O som sobreviverá às plataformas? Vozes em Órbita debate os próximos 20 anos do podcast
Mesa que encerrou as atividades presenciais reuniu Filipe Mostaro e Eduardo Vicente para discutir formação universitária, financiamento, inteligência artificial e os caminhos da mídia sonora no Brasil
É impossível saber quais plataformas estarão disponíveis daqui a duas décadas, mas uma coisa continuará presente: a necessidade humana de ouvir e contar histórias. Essa foi uma das principais conclusões da mesa “Podcast no Brasil: os próximos 20 anos”, que encerrou as atividades presenciais do Vozes em Órbita – I Encontro Nacional de Podcasts Narrativos.
Mediado pela pesquisadora e podcaster Aline Hack, o debate reuniu Filipe Mostaro, professor da Faculdade de Comunicação Social da UERJ e coordenador do Audiolab, e Eduardo Vicente, professor livre-docente da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e coordenador do grupo de pesquisa MidiaSon.
Ao olhar para o futuro, os pesquisadores retornaram às origens da comunicação sonora. Também discutiram a autonomia conquistada pelo podcast, a concentração do mercado nas grandes plataformas, a necessidade de financiamento para produções independentes e o papel das universidades na experimentação de novas linguagens.
Antes das plataformas, o som
Filipe Mostaro iniciou sua participação recusando a tentativa de prever qual aplicativo, formato ou modelo de negócio dominará a podosfera daqui a 20 anos. Em vez de uma “bola de cristal”, propôs observar aquilo que permaneceu ao longo de diferentes transformações tecnológicas.
A sonoridade, segundo ele, é uma das primeiras tecnologias de comunicação desenvolvidas pela humanidade. Fonemas, ritmos, timbres, entonações e jogos de palavras já produziam sentidos muito antes do rádio, do podcast ou da internet.
Narrativas como a Ilíada e a Odisseia sobreviveram durante séculos por meio da oralidade, apoiadas não apenas no enredo, mas na métrica e no ritmo que ajudavam os narradores a recordar e transmitir as histórias.
“O local onde essa sonoridade será desenvolvida e mediada pode mudar. O que não vai desaparecer é o poder do som na comunicação humana”, afirmou.
Mostaro utilizou duas frases para sintetizar essa presença: “No útero, tudo é som” e “É possível fechar os olhos, mas nunca os ouvidos”. Antes mesmo de enxergar, o ser humano já é envolvido por uma paisagem sonora. Ao longo da vida, o som continua afetando o corpo mesmo quando não recebe atenção consciente.
No videocast, o áudio continua conduzindo
O crescimento dos podcasts em vídeo não representa, para Mostaro, o desaparecimento da linguagem sonora. Mesmo no YouTube ou em outras plataformas audiovisuais, é o áudio que frequentemente conduz a experiência.
Muitas pessoas acompanham esses programas enquanto lavam louça, dirigem ou realizam outras atividades. A imagem ganha destaque em momentos específicos, como quando alguém altera o tom de voz, demonstra uma reação inesperada ou estabelece algum tipo de confronto.
“O vídeo pode ser um acessório muito poderoso, mas o som permanece como fio condutor”, argumentou.
A capacidade de criar ambientes também aproxima o podcast de experiências sonoras anteriores. Em uma quadra de escola de samba, por exemplo, a bateria não apenas transmite uma informação: ela envolve os corpos e altera a percepção do espaço. O podcast narrativo mobiliza esse mesmo potencial ao construir uma temporalidade na qual o ouvinte aceita entrar.
Para Mostaro, a narrativa sonora funciona como um jogo. Quem produz estabelece regras, apresenta um universo e convida o público a permanecer nele. A imersão pode estimular o ouvinte a avançar de um episódio para outro, mas também oferece profundidade para acontecimentos inicialmente apresentados apenas como novidade.
“A novidade diz que alguém foi assaltado. A profundidade pergunta como essa história aconteceu. O radiojornalismo narrativo trabalha justamente com essa passagem da novidade para a profundidade”, explicou.
Uma cultura de produção e consumo
Eduardo Vicente recuperou os primeiros anos da mídia para mostrar que sua consolidação não estava garantida pela tecnologia. Em 2004, o podcast era definido sobretudo como um conteúdo distribuído automaticamente pela internet por meio do RSS.
Naquele momento, ainda existia a dúvida sobre sua capacidade de se estabelecer como mídia autônoma. O podcast poderia ter se transformado apenas em um espaço no qual as rádios disponibilizariam programas já transmitidos.
O uso social, no entanto, levou a outro caminho. Em pouco mais de duas décadas, formou-se uma cultura própria de produção e consumo, com gêneros, tradições, profissionais e comunidades de ouvintes.
“Nada na tecnologia garantia que isso aconteceria. Poderia não ter acontecido. Foi o uso social que consolidou o podcast como uma mídia”, afirmou Vicente.
Uma das principais mudanças foi a criação de um espaço para o consumo de conteúdos sonoros não musicais. Parte do público jovem que já não acompanhava o rádio passou a ouvir entrevistas, documentários, reportagens, conversas e ficções em áudio.
Esses ouvintes também começaram a produzir. Ao recordar a proposta de Bertolt Brecht de transformar o rádio em uma mídia na qual o público pudesse não apenas receber, mas também falar, Vicente destacou que o podcast organizou muitos ouvintes como produtores.
O público se encontra pela afinidade
Outra diferença aparece na relação com o público. As emissoras tradicionais têm alcance definido principalmente por critérios geográficos. O podcast, por sua vez, forma comunidades a partir de interesses, identidades, causas e afetos compartilhados.
Um programa produzido em uma cidade pequena pode alcançar ouvintes de diferentes estados ou países porque trata de um assunto com o qual essas pessoas se identificam. A ausência de uma grade fixa também oferece maior autonomia para experimentar durações, estruturas e linguagens.
“O podcast criou um espaço importante para um jornalismo independente, inclusive produzido por não jornalistas. Isso permitiu que histórias e debates que talvez não encontrassem lugar em outros meios chegassem ao público”, observou Vicente.
A disponibilidade sob demanda também elimina parte da instantaneidade característica do rádio. Um episódio pode ser escutado e redescoberto anos depois de seu lançamento. Séries narrativas como Serial e Praia dos Ossos continuam circulando porque apresentam conteúdos densos que não esgotam seu interesse no curto prazo.
Um espaço deixado pelo rádio público
No Brasil, Vicente considera que o podcast ocupou parcialmente um espaço deixado pela ausência de um sistema público de rádio com tradição consolidada de documentários, ficções e experimentações.
Em países com estruturas públicas mais fortes, parte da linguagem hoje associada ao podcast narrativo nasceu em programas radiofônicos. Nos Estados Unidos, produções ligadas à National Public Radio e títulos como This American Life ajudaram a formar uma tradição posteriormente incorporada pela podosfera.
No contexto brasileiro, o contato com essas produções gerou o que Vicente chamou de “polinização cruzada”. O podcast permitiu conhecer gêneros e tradições sonoras pouco presentes no rádio nacional e adaptá-los a histórias, vozes e experiências brasileiras.
Essa influência não deve resultar em simples reprodução de modelos estrangeiros. Sua importância está na abertura de novas possibilidades para uma produção que desenvolva linguagem própria e dialogue com a diversidade do país.
O risco da concentração
Ao projetar as próximas duas décadas, Eduardo Vicente defendeu um ecossistema menos concentrado nas grandes plataformas. O investimento feito pelo Spotify a partir da segunda metade da década de 2010 contribuiu para ampliar a produção profissional, mas a posterior redução desses recursos mostrou a fragilidade de um mercado dependente de poucos agentes.
Outras empresas, como Audible e Globoplay, passaram a investir em produções originais, mas a concentração continua deixando criadores e produtoras vulneráveis às mudanças de estratégia dessas companhias.
“Eu gostaria de ver um ecossistema mais equilibrado, com mais produtores independentes e um cenário menos concentrado. Esse movimento de entrada e saída das plataformas mostra como é perigoso depender de poucos players”, avaliou.
Vicente citou experiências internacionais nas quais empresas e instituições financiam podcasts ficcionais sem transformar os programas em publicidade direta. Esse modelo permite que produtoras independentes desenvolvam propriedades intelectuais, ampliem a circulação das obras e realizem versões em outros idiomas.
Para que algo semelhante cresça no Brasil, seriam necessários mais editais públicos e privados, premiações, festivais e espaços de divulgação. Essas iniciativas ajudariam a dar visibilidade aos produtores e reduziriam a dependência das grandes plataformas.
A universidade como espaço de experimentação
Aline Hack questionou os convidados sobre o lugar ocupado pelo podcast nos currículos universitários. Embora a pesquisa acadêmica tenha crescido, a formação ainda costuma tratar o podcast como um desdobramento das disciplinas de rádio.
Vicente reconheceu que definir de maneira rígida se podcast “é” ou “não é” rádio pouco contribui para o debate. As duas mídias compartilham linguagens e tradições, mas também apresentam diferenças importantes.
Em vez de buscar uma fronteira absoluta, seria mais produtivo investigar o que o podcast pode aprender com o rádio e como suas inovações podem renovar o ensino da comunicação sonora.
“Não é fácil ensinar a fazer podcast narrativo. As pesquisas aumentaram bastante, mas talvez esse crescimento ainda não tenha sido plenamente incorporado à formação dos estudantes”, ponderou.
Mostaro defendeu a adoção do conceito mais amplo de mídia sonora. A expressão permite reunir o rádio, o podcast, a ficção, o documentário, o radiojornalismo e outras experiências sem restringir o ensino ao aparato tecnológico utilizado para transmitir o conteúdo.
Nas disciplinas da FCS/UERJ, ele percebe uma mudança imediata no interesse dos estudantes quando o conteúdo chega aos podcasts. Enquanto poucos dizem acompanhar emissoras de rádio, quase toda a turma levanta a mão quando perguntada sobre o consumo de podcasts.
“Quando tratamos tudo isso como mídia sonora, conseguimos ampliar o imaginário sobre a sonoridade. Podemos pensar linhas de pesquisa em radiojornalismo, ficção, podcast narrativo e tantas outras possibilidades”, explicou.
Laboratórios como o Audiolab e o Lunar ocupam um lugar estratégico nesse processo. Por não precisarem seguir exclusivamente as demandas comerciais, podem testar formatos, avaliar resultados e desenvolver projetos documentais, ficcionais, jornalísticos e experimentais. “A academia é o lugar desses testes”, resumiu Vicente.
O futuro também está nas escolas e nos hospitais
O estudante de Jornalismo e bolsista do Lunar Carlos Roberto Geremias ampliou a discussão ao perguntar sobre os usos da mídia sonora em escolas e hospitais. Ele recordou uma rádio que funcionava em sua escola durante a infância e sugeriu que experiências semelhantes poderiam levar informação e acolhimento a pacientes de unidades públicas de saúde.
Vicente relembrou sua participação no projeto Educom.rádio, que instalou emissoras de alcance restrito em escolas municipais de São Paulo. Nessas experiências, os próprios estudantes participavam da produção, aprendendo a organizar ideias, trabalhar coletivamente e se reconhecer como sujeitos da comunicação.
Também mencionou projetos radiofônicos desenvolvidos por usuários de serviços de saúde mental, como a Rádio Maluco Beleza, de Campinas, e a Rádio Tam Tam, de Santos.
Mostaro acrescentou que a comunicação sonora pode ser utilizada em hospitais, escolas e instituições para divulgar orientações, combater informações falsas e estabelecer vínculos com públicos específicos.
Como exemplo, contou que, durante a pandemia, participou da criação de um jornal sonoro interno em uma agência da Caixa Econômica Federal. O programa atualizava funcionários e usuários sobre calendários, documentos e procedimentos relacionados ao auxílio emergencial.
A experiência demonstrou que uma informação narrada com voz, entonação e proximidade pode mobilizar mais atenção do que um cartaz ou uma mensagem projetada em uma tela.
Inteligência artificial é democratização?
Durante o debate, Andriolli Costa aproximou o uso da inteligência artificial no podcast do que já acontece na literatura. Uma pessoa pode não dominar a escrita, solicitar que uma ferramenta gere um livro e, depois de publicá-lo, reconhecer-se como autora. No podcast, plataformas como o NotebookLM permitem inserir documentos e gerar automaticamente uma conversa com vozes sintéticas. Se esse áudio for distribuído em um feed, ele poderá circular tecnicamente como podcast, embora o responsável pela publicação não tenha gravado, entrevistado, roteirizado ou editado o conteúdo.
“A pessoa não sabe escrever, não tem a técnica da escrita, mas usando a inteligência artificial, publica um livro e se sente autor por ter publicado. Hoje já é possível fazer algo semelhante com o podcast: você coloca alguns PDFs no NotebookLM, a ferramenta gera uma conversa e você publica. Mas isso é realmente a democracia que estávamos imaginando? Poder fazer um podcast sem saber editar, sem gravar e sem usar a própria voz significa necessariamente democratizar essa mídia?”, questionou Andriolli.
A provocação não se dirigia à ampliação do acesso às ferramentas, mas à diferença entre facilitar a publicação e efetivamente transformar o ouvinte em produtor, como propunha Bertolt Brecht. Se a narração, as vozes e as decisões editoriais são delegadas à inteligência artificial, permanece a dúvida sobre quem ocupa o lugar de autoria e assume a responsabilidade pelo conhecimento colocado em circulação.
Vicente evitou uma resposta definitiva, mas lembrou que diferentes mudanças tecnológicas já foram apresentadas como ameaças capazes de transformar completamente a comunicação. Nenhuma delas eliminou a necessidade humana de conhecer o outro, acompanhar histórias e compartilhar experiências.
Mostaro argumentou que a inteligência artificial pode auxiliar em diferentes etapas, mas não substitui integralmente a percepção construída no encontro entre repórter e fonte. Uma voz embargada, o silêncio antes de uma resposta e a atmosfera de determinado ambiente possuem sentidos que dependem da sensibilidade de quem estava presente.
“A tecnologia pode ajudar de diversas formas, mas não retira nossa capacidade de compreender a realidade e perceber aquilo que surge na oralidade, no contato direto e na atmosfera de uma entrevista”, afirmou.
O diferencial humano estaria justamente na capacidade de transformar essa percepção em narrativa. Mais do que organizar informações disponíveis, o produtor interpreta gestos, pausas, relações e afetos.
O futuro pode estar em qualquer lugar
A mesa não estabeleceu uma previsão única para os próximos 20 anos. As plataformas poderão mudar, novos modelos de negócio serão testados e a fronteira entre áudio e vídeo continuará sendo disputada.
Os participantes, no entanto, convergiram em alguns caminhos desejáveis: um mercado menos concentrado, maior apoio às produtoras independentes, formação universitária específica, mais espaços de experimentação e uso social da mídia sonora em áreas como educação e saúde.
Acima dessas transformações está a permanência do som como elemento fundamental da experiência humana. “Eu não sei qual será o nome da plataforma ou como vamos nos comunicar daqui a 20 anos”, concluiu Filipe Mostaro. “Pode ser por qualquer caminho, mas o som continuará sendo um elemento fundamental das nossas interações.”





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