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Quando o repórter vira personagem: Lunar debate intimidade e autoria em StartUp

15 de ago.
5 min de leitura

Reunião do laboratório analisou como Alex Blumberg transforma erros, dúvidas e conversas conjugais em narrativa e discutiu os limites da intervenção do narrador sobre as vozes das fontes



Quando lançou StartUp, em 2014, o jornalista Alex Blumberg não se limitou a contar a criação de uma empresa de podcasts. Ele transformou o próprio fracasso, suas inseguranças e até conversas com a esposa em matéria-prima narrativa. A decisão de colocar o repórter no centro da história orientou a discussão realizada pelo Lunar em sua reunião de 17 de novembro.


O encontro reuniu integrantes e colaboradores do laboratório para ouvir e debater o primeiro episódio de StartUp, intitulado How Not to Pitch a Billionaire. A conversa também teve como referência o artigo Personal narrative journalism and podcasting, da pesquisadora Mia Lindgren, que investiga a relação entre podcasting, intimidade e jornalismo narrativo pessoal.


Como não apresentar uma ideia a um bilionário

No primeiro episódio, Blumberg tenta apresentar a investidores sua ideia de criar uma empresa dedicada a podcasts narrativos. Apesar da experiência como produtor de This American Life e cocriador de Planet Money, ele não consegue explicar com clareza o modelo de negócio.


A situação se torna especialmente constrangedora durante uma conversa com o investidor Chris Sacca. Diante de uma apresentação longa e pouco convincente, Sacca interrompe o jornalista e demonstra como ele deveria vender a própria ideia. Blumberg mantém o fracasso no episódio e permite que o público acompanhe tanto a tentativa malsucedida quanto sua reação ao perceber que ainda não sabia falar sobre a empresa que desejava criar.


A escuta provocou respostas diferentes entre os participantes. Bruna Sebollela observou que o episódio apresenta uma sonoridade mais crua, com pouca música e menos recursos para produzir tensão. Gisele Sobrinho contou que, inicialmente, associou o discurso sobre empreendedorismo a uma conversa motivacional, mas passou a se envolver quando o relato ganhou um tom mais pessoal.


“Depois, pareceu um amigo contando sobre um projeto novo. Isso me aproximou da história”, avaliou Gisele. A experiência profissional com apresentações de projetos também fez com que ela reconhecesse a importância de conseguir formular uma proposta de maneira concisa.


O episódio não esconde os silêncios, as hesitações e as explicações confusas. Para o coordenador do Lunar, Andriolli Costa, é justamente essa exposição que sustenta parte da força narrativa de StartUp.


“Quando ele se coloca em perspectiva, com seus erros e suas dúvidas, o ouvinte acompanha os bastidores de algo muito próximo de qualquer pessoa que queira realizar um sonho”, afirmou.


A empresa se transforma em história

A empresa que Blumberg tentava criar viria a se tornar a Gimlet Media, fundada com Matthew Lieber. Anos depois, em 2019, a produtora foi adquirida pelo Spotify. Antes disso, porém, sua criação foi acompanhada quase em tempo real pelos ouvintes.

Em vez de apresentar apenas decisões concluídas, StartUp registra negociações, impasses, erros de cálculo e mudanças de rumo. O processo empresarial deixa de ser apenas o tema e passa a funcionar como uma história seriada, atravessada pelas consequências pessoais de cada escolha.


Um dos conflitos discutidos na reunião aparece quando um investidor sugere que Blumberg abandone a ideia de uma produtora de narrativas sonoras e desenvolva uma plataforma tecnológica para podcasts. A proposta poderia gerar mais dinheiro, mas afastaria o jornalista do projeto que desejava realizar. A decisão é elaborada também em conversas com sua esposa, registradas em momentos de intimidade do casal.

“Ele grava conversa de travesseiro, registra as próprias dúvidas e pergunta para a esposa o que deveria fazer. A relação conjugal entra na narrativa porque é ali que parte da decisão está sendo construída”, explicou Andriolli.


Ao incluir essas cenas, Blumberg não apresenta o empreendedor como alguém que possui respostas prontas. Ele constrói um personagem vulnerável, dividido entre as possibilidades do mercado e o desejo de produzir histórias.


Por que o podcast parece tão íntimo?

No artigo discutido pelo grupo, Mia Lindgren relaciona o crescimento das narrativas pessoais à intimidade característica da escuta sonora. O podcast prolonga a tradição de companhia associada ao rádio, mas intensifica essa sensação por meio de uma escuta frequentemente individual, realizada com fones de ouvido.


A linguagem também guarda relações com os primeiros blogs e audioblogs, espaços nos quais a publicação estava ligada à expressão pessoal e ao compartilhamento do cotidiano. Para Lindgren, o jornalismo narrativo pessoal permite incorporar emoções, experiências domésticas e aspectos da vida interior que durante muito tempo foram afastados das convenções jornalísticas.


A reunião discutiu como uma experiência individual pode adquirir sentido coletivo quando é organizada em torno de símbolos compartilháveis. Como exemplo, Andriolli mencionou um podcast em formato de carta desenvolvido por Bruna durante uma oficina do Lunar. Na produção, uma coleção de camisas do Botafogo funciona como caminho para falar sobre a relação com o irmão.


“A questão é descobrir o que existe na sua vida que você quer comunicar. Os objetos e os símbolos ajudam a transformar uma emoção particular em algo que outra pessoa também consegue compreender”, explicou.


A intimidade, portanto, não decorre apenas da revelação de informações privadas. Ela depende da maneira como essas experiências são narradas e relacionadas a sentimentos reconhecíveis pelo público. O podcast também recupera elementos da contação oral, aproximando o ouvinte de uma situação em que alguém compartilha uma história diretamente com um grupo.


Quando o narrador fala demais

A presença do narrador, contudo, não está livre de riscos. O artigo de Lindgren chama atenção para produções altamente editadas, nas quais as falas das fontes aparecem em trechos muito curtos, cercadas por explicações e interpretações do apresentador.

Nesses casos, o ouvinte recebe uma narrativa clara e organizada, mas dispõe de pouco espaço para formular uma leitura própria sobre as pessoas entrevistadas. As vozes das fontes podem acabar utilizadas apenas como confirmação da tese construída pelo narrador.


“Quando narramos, organizamos. O risco é sermos tomados pelo desejo de organização e usar as fontes apenas para sublinhar nosso próprio argumento”, advertiu Andriolli. “Mais clareza não significa necessariamente mais informação. Para que tudo fique claro, também fazemos cortes e reduzimos perspectivas.”


Bruna relacionou essa intervenção excessiva a uma desconfiança na capacidade do público. “Às vezes parece que estamos explicando tudo passo a passo, como se o ouvinte não conseguisse concatenar as ideias”, observou.


O grupo também identificou uma fórmula recorrente em podcasts narrativos: o apresentador anuncia o que será dito, reproduz a fala da fonte e, em seguida, repete sua interpretação. Embora a redundância possa ajudar a orientar a escuta, seu uso constante diminui a participação intelectual do ouvinte e torna a narrativa previsível.


Da intimidade à comunidade

A aproximação entre narrador e público não termina quando o episódio acaba. Ao acompanhar uma voz durante vários capítulos, o ouvinte pode desenvolver vínculos com apresentadores e personagens, manter fidelidade a determinados profissionais e até mudar sua percepção sobre pessoas que já conhece.


Durante a reunião, os participantes lembraram situações em que ouvintes continuam acompanhando apresentadores mesmo após mudanças de programa ou veículo. Andriolli também relatou ter recebido recentemente uma mensagem de alguém que voltou a escutar episódios antigos do Poranduba e procurava outras pessoas com quem conversar sobre o conteúdo.


Para o coordenador, esse tipo de procura mostra que a intimidade narrativa pode gerar uma vontade de comunidade. Quando um programa está ativo, essa troca costuma acontecer em grupos, comentários e interações nas redes. Quando a produção termina, o desejo de conversar sobre as histórias permanece, mas nem sempre encontra um espaço estruturado.


A discussão mostrou que transformar o repórter em personagem não significa simplesmente produzir um diário pessoal. Em StartUp, as experiências particulares de Blumberg são selecionadas e organizadas para construir conflitos capazes de envolver outras pessoas. A vulnerabilidade aumenta a proximidade, mas também amplia a responsabilidade editorial de quem conduz a história.


Ao abrir espaço para emoções, dúvidas e experiências cotidianas, o jornalismo narrativo pessoal pode revelar aspectos normalmente ausentes das reportagens. Ao mesmo tempo, precisa preservar a complexidade das fontes e confiar que o público é capaz de interpretar o que escuta.


A reunião também marcou a chegada da estudante Sabrina Massuia como voluntária do Lunar e incluiu informes sobre oficinas, projetos sonoros e produções em andamento no laboratório.

 
 
 

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