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Por que narrar? Vozes em Órbita debate podcast como autoria, memória e escuta

14 de ago.
8 min de leitura

Mesa de abertura reuniu Andriolli Costa e Aline Hack para discutir as origens da podosfera, a responsabilidade de quem produz e a força da narrativa diante da lógica do acúmulo e dos algoritmos



O podcast é apenas um formato de distribuição de conteúdo ou uma mídia com linguagens, gêneros e formas próprias de produzir conhecimento? E o que significa narrar em um ambiente dominado pela velocidade, pelos algoritmos e pela circulação incessante de informações?


Essas questões orientaram a mesa “Por que narrar?”, que abriu a programação do Vozes em Órbita – I Encontro Nacional de Podcasts Narrativos. Realizada em 29 de setembro de 2025, na UERJ, a atividade reuniu Andriolli Costa, coordenador do Lunar, e Aline Hack, pesquisadora da Universidade de São Paulo e criadora do Olhares Podcast.


As apresentações percorreram as origens do podcast no Brasil, as relações entre narrativa e conhecimento, a formação de comunidades de ouvintes e a escuta como prática de afeto e responsabilidade.


Um mito de origem para a podosfera brasileira

Andriolli iniciou sua apresentação com o que chamou de “mito de origem” do podcast brasileiro. O ponto de partida foi o Digital Minds, lançado por Danilo Medeiros em 21 de outubro de 2004 e considerado o primeiro podcast produzido no país.


Chamá-lo de mito de origem não significa negar sua importância histórica, mas reconhecer que dificilmente seria possível comprovar que nenhuma outra experiência em áudio distribuído por RSS aconteceu antes e desapareceu da internet. Mais importante do que fixar uma origem absoluta seria identificar os valores associados a esse início.

No primeiro episódio, Danilo Medeiros apresentou a nova mídia, explicou os equipamentos e programas necessários e ensinou outras pessoas a produzirem seus próprios podcasts.


A iniciativa já carregava características que continuariam presentes na podosfera: liberdade de linguagem, autonomia diante das empresas tradicionais de comunicação, circulação sob demanda e estímulo para que ouvintes também se tornassem produtores.

Para Andriolli, essas características ajudam a compreender o podcast como uma mídia baseada em liberdade, conexão, pertencimento, autoria e intimidade.


“Não é porque hoje as pessoas consomem mais podcasts em vídeo ou têm a impressão de que podcast é vídeo que devemos deixar de lado a estrutura de seu surgimento”, argumentou.


Antes do rádio, existe a oralidade

Ao recuperar sua própria trajetória como produtor, Andriolli contou que seu primeiro podcast narrativo, Populário, foi lançado em 2016. A aproximação com o áudio não veio de uma relação de infância com o rádio, mas do interesse pela oralidade e pela contação de histórias.


A experiência o levou a questionar abordagens que estudam o podcast somente como uma extensão do rádio. Embora os estudos radiofônicos ofereçam referências fundamentais, eles não dão conta de todas as especificidades de uma mídia criada em outro contexto tecnológico e cultural.


“Para mim, é equivocado pensar o podcast sem pensar antes o que é narrar, o que é se expressar oralmente e como podemos encontrar nesse movimento de autoexpressão um caminho de interiorização”, explicou.


O podcast favorece essa interiorização porque aproxima a voz do corpo do ouvinte, especialmente por meio dos fones. Também provoca um processo particular para quem produz. Roteiristas, apresentadores e editores escutam repetidamente a própria voz e as vozes das outras pessoas enquanto montam um episódio.


Essa artesania exige atenção ao que foi dito, ao que será preservado e ao que será retirado. Produzir não é apenas falar diante de um microfone, mas escutar, selecionar e organizar.


Narrar é construir um cosmos

Para discutir o papel da narrativa, Andriolli recorreu à pesquisadora Cremilda Medina e à ideia de que narrar significa construir um cosmos diante do caos. A palavra “cosmos”, nesse sentido, representa ordem e organização.


Diante de uma realidade composta por acontecimentos, informações e experiências dispersas, quem narra seleciona elementos, estabelece relações, cria hierarquias e propõe um sentido possível.


Narrar, portanto, é diferente de simplesmente acumular informações. A informação pode seguir uma lógica de produção incessante de dados, enquanto a narrativa depende de escolha, corte e elaboração.


Essa distinção também altera nossa relação com o tempo. A pressão por produtividade e velocidade reduz o espaço disponível para pesquisar, refletir e aprofundar. A narrativa, por outro lado, permite articular passado, presente e futuro, preservar experiências e fazer com que elas sejam novamente interpretadas por outras pessoas.


“O acúmulo segue a lógica do capital. Narrar é selecionar, cortar e construir uma possibilidade de superar o tempo”, afirmou.


Podcast não é formato

Um dos pontos centrais da apresentação foi a defesa de que podcast não deve ser entendido como um formato.


“Podcast não é formato. Podcast é uma mídia. Se não conseguimos entender o podcast como mídia, não percebemos toda a potência que ele carrega: a possibilidade de reunir vários formatos e gêneros. Narrativo, inclusive, é um gênero”, explicou Andriolli.

A distinção permite reconhecer que entrevistas, reportagens, documentários, ficções, conversas e produções experimentais podem circular pela mesma mídia sem pertencer ao mesmo formato.


Também possibilita estudar o podcast por suas próprias características, sem tentar enquadrá-lo integralmente em teorias construídas para o rádio. Andriolli comparou esse movimento à busca dos estudos de quadrinhos por autonomia em relação às teorias da literatura.


Isso não significa abandonar contribuições anteriores, mas desenvolver perguntas capazes de revelar aquilo que existe de específico no podcast: sua circulação sob demanda, o vínculo entre produtores e ouvintes, a intimidade da escuta e a facilidade com que alguém pode passar da recepção à produção.


O que é a podosfera?

Partindo dessas características, Andriolli propôs uma definição de podosfera inspirada na ideia de noosfera, desenvolvida por Pierre Teilhard de Chardin para pensar o conjunto do conhecimento produzido e compartilhado pela humanidade.


A podosfera seria “a totalidade da informação e do conhecimento humano produzidos e coletivamente disponíveis por meio da mídia podcast, partilhados a partir dos processos afetivos envolvidos em sua produção e recepção”.


A definição inclui não apenas os conteúdos publicados, mas as relações construídas entre quem produz e quem escuta. O ouvinte pode colaborar financeiramente, recomendar episódios, participar de comunidades ou decidir criar seu próprio programa.

Reconhecer essa dimensão coletiva também impõe uma responsabilidade. Se os podcasts participam da construção do conhecimento disponível socialmente, produtores precisam refletir sobre aquilo que colocam em circulação.


“Quando temos noção dessa dimensão, entendemos que não estamos produzindo apenas para nós. Estamos construindo coletivamente uma comunidade e uma esfera de conhecimento que circula pelo podcast”, ressaltou.


Quem está disposto a escutar?

Na segunda apresentação, Aline Hack retomou a discussão sobre intimidade e afeto a partir de sua experiência com o Olhares Podcast, programa feminista produzido entre 2017 e 2023.


Jornalista e advogada, Aline é mestra em Direitos Humanos e doutoranda em Meios e Processos Audiovisuais pela USP. Sua trajetória profissional e acadêmica está ligada a temas como igualdade de gênero, justiça social, direitos humanos e ativismo digital.


O Olhares nasceu com a proposta de criar um espaço no qual mulheres pudessem falar sobre feminismo, movimentos sociais e direitos humanos a partir das próprias experiências. “Nós, mulheres, sabemos falar e sabemos falar muito bem. A questão é: quem está realmente disposto a escutar?”, provocou.


Para Aline, garantir espaço de fala não é suficiente quando não existe uma escuta atenta, afetiva e genuinamente interessada em compreender o que está sendo dito.

“Escutar é difícil. É tão difícil que pagamos uma pessoa para nos escutar, que é o psicólogo ou a psicóloga”, brincou.


A entrevista começa antes da pergunta

Uma das decisões editoriais do Olhares era evitar cortes nas falas das entrevistadas. A proposta criava desafios narrativos, pois as entrevistas precisavam ser conduzidas de maneira que o episódio permanecesse compreensível sem depender de uma edição excessiva.


A escolha ganhou maior significado quando Aline entrevistou um grupo de mulheres que participava de uma manifestação. Antes da conversa, elas perguntaram se suas declarações seriam cortadas. Disseram que evitavam conceder entrevistas porque suas palavras eram frequentemente distorcidas. Aline percebeu que, para aquelas fontes, preservar a continuidade da fala também significava construir confiança.


Embora não defenda que todo podcast narrativo deixe de editar entrevistas, a pesquisadora propõe que produtores reflitam sobre os critérios empregados. “O que você vai selecionar para contar uma história? Em qual contexto vai inserir aquela fala? O ato de entrevistar é um ato de escuta prévia. Eu fui a primeira ouvinte antes dos meus ouvintes”, afirmou.


Editar continua sendo necessário, mas cada corte interfere na maneira como uma pessoa, uma comunidade ou uma experiência será apresentada ao público.


Podcast como arquivo de memória

A capacidade de permanecer disponível por meses ou anos transforma o podcast em um arquivo. Diferentemente de conteúdos que desaparecem rapidamente do interesse do público e da circulação algorítmica, episódios antigos podem continuar sendo encontrados e escutados.


Essa “cauda longa” permite que uma história seja descoberta muito tempo depois de sua publicação e adquira novos sentidos em outros contextos.

“O podcast é um arquivo de memória e de preservação. Um episódio pode ser descoberto daqui a meses ou anos e continuar relevante. Ele gera reflexão, transformação e continuidade”, afirmou Aline.


No caso do Olhares, o conjunto de episódios forma uma base de vozes femininas, memórias de movimentos sociais e experiências relacionadas às lutas por direitos.

O caráter de permanência levou Aline a transformar o podcast em objeto de pesquisa acadêmica. Para ela, produções sonoras não devem ser tratadas apenas como dados. Elas reúnem vozes, trajetórias, dores e expectativas que exigem cuidado também de quem pesquisa.


Narrativas que alteram perspectivas

Aline destacou que podcasts como Rio Memórias, Samba das Pretas, Copa em Preto, Presidente da Semana, Pavulagem, Caatingueira, Praia dos Ossos, Faxina e Corpo Especulado não apenas contam histórias: eles revisitam acontecimentos e experiências a partir de novos pontos de vista.


Muitas dessas narrativas foram silenciadas, distorcidas ou ignoradas pelos meios tradicionais devido ao racismo, ao machismo, à xenofobia e à falta de acesso aos espaços de produção midiática.


“O podcast aparece como uma possibilidade de quebrar esse ciclo, oferecendo ritmo próprio e um espaço para contar e preservar narrativas que antes permaneciam invisíveis”, observou.


Produzir esses conteúdos exige mais do que domínio técnico. Quem trabalha com memórias, violências e experiências pessoais precisa desenvolver sensibilidade diante das pessoas envolvidas.


“Não existe narrativa potente sem sensibilidade. Quando narramos histórias, lidamos com memórias, dores e esperanças. É por isso que produzir e pesquisar podcasts também exige afeto.”


Desinformação e responsabilidade

Durante o debate, a antropóloga e pesquisadora Irene Chemim questionou como os produtores poderiam enfrentar a circulação de desinformação e preconceitos em podcasts.


Aline reconheceu que se trata de uma disputa desigual, já que conteúdos falsos frequentemente contam com recursos financeiros para impulsionamento. Como caminhos possíveis, sugeriu a formação de redes de divulgação e o fortalecimento de iniciativas de checagem dedicadas especificamente ao áudio.


Andriolli acrescentou que o primeiro passo é assumir o lugar de autoria. Se narrar significa construir um cosmos, cada produtor precisa refletir sobre qual mundo deseja ajudar a construir.


“Às vezes será trabalhoso, você não terá apoio nem recursos, mas existe um desejo de agir por esse outro mundo. Se a gente não fizer, quem vai fazer?”, questionou.

Diante do acúmulo, a narrativa

Outra pergunta abordou o futuro dos podcasts narrativos diante do crescimento dos mesacasts e videocasts, frequentemente organizados em torno de conversas longas que alimentam dezenas de cortes para as redes sociais.


Andriolli relacionou esse modelo à lógica do acúmulo: horas de gravação são convertidas em fragmentos destinados a circular rapidamente, muitas vezes separados do contexto original.


Produções narrativas dificilmente conseguem competir em quantidade e velocidade com estruturas empresariais dedicadas a esse modelo. Seu diferencial está justamente naquilo que o acúmulo não oferece: seleção, autoria, criação, profundidade e inovação.

“Não conseguimos vencer acúmulo com acúmulo, nem velocidade com velocidade. A resposta é a narrativa”, sintetizou.


Como resumiu Aline Hack ao encerrar sua apresentação: “Todo podcast e toda pesquisa começam com a escuta. E escutar é um ato de afeto”. Narrar também.

 
 
 

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