas da Zona Sul do Rio de Janeiro às linhas abertas e elevadas que atravessam bairros da Zona Norte.


Morar diante dos trilhos significa conviver com interrupções frequentes durante o trabalho, o estudo, o sono e as conversas. O ruído torna-se, assim, um marcador de classe e território.


A desigualdade também aparece na oferta de ambientes planejados para o conforto acústico. Parques extensos, túneis tratados, estações com sinais sonoros e edifícios bem isolados não estão disponíveis da mesma maneira em todas as regiões da cidade.


Os relatos mostraram ainda que alguns sons funcionam como prenúncios de violência. A passagem repetida de helicópteros, tiros ou fogos fora de hora permite que moradores antecipem operações policiais e reorganizem seus deslocamentos. Antes de qualquer informação oficial, o ambiente sonoro já comunica que o cotidiano será alterado.


Toda edição constrói um mundo

A discussão sobre paisagem sonora também foi relacionada à montagem de podcasts narrativos. Ao editar uma gravação, o produtor escolhe quais sons permanecem, quais serão retirados e em que momento cada elemento aparecerá.


Andriolli explicou que um ruído de ônibus registrado durante uma externa pode ser deslocado alguns segundos para ajudar a realizar a transição entre blocos. Como o veículo efetivamente passou naquele ambiente, a alteração da ordem pode ser empregada para dar fluidez à narrativa sem inventar um acontecimento.


A situação seria diferente se o editor adicionasse buzinas inexistentes atrás da fala de um entrevistado para sugerir confusão ou desorganização. Nesse caso, a montagem poderia manipular a percepção do público.


“Quando editamos um podcast, estamos sempre construindo mundos. Cada som que entra ou deixa de entrar interfere na interpretação do ouvinte. Isso não significa que possamos construir de qualquer maneira. O material continua submetido à responsabilidade jornalística”, ressaltou o coordenador do Lunar.


Quando o som se transforma em violência

Um dos textos complementares discutidos foi The Soundscape of Genocide in Gaza, publicado pela pesquisadora Ellie Armon Azoulay. O artigo examina como explosões, drones, aeronaves, gritos e sistemas de alto-falantes passaram a compor o cotidiano sonoro da população palestina.


Segundo a autora, a exposição contínua a esses sons amplia os traumas individuais e coletivos. O ruído de um drone não comunica apenas a presença de uma máquina: ele mantém as pessoas em estado de alerta, prejudica o sono e impede momentos de descanso e convivência.


A discussão diferenciou os ruídos urbanos produzidos sem a intenção direta de atingir alguém do emprego deliberado do som para amedrontar e desorientar populações. Foram lembrados ainda episódios históricos em que músicas em alto volume serviram para intensificar ou ocultar sessões de tortura.


Integrantes do Lunar relacionaram o texto às próprias experiências no Rio de Janeiro. Sons de helicópteros e tiroteios também podem produzir medo antecipado, alterar rotinas e permanecer associados a experiências traumáticas.


Ao mesmo tempo, o artigo apresenta a música como forma de resistência. Músicos palestinos transformaram o ruído dos drones em referência tonal para cantar com crianças. A prática não elimina a violência, mas cria uma possibilidade de encontro, memória e afirmação da vida dentro de uma paisagem hostil.


Da paisagem sonora à acustemologia

Na parte final, a reunião apresentou o conceito de acustemologia, desenvolvido pelo antropólogo e etnomusicólogo Steven Feld. A palavra combina “acústica” e “epistemologia” para compreender o som como uma forma de conhecer e estar no mundo.


O conceito surgiu a partir das pesquisas de Feld entre os Kaluli, na região de Bosavi, em Papua-Nova Guiné. Para essa comunidade, os sons da floresta não formam apenas um cenário natural. Os pássaros podem ser escutados como vozes relacionadas aos ancestrais, à língua, à memória e à vida social.


A acustemologia propõe uma relação menos distante do que aquela sugerida pela imagem convencional de uma paisagem. As pessoas não apenas recebem os sons de determinado ambiente: elas respondem, produzem ruídos, constroem significados e transformam o espaço. Agentes humanos e não humanos participam dessa rede.


O encontro utilizou como exemplo as armas acústicas empregadas para dispersar manifestações. Ao desenvolver formas de proteção, registrar os níveis de decibéis e produzir provas sobre os danos causados, os manifestantes deixam de aparecer como receptores passivos e agem sobre aquele ambiente sonoro.


Responsabilidade pela escuta

Ao final da reunião, os participantes retomaram as diferentes dimensões discutidas. O som cria imaginários, ativa lembranças, comunica perigos, organiza territórios e interfere no corpo. Pode marcar desigualdades, sustentar formas de controle ou oferecer instrumentos de resistência.


A análise de Ser Sonoro mostrou que uma paisagem sonora não deve ser tratada apenas como decoração. Para quem produz podcasts, cada trilha, efeito, silêncio e som de ambiente participa da narrativa e orienta a experiência do público.

Escutar criticamente, portanto, também faz parte da responsabilidade de produzir. Antes de acrescentar um som, é preciso perguntar que mundo ele ajuda a construir, que interpretação favorece e quais relações torna audíveis — ou procura esconder.

 
 
 

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