Como analisar um podcast narrativo: três planos para compreender as histórias em áudio
Em vídeo do Lunar, Andriolli Costa discute como linguagem, conteúdo e valores se articulam na construção das narrativas sonoras.
Uma pausa antes de uma revelação, a música que acompanha um depoimento e a escolha de quem começa contando uma história participam da construção dos sentidos de um podcast. Investigar essas decisões ajuda a compreender como uma produção organiza acontecimentos, apresenta personagens e oferece maneiras de interpretar o mundo.
No vídeo Análise Crítica da Narrativa para Podcasts, publicado em maio de 2025 no canal do Lunar — Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ, o professor e coordenador do laboratório, Andriolli Costa, discute como observar esses elementos e suas relações.
O trecho de um encontro de iniciação científica aborda a proposta de Luiz Gonzaga Motta, autor de Análise crítica da narrativa, publicado pela Editora UnB em 2013. Entre os caminhos apresentados pelo pesquisador está a distinção entre três planos: expressão, estória e metanarrativa.
A narrativa orienta as perguntas
Ao comentar a perspectiva hermenêutica — voltada à compreensão e à interpretação dos sentidos —, Costa destaca que as particularidades da produção devem orientar o olhar do pesquisador. Como explica no vídeo, “a própria narrativa vai te dar condições de você analisar a narrativa”.
Isso exige atenção ao que emerge durante a escuta. Um narrador que expõe suas dúvidas, uma voz que aparece repetidamente ou uma mudança na maneira de apresentar um personagem podem oferecer pistas para a investigação.
Os três planos ajudam a organizar essas observações. Eles integram uma proposta mais ampla de análise, que também envolve compreender conflitos, personagens, encadeamentos e estratégias narrativas. Seu uso ganha força quando as perguntas da pesquisa dialogam com as características do podcast estudado.
Plano da expressão: como a história chega aos ouvidos
O plano da expressão corresponde à linguagem empregada para contar. No podcast, envolve palavras, interpretação vocal, silêncios, músicas, ruídos e montagem.
Costa recorre à comparação entre ler um livro e escutar seu conteúdo oralizado para mostrar como a linguagem transforma a experiência. Mesmo quando as palavras permanecem, a voz acrescenta entonações, ritmos e ênfases.
Uma frase pode ser pronunciada com hesitação, entusiasmo ou ironia. Uma pausa pode prolongar uma expectativa. A análise procura compreender como essas escolhas participam de uma passagem específica.
Para visualizar esse plano, podemos imaginar uma reportagem sobre uma enchente. O som da água pode situar uma cena; um depoimento gravado dentro de casa pode apresentar uma relação diferente com o ambiente daquela construída em estúdio. Cabe observar como esses registros entram na montagem e que relações estabelecem com a fala.
Nesse trabalho, escutar o episódio é fundamental. A transcrição permite consultar palavras e localizar informações, mas deixa de registrar parte das características da voz e das relações entre os elementos sonoros.
Plano da estória: como os acontecimentos se articulam
O plano da estória diz respeito ao enredo, aos personagens e às relações entre os acontecimentos. O termo se aplica também às narrativas jornalísticas, nas quais interessa compreender como fatos apurados são organizados em um relato.
Qual conflito conduz o episódio? Quem participa dele? Como essas pessoas são apresentadas? Que informações chegam primeiro ao público?
Na reportagem hipotética sobre a enchente, começar pelo resgate e depois recuperar os alertas meteorológicos cria um percurso de descoberta. O ouvinte conhece uma consequência antes de acompanhar as circunstâncias que a antecederam.
Também importa observar o lugar do narrador. Ao compartilhar uma dificuldade de apuração ou explicar como encontrou determinada fonte, o jornalista pode passar a integrar a própria história investigada.
Plano da metanarrativa: que valores atravessam o relato
A metanarrativa corresponde aos temas e valores de fundo que atravessam a história. Sua análise investiga concepções de justiça, responsabilidade, pertencimento e vida coletiva mobilizadas pelo relato.
Retomando o exemplo da enchente, vale perguntar como a produção distribui responsabilidades. Que espaço concede às decisões do poder público, à ocupação do território e às experiências dos moradores? Quem pode explicar o acontecimento e apresentar soluções?
Essas questões ajudam a compreender a visão de mundo construída pela narrativa. A interpretação precisa encontrar apoio em escolhas identificáveis, como as vozes selecionadas, as explicações privilegiadas e a articulação entre os acontecimentos.
O contexto de produção e circulação também importa: quem realiza o podcast, para qual público e em quais circunstâncias são perguntas que ajudam a situar suas escolhas.
Uma palavra, diferentes relações
A atenção às particularidades do som motivou adaptações da proposta de Motta. Em artigo publicado em 2017, Mírian Redin de Quadros e Márcia Franz Amaral discutem sua aplicação ao radiojornalismo, considerando características próprias da linguagem e da produção radiofônicas.
Luana Viana também trabalhou com adaptações dessa abordagem em sua pesquisa de doutorado sobre O Caso Evandro, apresentada na UFJF em 2022.
Um dos aspectos observados foi o uso da primeira pessoa do plural. Em algumas passagens, o “nós” reunia narrador e equipe para explicar procedimentos de apuração. Em outras, aproximava narrador e ouvinte, colocando ambos no percurso da investigação.
A observação mostra como uma escolha de linguagem pode revelar diferentes posições do jornalista e maneiras de construir sua relação com o público.
Da observação à interpretação
Para desenvolver uma análise, é útil registrar os trechos que sustentam cada hipótese, com marcações de tempo e descrições do que se escuta. Comparar passagens permite perceber recorrências, mudanças e situações que desafiam a interpretação inicial.
Se uma trilha parece associar determinado personagem ao perigo, por exemplo, cabe verificar quando ela aparece, quais falas acompanha e se também é utilizada em outros contextos. Esse percurso torna o argumento mais preciso e permite que outras pessoas examinem suas evidências.
Também é necessário distinguir os sentidos sugeridos pela construção do episódio das respostas efetivas da audiência. Investigar como diferentes ouvintes interpretam uma passagem exige procedimentos de pesquisa voltados à recepção.
No vídeo do Lunar, Costa sintetiza o movimento de observação: “Ele quer que a gente olhe separado, depois junte”.
Uma mesma escolha pode atravessar os três planos. A música que acompanha um personagem participa da expressão sonora, interfere em sua apresentação no enredo e pode favorecer uma leitura sobre suas ações. Reunir essas relações permite compreender como o podcast constrói sua maneira de contar e de atribuir sentidos às experiências.






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