“Quanto mais você soa como você mesmo, menos aterrorizante fica”. Natália Silva mostra como encontrar a própria voz em oficina do Lunar
- Andriolli Costa
- 12 de ago.
- 8 min de leitura
Produtora da Rádio Novelo defendeu uma narração próxima da conversa, sem neutralização de sotaques, e dirigiu textos dos participantes ao vivo
Falar como se houvesse uma única pessoa do outro lado do microfone, respeitar o próprio sotaque e escrever com palavras que realmente seriam usadas em uma conversa. Esses foram alguns dos princípios apresentados pela jornalista Natália Silva na oficina de direção de locução promovida pelo Lunar, o Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ.
Realizada virtualmente em 21 de maio de 2024, a atividade reuniu estudantes, jornalistas e produtores de podcasts de diferentes regiões do país. Ao longo de mais de duas horas, Natália comparou gravações produzidas em diferentes momentos de sua carreira, compartilhou técnicas desenvolvidas na Rádio Novelo e dirigiu a locução de textos apresentados pelos participantes.
Na abertura, o coordenador do Lunar, professor Andriolli Costa, explicou que a escolha do tema partiu de uma dificuldade recorrente entre estudantes: encontrar uma voz autoral que se manifeste tanto na escrita quanto na narração.
— No podcast, o que mais sinto nos nossos alunos é essa dificuldade de achar sua voz autoral, não apenas no texto escrito, mas também na locução — afirmou.
Soar como a gente mesmo
Natália deixou claro que a proposta não era oferecer uma lista de regras nem ensinar uma suposta “voz correta” para podcasts. O objetivo era ampliar a consciência dos participantes sobre ritmo, intensidade, entonação e as sensações transmitidas pela voz.
— Quero que vocês soem exatamente como soam na vida real, mas melhor e de forma mais controlada — resumiu.
Essa busca não passa pela neutralização dos sotaques. Natália contou que seu “r” se tornou mais marcado durante a adolescência em Santo André e em outros momentos de sua vida. Em vez de escondê-lo para se aproximar de um padrão de locução, ela aprendeu a incorporá-lo à própria identidade.
A jornalista abriu a apresentação com uma gravação realizada em 2019, quando começava a trabalhar profissionalmente com podcasts. Depois, reproduziu uma nova versão do mesmo texto, gravada especialmente para a oficina.
Na primeira, sua voz aparecia mais aguda, tensa e projetada. Natália recordou que estava insegura, com a garganta contraída e falando mais alto do que o necessário. A versão recente era mais grave, pausada e próxima de sua maneira cotidiana de conversar.
A comparação também mostrou que naturalidade não significa ausência de direção. Em uma segunda experiência, os participantes perceberam que uma leitura mais recente havia se tornado calma demais e perdido parte da energia exigida pelo texto. Encontrar a própria voz, portanto, não é adotar sempre o mesmo tom, mas aprender a modulá-lo de acordo com cada narrativa.
Uma conversa na mesa de jantar
Para Natália, a locução de um podcast não deve reproduzir automaticamente a voz usada em um palco, em uma sala de aula ou em um radiojornal. Cada situação estabelece uma relação diferente com quem escuta.
Sua principal referência é uma conversa com uma única pessoa sentada à mesa de jantar. Essa imagem modifica o volume, a postura corporal e o modo de se dirigir ao ouvinte.
— Eu sempre penso que estou falando com uma pessoa só. Não estou falando com uma plateia. Não estou fazendo rádio. São coisas diferentes — explicou.
A aproximação permanece importante mesmo quando a gravação ocorre em condições pouco confortáveis. Natália mostrou fotografias de momentos em que precisou narrar dentro do armário de um hotel, em um estúdio onde conseguia se movimentar e durante a madrugada, enquanto alguém roncava no quarto ao lado.
Independentemente do espaço, o desafio era se transportar mentalmente para uma situação íntima: há um microfone e um texto diante da narradora, mas também existe um ser humano do outro lado.
Para reduzir a tensão, Natália costuma relaxar o corpo, massagear a mandíbula, beber água e realizar exercícios de articulação antes de gravar. A dor ou o cansaço excessivo na garganta podem indicar que a pessoa está forçando uma voz que não conseguirá sustentar durante uma produção mais longa.
O ritmo orienta o ouvinte
A maneira de narrar também precisa dialogar com as entrevistas, a trilha e os demais elementos que compõem o episódio. Natália apresentou um trecho do Rádio Novelo Apresenta sobre Mazin, um dublador cuja vida mudou depois de cortar o cabelo.
Como o entrevistado narrava a experiência de maneira acelerada, a locução escolhida acompanhava sua energia. Natália havia gravado também uma versão mais lenta, mas percebeu durante a montagem que ela rompia o fluxo da cena.
— Você não tem que pensar somente em você, mas também em com quem a sua narração vai combinar — orientou.
O ritmo pode ainda revelar a hierarquia das informações. Uma contextualização que parte dos ouvintes já conhece pode ser apresentada rapidamente. A entrada de um novo personagem ou um acontecimento decisivo, por outro lado, pode exigir mais tempo, pausas e ênfase.
— Se tudo for importante, nada é importante — alertou.
No texto impresso, o leitor controla a velocidade, volta a uma frase e observa visualmente a extensão dos parágrafos. No áudio, esse poder é transferido para quem narra. Cabe à voz indicar onde uma ideia começa, quando termina e que informação precisa ser guardada.
— O áudio é muito democrático, muito legal e muito cruel ao mesmo tempo. Se a pessoa se perdeu em um nome que você falou, pode perder tudo o que vem dali para a frente — destacou.
Escrever com a boca, não apenas com os dedos
Parte dos problemas percebidos na locução, segundo Natália, começa no roteiro. Um texto construído com a lógica da página pode conter frases longas, apostos, palavras pouco usadas em conversas e informações demais entre dois pontos finais.
Sempre que possível, ela testa oralmente uma frase antes de escrevê-la. O procedimento ajuda a evitar construções que parecem adequadas na tela, mas se tornam artificiais quando pronunciadas.
— Se você escreve primeiro, seus dedos colocam um “mas”, um “pelo menos”, um “portanto”. Os seus dedos falam, mas a sua boca não fala — exemplificou.
Quem prefere começar pela escrita pode fazer o caminho inverso: produzir a primeira versão, lê-la em voz alta, identificar excessos e reescrever. Natália sugeriu três movimentos sucessivos: retirar o que está sobrando, localizar a informação mais importante e, por fim, trabalhar a oralidade.
Quando o roteiro será narrado por outra pessoa, é preciso conhecer seu vocabulário e sua cadência. Durante a produção do Projeto Querino, por exemplo, a equipe preservou o uso da palavra “trem” pelo jornalista mineiro Tiago Rogero. Substituí-la por “coisa” poderia produzir uma frase correta, mas menos próxima de sua maneira de falar.
Em outro trabalho, Natália assistiu repetidamente a vídeos da apresentadora para observar onde ela fazia pausas, como acelerava e que palavras costumava utilizar. O roteiro não precisava soar natural na voz da produtora, mas na de quem efetivamente o narraria.
Participantes colocam a direção em prática
A segunda parte da oficina transformou os participantes em narradores e diretores de locução. Cada voluntário apresentou um texto próprio, recebeu orientações de Natália, gravou uma nova versão e ouviu as observações dos colegas.
O professor de História Vitor compartilhou um trecho sobre Santa Dica, líder messiânica de Goiás também conhecida como Benedita Cipriano Gomes. Na primeira leitura, Natália percebeu uma voz mais aguda e próxima da projeção utilizada por ele em sala de aula.
— A sua voz de sala de aula é para uma sala de aula. Talvez ela não seja a sua voz de podcast — observou.
O texto foi dividido em unidades menores para facilitar a gravação por tomadas. Natália também sugeriu reduzir o nome da personagem depois de sua primeira apresentação, marcar visualmente as palavras que receberiam ênfase e usar pausas para separar termos com sons semelhantes.
Na segunda leitura, Vitor começou com uma voz mais grave e aumentou progressivamente a indignação ao narrar o silenciamento sofrido por Benedita. A mudança fez com que o sentido do texto aparecesse com maior clareza.
Alanda Vitória, estudante da Universidade Federal do Cariri, apresentou a abertura de um episódio sobre as dificuldades enfrentadas por jogadores de basquete em Juazeiro do Norte. Expressões como “praticantes do esporte da bola laranja”, usadas para evitar a repetição da palavra “basquete”, tornavam a leitura mais difícil.
Natália explicou que recursos valorizados na escrita nem sempre favorecem a compreensão pelo ouvido. Em determinados casos, repetir uma palavra simples funciona melhor do que recorrer a um sinônimo pouco natural. Ela também recomendou dividir visualmente os períodos para que a narradora identificasse com facilidade onde respirar e encerrar cada ideia.
Ao comentar o sotaque cearense de Alanda, a jornalista incentivou a participante a explorá-lo como parte da identidade da produção.
— Você tem um sotaque gostoso. Talvez possa brincar um pouco mais com ele e com o ritmo da sua fala — disse.
A jornalista Daniela Antunes levou um trecho do podcast Escuta Aqui, sobre o repórter José Hamilton Ribeiro. A principal orientação foi reforçar a conversa com uma pessoa específica. “Antes de contar daquele dia, preciso falar da importância do Zé para a cidade” tornou-se “Antes de te contar daquele dia, eu preciso te falar da importância do Zé para a cidade”.
A inclusão dos pronomes, frequentemente eliminados em textos escritos, aproxima a locução da fala cotidiana e estabelece com maior nitidez quem conta e quem escuta.
Lucas, integrante da equipe do Café da Manhã, da Folha de S.Paulo, apresentou um boletim sobre uma denúncia envolvendo a invasão de sistemas do Conselho Nacional de Justiça. Natália recomendou reduzir a concentração de siglas como PGR, CNJ e STF, além de retirar detalhes que poderiam ser precisos para uma reportagem escrita, mas prejudicavam a compreensão imediata no áudio.
A oficina mostrou, assim, que a direção não se limita a pedir que alguém fale mais alto, mais devagar ou com maior emoção. Ela pode exigir mudanças no roteiro, na escolha das palavras, na divisão das frases e na relação estabelecida com o ouvinte.
Errar não exige voltar ao início
Outro aprendizado prático envolveu a reação aos erros. Natália contou que, no começo da carreira, costumava acelerar imediatamente depois de tropeçar em uma palavra, como se precisasse recuperar o tempo perdido. O resultado era uma mudança perceptível de ritmo que dificultava a edição.
A recomendação é parar, respirar e retomar a partir do ponto final ou da pausa anterior. Não é necessário regravar todo o parágrafo — e muito menos o roteiro inteiro.
Em produções realizadas com equipes maiores, o texto pode ser dividido em tomadas. Depois de aprovada uma versão, o número do melhor take é marcado no roteiro, permitindo que o editor encontre diretamente o material escolhido.
Natália também procurou desfazer a impressão de que a fluidez percebida nos podcasts profissionais nasce de uma gravação perfeita. Na Rádio Novelo, roteiros e locuções passam por várias etapas de revisão. Um trecho pode chegar à quarta, à sexta ou até à décima versão antes de ir ao ar.
— A primeira coisa que sai não é boa. Existe um processo coletivo e longo para que pareça que tudo foi feito sem esforço — contou.
Respirações e pausas também fazem parte desse processo. Embora possam ser reduzidas na edição, eliminá-las completamente produz uma voz artificial. O ouvinte precisa perceber que há uma pessoa falando, e pessoas precisam respirar.
No encerramento, Natália reconheceu que editar a própria locução pode ser cansativo, especialmente para quem ainda se sente desconfortável ao ouvir a própria voz. A familiaridade, porém, aumenta com a prática.
— Quanto mais você soa como você mesmo, menos aterrorizante fica — concluiu.
Natália Silva trabalha com jornalismo em áudio desde 2019. Participou da criação do podcast Prato Cheio, do portal O Joio e O Trigo, passou pela Folha de S.Paulo, onde editou diferentes programas e integrou a produção do Café da Manhã, e foi uma das apresentadoras de Habitar. Na Rádio Novelo, trabalhou na revisão de roteiro e na direção de locução do Projeto Querino e integrou a equipe responsável pelo Rádio Novelo Apresenta.
Na época da oficina, a jornalista havia acabado de concluir um mestrado profissional na Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Seu trabalho final foi um episódio em inglês sobre o misoprostol, medicamento cujo uso abortivo foi identificado no Brasil, e as tentativas recentes de restringir seu acesso nos Estados Unidos.
A atividade foi a primeira oficina virtual realizada pelo Lunar em 2024. O laboratório é um projeto de extensão da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, criado e coordenado pelo professor Andriolli Costa, dedicado à formação, à pesquisa e à experimentação com podcasts narrativos.
A gravação da oficina estreou no YouTube em 22 de maio de 2024 e pode ser encontrada na playlist de oficinas do Lunar. Para conhecer outros projetos, acesse www.podcastnarrativo.com.br e acompanhe o perfil @podcastnarrativo no Instagram.




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