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O artista como trickster: Lunar debate música e resistência em Fela Kuti: Fear No Man

14 de ago.
7 min de leitura

Reunião aberta analisou como o podcast de Jad Abumrad aproxima a trajetória de Fela Kuti das cosmologias iorubás para discutir colonialismo, transformação e o poder político da arte



Música, mito e insubordinação orientaram a reunião aberta do Lunar dedicada ao podcast Fela Kuti: Fear No Man. Conduzido pelo professor Andriolli Costa, o encontro analisou o quinto episódio da série, Trickster Makes the World, no qual o jornalista Jad Abumrad aproxima a trajetória do músico nigeriano Fela Kuti da figura do trickster e de aspectos relacionados a Exu.


A audição foi acompanhada pela leitura de trechos de Pensar Nagô, obra de Muniz Sodré dedicada à formulação de um pensamento filosófico afro-brasileiro. O diálogo entre os materiais permitiu discutir temporalidade, circularidade cultural, resistência, humor, colonialismo e os cuidados necessários ao mobilizar conhecimentos religiosos em uma narrativa jornalística.


Apresentada pelo criador do Radiolab, More Perfect e Dolly Parton’s America, Fela Kuti: Fear No Man foi lançada em 2025 pela Audible e pela Higher Ground, produtora fundada por Barack e Michelle Obama. A série de 12 episódios foi produzida pela Western Sound e pela Talkhouse a partir de mais de 200 entrevistas com familiares, músicos, pesquisadores e admiradores de Fela, entre eles Burna Boy, Paul McCartney, Questlove, Santigold e o próprio Barack Obama.


Da educação colonial ao pan-africanismo

A série acompanha a transformação de Fela Kuti de um jovem formado sob forte influência britânica e cristã em um músico revolucionário, criador do afrobeat e um dos principais opositores dos governos militares nigerianos.


Fela nasceu em uma família anglicana e teve uma educação atravessada pelas instituições coloniais. Em 1969, durante uma temporada nos Estados Unidos, conheceu a ativista Sandra Izsadore, ligada ao movimento negro norte-americano. Por meio desse encontro, entrou em contato com leituras sobre história africana, pan-africanismo e as lutas dos Panteras Negras.


O deslocamento produziu uma situação aparentemente paradoxal. Fela precisou viajar aos Estados Unidos para reconhecer o valor de tradições africanas que haviam sido desqualificadas por sua própria formação colonial. Ao retornar à Nigéria, transformou essas referências em uma nova linguagem musical e política.


“A série realiza um exercício de deslocamento epistemológico. Como está na Nigéria, falando de um músico nigeriano que assumiu sua relação com a cultura iorubá, procura compreendê-lo a partir das cosmologias daquele território”, explicou Andriolli.


O caso também mostra que as influências culturais não seguem uma linha única. Fela inspirou artistas e movimentos da diáspora negra, mas também foi transformado pelo contato com ideias que circulavam fora do continente africano. A cultura aparece, assim, como movimento de ida, retorno e reinvenção.


Por que aproximar Fela Kuti de Exu?

O quinto episódio, Trickster Makes the World, apresenta Fela como uma figura que enfrenta autoridades por meio do riso, da provocação e da quebra das regras. Cada repressão sofrida pelo músico se torna matéria para uma nova canção, performance ou afronta pública.


Na leitura discutida pelo Lunar, essa dimensão dialoga com Exu como princípio de movimento, comunicação, transformação e abertura de possibilidades. Exu escapa das classificações fixas: pode ser ancestral e descendente, começo e continuidade, ordem e ruptura.


Essa perspectiva contrasta com uma lógica ocidental baseada em oposições rígidas. Em vez de escolher entre uma coisa ou outra, o pensamento mobilizado no encontro admite coexistências, ambiguidades e movimentos circulares.


Muniz Sodré sintetiza essa temporalidade por meio de um conhecido enunciado iorubá: “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só atirou hoje”. A frase desorganiza a sequência convencional entre passado, presente e futuro e sugere que uma ação realizada agora pode modificar os sentidos atribuídos ao que veio antes.


Para Andriolli, a ideia ajuda a compreender a permanência de Fela. Sua música continua a ser acionada por movimentos políticos contemporâneos e ganha novos significados conforme outras gerações escutam e reinterpretam sua obra.


“Na lógica do trickster, o que se faz hoje pode transformar o futuro e também mudar a maneira como o passado é compreendido. A transformação talvez não seja visível imediatamente, mas continua agindo sobre quem vem depois”, afirmou.


Rir dos poderosos

Uma das características associadas ao trickster é a capacidade de revelar, pelo absurdo, aquilo que a sociedade normalizou. Fela frequentemente respondia à repressão com ironia, exagero e provocação.


O episódio recupera, por exemplo, a história que originou o disco Expensive Shit. Depois de uma tentativa policial de incriminá-lo por posse de maconha, Fela transformou a situação envolvendo a análise de suas fezes em música, título de álbum e sátira ao aparato repressivo.


Em outro episódio de sua trajetória, a exploração promovida por uma gravadora levou o músico a invadir a empresa e rasgar contratos considerados abusivos. A afronta não dizia respeito apenas ao próprio acordo: também alcançava os contratos de outros artistas.


“O trickster ri dos poderosos e, ao fazer isso, mostra o que é verdadeiramente risível. Fela transforma o absurdo da repressão em matéria artística e devolve o constrangimento para quem exerce o poder”, observou Andriolli.


A provocação também aparecia na organização da República de Kalakuta, comunidade autodeclarada independente criada por Fela em Lagos. O espaço reunia residência, estúdio e local de apresentações, funcionando como afronta política e cultural aos governos nigerianos.


Em 1978, Fela realizou uma cerimônia coletiva de casamento com 27 mulheres, muitas delas cantoras e dançarinas de sua banda. A série não trata essas escolhas apenas como gestos de libertação. Outro episódio é dedicado às contradições de um artista que desafiava estruturas coloniais e conservadoras, mas também reproduzia desigualdades de gênero.


Um personagem que não cabe no mercado

A própria música de Fela contrariava os formatos comerciais. Suas composições podiam ultrapassar 20 minutos, dificultando a circulação nas rádios e a adaptação às exigências da indústria fonográfica. Nos shows, evitava repetir músicas que já haviam sido gravadas, tornando cada apresentação uma experiência difícil de padronizar.


Essa resistência à captura comercial também foi interpretada como uma característica do trickster. Fela não apenas denunciava as regras: construía sua produção de modo a escapar delas.


A liberdade, porém, teve consequências. O músico foi preso, espancado e perseguido diversas vezes. Em 1977, militares invadiram e destruíram a República de Kalakuta. Sua mãe, a ativista Funmilayo Ransome-Kuti, foi lançada de uma janela durante o ataque e morreu posteriormente em consequência dos ferimentos.


O encontro aproximou essa dimensão da imagem do “curador ferido”: aquele que provoca transformações para os outros, mas sofre pessoalmente durante o processo. Fela utilizava as marcas da violência como parte de sua performance política, chegando a subir ao palco ainda machucado depois de agressões policiais.


A aproximação não pretende transformar o músico em herói sem contradições. Ao contrário, o trickster interessa justamente por sua proximidade com a experiência humana. Diferentemente do herói idealizado, ele erra, exagera, produz rupturas e também pode ser destruído pelas forças que mobiliza.


Uma narrativa feita por muitas vozes

Além do conteúdo, os participantes analisaram a construção sonora do podcast. A velocidade da narração em inglês trouxe dificuldades para parte do grupo, que recorreu às transcrições disponíveis nas plataformas para acompanhar o episódio.


Ainda assim, o desenho de som, a música e a diversidade de vozes foram destacados como pontos fortes. O programa utiliza gravações do próprio Fela, entrevistas de arquivo e depoimentos contemporâneos, evitando substituir todas as falas pela voz do narrador.


A presença da risada de Fela, de suas onomatopeias, das improvisações e dos trechos musicais faz com que o personagem apareça não apenas como objeto de uma biografia, mas como uma presença sonora.


“Quando o podcast preserva as vozes, o público entra em contato com diferentes pessoas e maneiras de lembrar. A história não fica limitada à paráfrase do apresentador”, observou uma das participantes.


As trilhas também mudam de acordo com o movimento dramático. Elementos ligados ao afrobeat são combinados com referências do suspense e do cinema de ação, acompanhando os confrontos políticos e as estratégias do personagem.


O risco do “ventriloquismo acadêmico”

A utilização de Exu como chave interpretativa provocou também uma discussão crítica. Um dos participantes alertou para o risco de conceitos ligados às religiões de matriz africana serem retirados de seus contextos e transformados em metáforas disponíveis para qualquer análise.


A repetição de frases, símbolos e atributos de Exu não garante, por si só, uma mudança epistemológica. Sem estudo e compromisso com as comunidades que produzem esses conhecimentos, a apropriação pode se tornar uma espécie de “ventriloquismo acadêmico”, no qual o pesquisador fala em nome de uma tradição que conhece apenas superficialmente.


“Para utilizar esse repertório em uma pesquisa, é preciso estudar muito, inclusive por respeito religioso. Não basta classificar qualquer ruptura ou circularidade como exuística”, destacou o participante.


Andriolli concordou que a aproximação mítica exige conhecer a narrativa mobilizada. A leitura não deve selecionar apenas as características convenientes do mito, ignorando seus conflitos, advertências e desfechos.


A discussão foi ampliada para o nome Aníkúlápó, adotado por Fela em substituição a Ransome, sobrenome que associava à herança colonial. Traduzido frequentemente como “aquele que carrega a morte em sua bolsa”, o nome afirma a recusa do músico em se submeter ao medo.


O encontro relacionou essa escolha a narrativas iorubás contemporaneamente retomadas pelo cinema e pela literatura. Andriolli ressaltou, porém, que uma leitura mitocrítica completa também precisa acompanhar os momentos de queda, perda e limite, em vez de utilizar o mito apenas para ampliar a grandeza do biografado.


Sankofa e a transformação do tempo

A conversa também aproximou Exu do princípio de Sankofa, frequentemente representado por um pássaro que avança enquanto volta a cabeça para buscar algo deixado para trás.

O símbolo mostra que retornar ao passado não significa permanecer preso a ele. A memória e o conhecimento ancestral podem oferecer elementos para transformar o presente e construir outros futuros.


Essa lógica apareceu na própria trajetória do afrobeat. Fela recuperou ritmos e formas musicais africanas, mas não realizou uma repetição pura do passado. Reuniu essas referências ao jazz, ao funk e às experiências políticas da diáspora para produzir algo novo. O passado, portanto, não funciona como modelo imutável. Ele é retomado, reorganizado e lançado adiante.


Como usar o mito em um podcast narrativo?

Na parte final da reunião, os participantes realizaram um exercício de criação. A proposta era imaginar personagens contemporâneos que pudessem ser narrados em diálogo com o mito de São Jorge, seguindo o movimento realizado pelo podcast entre Fela e Exu.


Entre as possibilidades surgiram Jorge Ben Jor, por sua relação musical com o santo; Antônio das Mortes, personagem de Glauber Rocha associado ao confronto entre o santo guerreiro e o dragão; sambistas ligados às celebrações de 23 de abril; e o próprio dragão, cuja imagem negativa no Ocidente poderia ser confrontada com os sentidos positivos que recebe em culturas asiáticas.


A atividade mostrou que o mito pode fornecer uma estrutura para narrar personagens, conflitos e transformações. Também pode inverter perspectivas: em vez de contar novamente a vitória do santo, uma produção poderia perguntar quem nomeou o dragão como inimigo e se o “mal” não seria apenas a religião ou a cultura do outro.


Para Andriolli, as aproximações míticas são frequentes nos podcasts narrativos porque o mito oferece imagens primordiais por meio das quais diferentes sociedades organizam experiências.


O desafio é não utilizar essa estrutura como simples ornamentação. O mito precisa dialogar efetivamente com o personagem e com o problema investigado, respeitando a complexidade cultural e religiosa de onde foi retirado.


A reunião encerrou-se com uma ideia que atravessa tanto o podcast quanto a trajetória de Fela Kuti: a arte pode não derrubar imediatamente uma estrutura de poder, mas consegue desnaturalizá-la, expor seus absurdos e manter aberta a possibilidade de transformação.

 
 
 

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