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Do Instagram à animação: pesquisas exploram as fronteiras do podcast narrativo

1 de out. de 2025
5 min de leitura

GT do Vozes em Órbita reuniu trabalhos sobre adaptação entre linguagens, participação do público, rap em Cabo Verde e violência contra mulheres jornalistas.


Ao adaptar para podcast um roteiro concebido para animação, Márcio Andrade mudou quem acompanharia seu protagonista. Em Lá na Frente, história sobre um menino que tenta compreender a perda da irmã durante a gestação da mãe, um vizinho cedeu lugar à própria mãe nessa aproximação com a criança. A mudança permitiu aprofundar a experiência da personagem e reorganizou a maneira de contar.


O exemplo foi apresentado no GT Fronteiras Midiáticas: Podcast, Narrativa e Convergência, realizado em 1º de outubro de 2025, durante o Vozes em Órbita — I Encontro Nacional de Podcasts Narrativos. Coordenada por Lorenna Caoly, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a sessão online reuniu quatro trabalhos.


As apresentações discutiram como as histórias se transformam ao encontrar outras linguagens e públicos. Também colocaram em debate as condições dessa circulação: a participação de comunidades, o retorno aos territórios pesquisados e os cuidados necessários para publicar depoimentos de pessoas expostas à violência.


Uma história se transforma ao encontrar outra linguagem


No trabalho Infâncias, perdas e imaginários em constelação, Márcio Henrique Andrade examinou o desenvolvimento do universo de Lá na Frente. Lançado como podcast em 2021, o projeto acompanha Pedro, um menino negro de seis anos que vive com a mãe, Débora, em Olinda.


A história foi organizada em cinco episódios voltados ao público infantojuvenil. A produção aborda o luto e a tentativa da criança de compreender o significado de perder alguém, incluindo também questões de gênero nas relações entre os personagens.


Durante o debate, Andrade explicou que a adaptação para áudio exigiu rever o lugar de Débora. A primeira versão do roteiro estava muito centrada no menino. Ao aproximar mãe e filho, o autor passou a desenvolver também a experiência da mulher que atravessava a perda.


A organização em episódios ampliou a busca de Pedro pela irmã, com situações e espaços diferentes em cada parte. Descrições e ambiências sonoras ajudam a apresentar esse percurso, enquanto os atores alternam narração e interpretação de personagens.


Na passagem posterior para a animação, a proposta tomou outro caminho: o curta foi construído sem diálogos, concentrando-se na experiência do luto. Andrade também discutiu o desenvolvimento de um livro infantil ilustrado, com outras possibilidades de apresentar os cenários e a vida interior dos personagens.


Esse desafio já aparecia em uma declaração do diretor publicada pelo Jornal do Commercio, em março de 2025, sobre a animação: “Nosso principal desafio com este trabalho está em encontrar linguagens que nos permitam contar essa história”.


Da caixinha de perguntas à formação de comunidade


A participação do público orientou o trabalho Storytelling na palma da mão: da caixinha de perguntas ao podcast, apresentado por Daniel do Nascimento, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).


Parte de uma pesquisa de mestrado orientada por Luana Viana, o estudo analisou o quadro Eu Começo, realizado pelo jornalista e podcaster Chico Felitti no Instagram. A dinâmica parte de um tema e convida seguidores a compartilhar experiências pessoais, selecionadas e comentadas pelo produtor, com participação da audiência.


Daniel trabalhou com três recortes temáticos: sonhos, inveja e preguiça. Observou como os relatos da intimidade alimentam a interação e como a seleção, os comentários e as escolhas do público organizam a circulação dessas histórias.


A relação entre essa atividade e os podcasts de Felitti apareceu como uma questão a aprofundar. Andriolli Costa apontou a necessidade de estabelecer melhor as conexões entre as escolhas narrativas do jornalista nas diferentes mídias. Lorenna Caoly perguntou como a comunidade engajada no Instagram poderia acompanhar o produtor também na escuta dos podcasts.


O autor reconheceu o caráter ainda aberto dessa investigação: “Ainda não tenho totalmente algumas respostas”. Explicou que a análise da dissertação buscaria compreender melhor essa passagem entre os espaços de atuação de Felitti.


O recorte apresentado permite discutir mecanismos de participação na rede social. A relação desses mecanismos com a formação da audiência dos podcasts permanece como pergunta de pesquisa.


O rap aproxima territórios e faz a pesquisa circular


O trabalho Diálogos Sul-Sul na interação entre rap e podcast apresentou uma experiência do projeto Barras Maning Arretadas, vinculado à Universidade Federal de Rondônia (UNIR).


Assinado por Francisco Carlos Guerra Júnior, Emanuel Sá, Gabriel Moreira da Silva Cunha e Karen Rafaela Cavalcante Gonçalves, o estudo discutiu a produção de um episódio sobre o rap de Mindelo, em Cabo Verde.


O projeto combina entrevistas com artistas e pesquisadores, trechos musicais, pesquisa histórica e narração de estudantes. Na apresentação, Guerra Júnior explicou que o recorte por cidades busca enfrentar generalizações sobre o continente africano, reconhecendo diferenças entre os contextos culturais e políticos abordados.


Em comunicado de apresentação do episódio reproduzido pelo Mindel Insite, a equipe definiu como objetivo “mostrar como o rap é uma ferramenta capaz de narrar o contexto político e social de uma determinada localidade”.


O episódio incluiu também o grupo brasileiro Atitude Feminina, que já havia se apresentado em Mindelo. A experiência ajudou a discutir relações de reconhecimento entre artistas e públicos dos dois países. Guerra Júnior chamou atenção para a desigualdade nessas trocas: manifestações brasileiras circulam nesses territórios, enquanto parte de suas produções permanece pouco conhecida no Brasil.


A circulação do próprio podcast acrescentou outra dimensão ao trabalho. Karen contou que a equipe foi entrevistada pela Rádio Morabeza e que a conversa se transformou em um programa radiofônico. A repercussão em veículos cabo-verdianos ampliou o contato com pessoas do território pesquisado e criou oportunidades de retorno sobre a produção.


Narrar a violência exige cuidar das fontes


Em Poder e Silêncio, a relação entre narrativa e circulação apareceu ligada aos riscos de exposição das entrevistadas. O trabalho de Marília Dias e Rostand Melo, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), apresentou o processo de produção de um podcast documental sobre violência política de gênero contra jornalistas.


A série reúne entrevistas, dados e registros de arquivo em três episódios, relacionando ataques contra mulheres jornalistas às condições de exercício profissional, à liberdade de imprensa e ao debate público.


Marília relatou uma dificuldade que atravessou a apuração: das oito entrevistas realizadas, apenas duas puderam ter as próprias vozes divulgadas. As demais fontes seguiram orientações jurídicas dos veículos em que trabalhavam, diante do risco de novos ataques.


Segundo a ficha da produção no Catálogo de Podcasts Narrativos do Lunar, três relatos anônimos foram interpretados por estudantes de Jornalismo da UEPB. A solução permitiu incorporar essas experiências à narrativa com outras vozes, preservando a identificação das fontes.


Entre os depoimentos identificados estão os de Marina Dias, do The Washington Post, e Rafaela Sinderski, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).


Na apresentação, Marília descreveu a proposta de fazer do podcast “um espaço de acolhimento, memória e também de disputa simbólica contra a tentativa de silenciamento”.


Seu relato acrescentou ao debate sobre as fronteiras do podcast uma questão que antecede a distribuição: em quais condições uma experiência pode ser narrada publicamente. A escolha de quem fala, de como o depoimento será apresentado e de quais informações podem circular integra o próprio trabalho de construção da história.



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