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Como contar histórias com quem as viveu: Heloiza Barbosa apresenta caminhos da etnografia em áudio

1 de out. de 2025
4 min de leitura

Criadora do Faxina compartilha práticas de escuta, convivência e participação dos personagens na construção de podcasts narrativos.


Quando recebeu um gravador para registrar o cotidiano de sua família, a venezuelana Dorka Portillo, então com 11 anos, gravou brincadeiras, conversas, lembranças e saudades. Os registros deram origem a Diário de um refúgio, episódio do podcast Faxina. A experiência mostra como a produção de uma narrativa pode começar pela abertura de um espaço para que as próprias pessoas escolham o que desejam contar sobre suas vidas.


Esse foi um dos caminhos apresentados por Heloiza Barbosa na oficina Etnografias em Áudio, realizada online em 1º de outubro de 2025, durante o Vozes em Órbita — I Encontro Nacional de Podcasts Narrativos. Promovida pelo Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ, a atividade aproximou práticas de pesquisa, criação sonora e cuidado com quem compartilha sua história.


Doutora em Educação pela Boston University, a professora, roteirista e contadora de histórias paraense encontrou no áudio uma maneira de dialogar com a comunidade brasileira em Massachusetts. Sua própria experiência como imigrante e trabalhadora da limpeza nos Estados Unidos participou da criação do Faxina, lançado em 2020.


Uma escuta construída em vários encontros


Ao explicar o que chama de etnografia em áudio, Heloiza destacou a combinação entre observação, entrevistas e convivência. A atenção se dirige às falas, aos sons dos ambientes, aos silêncios e às relações que atravessam a vida de uma pessoa ou comunidade. É desse conjunto que surge a narrativa.


Em seu processo, a primeira entrevista costuma ser breve, com cerca de 15 a 20 minutos. O encontro permite que a pessoa conheça a produtora e apresente aquilo que já havia se preparado para dizer. Depois, Heloiza escuta a gravação, faz anotações e identifica assuntos que podem ser retomados.


Em entrevista ao Cochicho, indicada durante a oficina, ela explicou como apresenta essa proposta aos participantes: “Eu quero saber de você, quero saber o que te trouxe até aqui, e eu não posso saber disso em uma só entrevista”.


Nas conversas seguintes, a relação já tem alguma história. Um comentário passageiro pode ganhar espaço, uma lembrança pode trazer novos detalhes e uma pergunta pode levar a uma direção inesperada. A preparação convive com a disponibilidade para acompanhar o que aparece no encontro, inclusive quando isso exige esperar e sustentar um silêncio.


Quem participa também decide


A participação das pessoas continua na montagem. Heloiza compartilha versões do roteiro e considera as decisões dos protagonistas sobre o que será divulgado. Um trecho pode ter força narrativa e, ainda assim, ser retirado a pedido de quem o viveu.


Ao explicar essa construção conjunta, foi direta: “Elas têm a palavra final, porque é história delas, não é minha”.


A decisão tem consequências para o trabalho de produção. É preciso discutir versões, acolher recusas e rever soluções que pareciam prontas. O cuidado com quem compartilhou uma experiência participa da definição do episódio que chegará ao público.


Esse compromisso aparece também na escolha do formato. Heloiza lembrou que trabalhava com imigrantes sem documentação de permanência ou trabalho nos Estados Unidos, para quem a exposição do rosto poderia representar um risco. O áudio permitiu construir relatos sem exigir essa exposição visual. Em algumas histórias, também foi necessário preservar nomes e outros dados de identificação.


Quando o gravador muda de mãos


Em Diário de um refúgio, a proposta inicial era entrevistar a mãe de uma família venezuelana que vivia no interior de São Paulo. Durante as conversas remotas, porém, as intervenções dos filhos despertaram o interesse da produtora.


A equipe fez chegar um pequeno gravador à família, com a orientação de que seus integrantes poderiam registrar o que quisessem. Segundo Heloiza, o material recebido ultrapassou 50 horas. Dorka foi especialmente participativa, documentando experiências que dificilmente caberiam em uma entrevista convencional.


O episódio foi organizado a partir dessas gravações, com participação da família. Ao apresentá-lo, Heloiza comenta a relação entre a experiência vivida e sua montagem: “A gente sabe que os sons do dia-a-dia são muito bagunçados porque a vida nunca é em linha reta e arrumadinha”.


A organização em atos ajuda o ouvinte a acompanhar esse material, preservando o protagonismo dos integrantes da família na apresentação de suas experiências.


Encontrar a forma da história


O roteiro, nesse processo, surge depois da coleta e da escuta do material. Antes de escrever, Heloiza procura desenhar a estrutura da narrativa. Na oficina, mostrou formas que ajudam a organizar relações entre histórias: duas linhas que se encontram, relatos encaixados uns nos outros ou diferentes trajetórias articuladas em torno de um mesmo conjunto.


Esses desenhos ajudam a pensar entradas, retornos, aproximações e pontos de tensão. A estrutura pode mudar à medida que a produtora conhece melhor as pessoas e percebe outras possibilidades no material.


“Quando o desenho sai, o roteiro flui rapidinho”, contou. Até chegar a esse ponto, porém, ela pode passar dias ouvindo as gravações e procurando compreender qual história tem diante de si.


A presença da narradora também é uma decisão. Em Uma casa para sonhar, o relato de Paula e o diálogo com sua filha, Jéssica, conduzem uma história atravessada pelo trabalho doméstico e pela migração. Ao comentar o episódio, Heloiza destacou seu interesse em dar centralidade às vozes das participantes e experimentar outras maneiras de organizar a escuta.


A música também conta


“Música é memória”, afirmou Heloiza ao explicar o lugar da trilha sonora em seu trabalho.


A produtora pergunta aos participantes sobre músicas ligadas a diferentes momentos de suas vidas e os convida a cantar. Essas referências ajudam a construir a identidade sonora dos episódios e orientam o trabalho de composição.


No Faxina, a memória musical foi um caminho para reconhecer diferenças entre pessoas vindas de várias regiões brasileiras. Canções e formas de cantar carregam vínculos com lugares, relações e experiências que continuam presentes depois da migração.


A música participa, assim, da pesquisa sobre cada trajetória. Sua escolha nasce também da escuta de quem está contando a história.


O tempo necessário para construir junto


O método exige tempo para entrevistar, observar, ouvir novamente, experimentar estruturas e discutir versões. Na oficina, Heloiza contou que algumas histórias levaram meses até ficarem prontas. Também reconheceu as dificuldades de sustentar financeiramente uma produção com esse grau de dedicação.


Sua experiência oferece uma contribuição para quem pesquisa ou produz narrativas em áudio: a qualidade da história depende das condições criadas para que ela possa ser compartilhada. Isso envolve disponibilidade para reencontrar pessoas, acompanhar mudanças de direção e acolher decisões dos participantes sobre a circulação de suas próprias experiências.


A oficina completa está disponível no canal do Lunar no YouTube. Os episódios e seus roteiros podem ser consultados no site do Faxina.


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