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Oficina do Lunar mostra como escuta e criatividade transformam objetos em narrativas sonoras

Danilo Battistini apresentou técnicas de foley, sound design, edição e mixagem e propôs um exercício prático de sonorização aos participantes


 

Uma grelha velha de churrasqueira, pedaços de papelão e algumas correntes podem reproduzir o som da carroceria de um caminhão. Um rolo de papel higiênico, uma caixa e um pedaço de madeira ajudam a construir uma carroça. Já tampinhas, objetos metálicos e até um desodorante dentro de uma embalagem de batatas podem fornecer as texturas necessárias para sonorizar a transformação de um robô.

 

Os exemplos foram apresentados pelo produtor de áudio e artista de foley Danilo Vieira Battistini durante a primeira oficina virtual promovida pelo Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ, o Lunar. Realizada em 24 de outubro de 2023, a atividade abordou os fundamentos da sonoplastia, as diferenças entre foley, sound design, edição e mixagem e os caminhos para construir narrativas destinadas exclusivamente à escuta.

 

A oficina reuniu uma parte teórica e uma proposta prática, na qual os participantes foram convidados a criar sons para cenas de filmes e páginas de histórias em quadrinhos. A atividade gratuita foi transmitida pelo Google Meet e teve duração de duas horas, conforme a divulgação da Faculdade de Comunicação Social da UERJ.

 

Antes de produzir sons, é preciso aprender a ouvir

 

Battistini começou a oficina chamando atenção para o predomínio da imagem na maneira como pensamos o som. Filmes, séries, videoclipes e jogos habituaram o público a relacionar imediatamente aquilo que ouve a alguma referência visual. Em uma produção apenas sonora, entretanto, é o áudio que precisa oferecer ao ouvinte as informações necessárias para imaginar personagens, ambientes e ações.

 

Por isso, uma das competências fundamentais do profissional de áudio é a escuta ativa: a capacidade de identificar os sons presentes em um ambiente, reconhecer suas características e compreender como eles se comportam.

 

— A diferença de um bom profissional de áudio é que ele consegue definir o que está ouvindo e explicar o que quer — afirmou Battistini.

 

Para exercitar essa habilidade, ele sugeriu que os participantes interrompessem suas atividades por cerca de 30 segundos em diferentes momentos do dia e anotassem tudo o que conseguissem ouvir. O exercício pode começar com identificações simples, como um cachorro, uma geladeira ou o ventilador do computador. Aos poucos, porém, é possível acrescentar informações: de que direção vem o ruído, qual é sua intensidade, se está próximo ou distante, se atravessa uma parede e que tipo de emoção um latido parece expressar.

 

A comparação das anotações feitas por pessoas presentes no mesmo lugar também pode revelar diferenças. Em uma lanchonete, alguém talvez preste mais atenção ao burburinho das conversas, enquanto outra pessoa percebe o som da grelha, dos passos ou da porta de uma vitrine de salgados.

 

— As pessoas têm experiências diferentes. Cada uma escuta o mundo à sua forma — observou.

 

Essas referências formam o que Battistini chama de “bagagem sonora”: uma biblioteca mental acionada quando é necessário imaginar como uma roupa, uma criatura, um veículo ou um espaço deve soar.

 

Quando uma grelha se transforma em caminhão

 

O foley consiste na gravação e recriação de sons associados às ações de personagens e à interação com objetos e ambientes. Passos, roupas em movimento, portas, gavetas e utensílios manipulados são alguns dos exemplos mais frequentes.

 

Battistini recordou uma de suas primeiras experiências profissionais na área, durante a produção do docudrama Nascidos para Cantar, sobre a trajetória de Chitãozinho e Xororó. A equipe precisava reconstruir o som de um caminhão antigo chegando a uma fazenda. Além do ruído do motor, era necessário dar identidade à carroceria desgastada do veículo.

 

Um artista de foley mais experiente entrou no estúdio com uma grelha velha de churrasqueira, pedaços de papelão e correntes. Os objetos foram sacudidos, pressionados e combinados até que suas diferentes texturas produzissem o resultado desejado.

 

— No final, a gente deu o play e falou: “Cara, é um caminhão”. Mas eu olhava para o estúdio e tinha uma grelha de churrasqueira e papelão. É um exercício maravilhoso de criatividade — contou.

 

O mesmo princípio permite representar uma roupa de bombeiro sem possuir o uniforme verdadeiro. Uma jaqueta pesada pode fornecer o movimento do tecido; zíperes, pequenos objetos metálicos e mosquetões acrescentam os detalhes das presilhas e equipamentos. Separadamente, nenhum desses elementos precisa soar exatamente como o resultado final. É a combinação entre eles que constrói a ilusão.

 

O sound design trabalha em um campo próximo, mas envolve de maneira mais direta a criação e a manipulação dos sons. Alterações de altura, duração, reverberação e intensidade, além da combinação de diversas camadas, permitem criar desde dispositivos tecnológicos até criaturas e ambientes inexistentes.

 

Battistini também diferenciou essas etapas da edição e da mixagem. Na edição, o profissional limpa, organiza e sincroniza o material. A mixagem equilibra vozes, trilhas, ambientes e efeitos, acrescenta processamentos e prepara o áudio para o meio em que será veiculado.

 

O som não apenas ilustra: ele participa da narrativa

 

Durante a oficina, o coordenador do Lunar, professor Andriolli Costa, questionou como evitar que a sonoplastia se torne redundante. Se o narrador informa que uma personagem abriu a porta, seria necessário reproduzir também o ruído da porta?

 

Para Battistini, a resposta depende do roteiro e da linguagem adotada pela produção. O efeito pode ser inserido simultaneamente à narração, aparecer antes da descrição ou até substituir uma explicação verbal. Um personagem procurando o celular, por exemplo, pode ser representado pelo movimento das mãos nos bolsos, pelo farfalhar da roupa e pelo som de desbloqueio do aparelho, sem precisar anunciar o que está fazendo.

 

A escolha exige confiança na capacidade do som de comunicar, mas também precisa ser testada. Battistini recomendou apresentar a cena a outra pessoa sem explicar previamente o que deveria estar acontecendo.

 

— Assim como existe o leitor beta, pode existir o ouvinte beta — resumiu Costa.

 

Se a pessoa compreender a ação, a construção provavelmente oferece os elementos necessários. Ainda assim, a imagem formada por cada ouvinte será diferente. Para Battistini, essa é justamente uma das características mais atraentes das narrativas exclusivamente sonoras: uma mesma cena pode produzir dezenas de visualizações mentais.

 

Nem todos os momentos precisam ser preenchidos. Ao responder a uma pergunta sobre a ausência de efeitos em determinado trecho, o ministrante destacou que o silêncio também pode produzir sentido.

 

— O silêncio pode ser uma linguagem. Pode ser um tempo de respiro ou ser utilizado como técnica — explicou.

 

Depois de uma sequência intensa, a redução da trilha e dos efeitos pode aumentar o impacto do próximo som. Em outros casos, um ambiente discreto, uma respiração ou o ruído de um aparelho hospitalar são suficientes para sustentar a tensão sem sobrecarregar a cena.

 

Entre a fidelidade e o efeito dramático

 

Outro debate tratou da fidelidade dos efeitos. Costa apresentou o exemplo de uma cena com uma onça: seria melhor utilizar o esturro real do animal ou substituí-lo por um rugido mais reconhecível e dramaticamente impactante?

 

Battistini afirmou preferir sons mais próximos da realidade, sobretudo quando representam animais, objetos ou ambientes existentes. Ele contou que, ao sonorizar uma produção ambientada no Cerrado, incluiu o canto de uma ave que não habitava aquela região. O diretor percebeu a incompatibilidade, e a equipe precisou localizar e retirar o efeito.

 

— Eu gosto dessa atenção ao detalhe. Acho que os ouvintes e espectadores deveriam se importar mais com a qualidade e, por consequência, com aquilo que é natural e orgânico — defendeu.

 

A decisão, entretanto, também depende da proposta da obra. Em uma produção infantil com um boto-cor-de-rosa, a equipe descobriu que a vocalização real do animal não correspondia ao som suave que imaginava. Em vez de substituí-la pelo canto de um golfinho, optou por manter apenas o mergulho.

 

Como construir uma sonoridade brasileira

 

A identidade dos audiodramas nacionais apareceu em uma pergunta do participante Felipe Ivanicska. Para Battistini, a construção de uma linguagem brasileira depende menos de uma fórmula sonora e mais da disposição para contar histórias situadas no país.

 

Quando o roteiro parte de personagens, espaços e experiências brasileiras, a sonoplastia acompanha esse caminho. O motor pode pertencer a um modelo de carro comum nas ruas do Brasil; o cachorro pode soar como um vira-lata caramelo; e a trilha pode dialogar com ritmos relacionados ao universo da narrativa.

 

Battistini citou o audiodrama Imaginário: onde o folclore vive, trabalho realizado durante sua formação universitária e que esteve na origem do podcast O Contador de Histórias. Como a produção abordava o folclore brasileiro, sua abertura recebeu uma composição chamada “Baião de Ará”.

 

— Se o roteiro e a idealização forem pensados nessa brasilidade, os outros elementos da produção vão seguir na mesma direção — explicou.

 

O projeto também marcou o início do contato entre Battistini e Andriolli Costa. Posteriormente, o profissional criou a identidade sonora do podcast Poranduba, incluindo a vinheta de abertura e a vírgula sonora utilizadas pelo programa desde 2018.

 

Produzir com as ferramentas disponíveis

 

A oficina também apresentou opções de programas, equipamentos e bancos de efeitos para diferentes níveis de experiência. Battistini indicou o Audacity como alternativa gratuita e de interface mais simples para iniciantes. O Reaper oferece recursos mais próximos de um ambiente profissional e uma licença de custo mais acessível, enquanto Pro Tools e Adobe Audition estão entre os programas encontrados com frequência no mercado.

 

Mais importante que escolher imediatamente o software mais sofisticado, segundo ele, é compreender o resultado que se pretende alcançar.

 

— A forma como você pensa o som será a mesma. O que muda é como cada ferramenta pode agilizar o seu trabalho — explicou.

 

Battistini também recomendou a pesquisa de plugins gratuitos e o uso de plataformas como o Freesound, que reúne efeitos compartilhados pela comunidade. Antes de utilizar qualquer arquivo, porém, o produtor deve verificar as condições da licença Creative Commons: alguns materiais exigem crédito, proíbem modificações ou não permitem uso comercial.

 

Outro cuidado é a organização do acervo. Cada gravação deve receber um nome que facilite sua localização, com informações como objeto, superfície, velocidade ou intensidade. Battistini contou que já acumulou tantos arquivos sem identificação adequada que, em determinadas situações, era mais rápido adquirir outro banco de sons do que procurar uma gravação própria.

 

Da teoria à sonorização de cenas

 

Na parte prática, os participantes receberam três trechos de vídeo sem áudio, extraídos de Interestelar, John Wick e do curta de animação Bear Story, além de três páginas de histórias em quadrinhos.

 

A proposta era escolher uma das cenas e imaginar sua paisagem sonora. Os participantes poderiam gravar efeitos com o celular ou outro equipamento disponível, utilizar bancos de sons e experimentar a combinação entre diferentes camadas. Quem ainda não dominava programas de edição não precisava sincronizar todo o material: poderia apenas criar e organizar os efeitos isoladamente.

 

Os exercícios poderiam ser enviados posteriormente para uma pasta compartilhada, acompanhados dos contatos dos participantes. Battistini se comprometeu a ouvir os materiais e oferecer uma devolutiva sobre as escolhas realizadas.

 

Formado em Produção Musical e Rádio e TV, Danilo Battistini atua como sound designer, artista de foley, produtor de áudio e engenheiro de mixagem. Passou por estúdios como Ultra-Sônica, Input e Mdois e, na época da oficina, trabalhava como supervisor técnico de pós-produção do estúdio de dublagem Centauro.

 

Entre seus trabalhos estão a mixagem de versões dubladas de filmes como Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, e Meu Amigo Hindu, de Hector Babenco, além de projetos para Riot Games, Garena, Audible e Pokémon. Battistini também criou efeitos para produções dubladas destinadas à Netflix, Fox, Globo, Amazon, BBC e TNT e é responsável pelo podcast O Contador de Histórias, no qual cada episódio apresenta um audiodrama diferente.

 

A oficina integrou as ações de formação do Lunar, projeto de extensão da UERJ criado e coordenado pelo professor Andriolli Costa. O laboratório atua na capacitação de produtores, na pesquisa sobre podcasts narrativos e na experimentação de formatos sonoros.

 

A gravação completa da oficina está disponível no YouTube. Para conhecer as demais atividades e produções do Lunar, acesse www.podcastnarrativo.com.br e acompanhe o perfil @podcastnarrativo no Instagram.

 
 
 

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