“O que o Rio permite que a gente sonhe?”: Lunar apresenta Sonhário no Rio WebFest
- Andriolli Costa
- 12 de ago.
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Finalista na categoria de melhor podcast de não ficção, projeto criado com artistas das periferias cariocas foi discutido no Painel dos Criadores do festival
O Lunar, Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ, participou do Rio WebFest 2024 com a apresentação do podcast Sonhário, produzido a partir dos diários de sonhos de jovens artistas das periferias do Rio de Janeiro. O projeto foi representado pelo coordenador do laboratório, Andriolli Costa, e pela coordenadora da Avenida Brasil – Instituto de Criatividade Social, Valquíria Oliveira.
Gravado em 1º de dezembro no Estúdio Petrobras, o Painel dos Criadores reuniu representantes de trabalhos selecionados pelo festival para conversar sobre seus processos de produção. Em sua décima edição, o Rio WebFest foi realizado entre 29 de novembro e 2 de dezembro, na Cidade das Artes, e incluiu podcasts, webséries, videoclipes, webcomics e outros formatos digitais em sua mostra competitiva.
O Sonhário chegou ao festival ainda como projeto-piloto e foi finalista na categoria de melhor podcast de não ficção, ao lado de produções do Brasil, dos Estados Unidos, do Canadá e da Lituânia. A seleção está registrada na relação oficial do Rio WebFest 2024.
Dos diários de sonhos ao podcast
Durante o painel, Andriolli explicou que o programa nasceu do encontro entre diferentes projetos. A produção reuniu o Lunar, o Laboratório de Estudos da Imagem e do Imaginário da UERJ (Labim) e o projeto Pode Sonhar, desenvolvido pela Avenida Brasil – Instituto de Criatividade Social, organização também responsável pela Agência de Redes para a Juventude.
Na primeira edição do Pode Sonhar, 12 artistas de favelas e periferias do Rio foram convidados a manter diários sonoros. Cada vez que tinham um sonho, eles gravavam pelo WhatsApp aquilo de que conseguiam se lembrar. Os registros alimentaram oficinas criativas e uma instalação sonora dedicada às experiências oníricas, aos desejos e às trajetórias dos participantes.
Quando a parceria com os laboratórios da UERJ começou, os diários se tornaram também o ponto de partida para entrevistas em profundidade. Em vez de aplicar o mesmo roteiro a todos, a equipe formulou as perguntas a partir das imagens, dos conflitos e dos sentimentos presentes nos sonhos de cada artista.
Na edição final, as perguntas e a voz da entrevistadora foram retiradas. O ouvinte escuta apenas os participantes contando suas histórias e estabelecendo relações entre os sonhos noturnos, as aspirações pessoais e a cidade onde vivem.
— O programa não tem a pergunta e não tem narrador. É só o artista falando de si e dos seus sonhos: tanto os sonhos oníricos quanto os desejos, as esperanças e aquilo que a arte amplia em nossa forma de sonhar — explicou Andriolli.
A pergunta que orientou a construção da série foi apresentada pelo coordenador durante o painel:
— O que o Rio permite que a gente sonhe?
A produção também procurou perceber o movimento contrário: como o território, a desigualdade e a violência podem limitar determinados sonhos ou fazer com que eles sejam abandonados.
A confiança como ponto de partida
Andriolli contou que a etapa mais difícil não foi a gravação nem a edição, mas a construção de confiança com os participantes. Os sonhos são materiais íntimos e, muitas vezes, revelam medos, afetos e experiências que as pessoas não costumam compartilhar publicamente.
Antes das entrevistas, a equipe visitou o espaço do projeto, apresentou o trabalho desenvolvido pelo Lunar, ouviu os participantes e discutiu como o material seria utilizado.
— Precisamos estabelecer uma relação, visitar o lugar, nos apresentar, mostrar como costumamos trabalhar e ouvir muito. Cada sonho é diferente, cada entrevista é diferente e cada episódio precisava ser diferente — afirmou.
Essa diversidade levou a equipe a adotar uma estrutura aberta. A linguagem de cada episódio foi definida pelo encontro com o entrevistado e pelaquilo que ele se sentia confortável em compartilhar. Em vez de enquadrar todas as trajetórias em um modelo único, a edição procurou encontrar uma forma específica para cada personagem.
Valquíria Oliveira destacou que essa abertura resultou da complementaridade entre os parceiros. A Avenida Brasil levou sua experiência de quase duas décadas com jovens e artistas das periferias, enquanto os laboratórios da UERJ contribuíram com a pesquisa, a entrevista, a produção e a edição de podcasts narrativos.
— Foi uma parceria muito feliz nesse lugar da complementaridade. A gente partilhou todo o processo, foi conversando e entendendo como poderia ser feito — avaliou.
Três maneiras de sonhar o Rio
A temporada-piloto foi construída em três episódios, com aproximadamente 25 minutos cada. Os protagonistas são Luana Guimarães, Kaio Phelipe e DG Machado, participantes da primeira edição do Pode Sonhar.
Luana Guimarães é atriz e professora de Geografia. Seus sonhos conduzem uma reflexão sobre representação, identidade e o desejo de inspirar outras meninas negras a acreditarem que podem ocupar diferentes espaços.
Morador de Realengo, Kaio Phelipe transformou a experiência cotidiana na Zona Oeste em literatura. Poeta, escritor e romancista, ele fala sobre a produção artística realizada entre o trabalho, os deslocamentos de trem e as provocações que sua presença como artista LGBT produz.
DG Machado é rapper e participa de batalhas de poesia falada. Seu episódio, A Batalha do Amor e do Medo, organiza a narrativa em torno das coisas que ele ama e daquelas que teme. A violência policial e a perda de pessoas próximas aparecem ao lado do desejo de construir outros caminhos para sua família e seu território.
— O medo daquele espaço onde ele vivia fazia com que sonhasse em construir outras coisas para sua família e conseguir aquilo que outros jovens, assassinados naquele contexto de violência urbana, não puderam alcançar — relatou Andriolli.
Sonhos também são coletivos
O painel ampliou o debate para além das experiências individuais. Andriolli observou que os sonhos carregam expectativas familiares, pressões sociais e possibilidades oferecidas — ou recusadas — pelo território.
Uma pessoa pode assumir os projetos que sua família construiu para ela, assim como pode deixar de imaginar determinada profissão por acreditar que aquele caminho não lhe pertence. No caso dos artistas periféricos, a urgência da subsistência frequentemente faz com que a criação seja tratada como um luxo ou uma atividade sem futuro.
Valquíria lembrou que a Avenida Brasil foi fundada por artistas de origem popular que, em determinado momento, passaram a se perguntar como outras pessoas poderiam ter acesso à mesma experiência de criação.
A organização desenvolveu projetos voltados à juventude partindo não apenas das carências existentes nas periferias, mas das potências, dos desejos e dos conhecimentos produzidos nesses espaços.
— Existe um senso comum, reiterado pela mídia tradicional, de que esses territórios são apenas carentes. Muitas vezes faltam saneamento, educação e acesso à saúde, mas não podemos esperar resolver todas essas questões para garantir o direito à cultura — defendeu.
Para Valquíria, o direito cultural não se restringe ao consumo de espetáculos, livros ou músicas. Ele inclui a possibilidade de qualquer cidadão reconhecer-se como artista, desenvolver uma linguagem própria e produzir obras a partir de sua experiência.
— A gente trabalha muito na perspectiva da potência, ouvindo o desejo dessas pessoas e tentando construir com elas uma ação no mundo — explicou.
O processo pode ampliar redes e revelar possibilidades profissionais que os participantes desconheciam. Valquíria mencionou jovens que chegaram aos projetos desacreditados de suas capacidades e, posteriormente, tornaram-se artistas, profissionais e lideranças em seus territórios.
— A gente não pode ficar esperando o cenário ideal para agir. Precisa estar o tempo inteiro trabalhando para que esses jovens possam desenvolver e construir suas trajetórias — afirmou.
De 12 para 40 participantes
Durante o Rio WebFest, Valquíria anunciou que o Pode Sonhar já realizava sua segunda edição. O projeto, iniciado com 12 participantes, havia passado a trabalhar com 40 jovens artistas de diferentes linguagens.
A metodologia reúne atores, músicos, cantores, poetas, artistas visuais e outros agentes culturais em torno de sonhos sonhados, sonhos desejados e sonhos guardados na memória. Os registros são transformados em materiais artísticos e compartilhados com o coletivo.
— No final, estamos propondo algo muito simples: retomar a possibilidade de uma coletividade a partir da partilha de uma experiência muito subjetiva e íntima — explicou Valquíria.
Embora a nova edição abrisse caminho para uma possível continuidade do podcast, os coordenadores afirmaram que a primeira temporada seria lançada e avaliada antes da definição de novos episódios. A recepção do público ajudaria a equipe a compreender as possibilidades do formato.
Extensão universitária como parceria
Questionado sobre o financiamento do podcast, Andriolli explicou que a temporada-piloto não contou com patrocínio específico. A produção foi viabilizada pela colaboração entre a organização social e os dois laboratórios universitários.
Segundo o professor, essa aproximação integra a própria função da extensão universitária: colocar os conhecimentos e as estruturas da universidade em contato direto com grupos e iniciativas da sociedade.
O trabalho envolveu estudantes e integrantes das equipes do Lunar e do Labim em diferentes etapas da produção. A direção foi compartilhada por Andriolli Costa, Valquíria Oliveira e Rafael Malhado. Ellen Alves Lima conduziu as entrevistas, enquanto Víctor Affonso participou da dramatização de poemas. Bruna Sebollela, Geovana Pessôa, Juliana Sá e Becca Vieira integraram a equipe de produção.
A indicação ao Rio WebFest levou o projeto a uma mostra internacional antes mesmo de sua estreia. O festival de 2024 contou com 260 conteúdos indicados e 78 categorias, além de painéis, oficinas e rodadas de negócios voltadas a criadores independentes.
No Painel dos Criadores, o Sonhário foi apresentado não somente como uma nova produção do Lunar, mas como resultado do encontro entre universidade, terceiro setor e artistas das periferias.
Na época da participação, os episódios ainda não haviam sido disponibilizados ao público. A temporada estreou posteriormente, em 16 de junho de 2025, e pode ser conhecida na página do Sonhário no site do Lunar.
Para acompanhar os demais projetos do laboratório, acesse www.podcastnarrativo.com.br ou siga @podcastnarrativo no Instagram. As ações do Pode Sonhar podem ser encontradas no perfil @podesonhar_rj.




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