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Tempo e narrativa: como os podcasts podem ampliar a compreensão do presente

há 5 horas
4 min de leitura

Ao comentar a audiossérie Yawara, Andriolli Costa discute como memória, contexto histórico e expectativas de futuro participam da construção das histórias.


Quando Galdino Jesus dos Santos foi assassinado em Brasília, em abril de 1997, sua presença na capital estava ligada à defesa dos direitos territoriais de seu povo. Recuperar esse motivo permite conhecer sua atuação política e compreender as reivindicações coletivas que o levaram até ali. O acontecimento que ganhou as manchetes atravessava uma história de conflitos e projetos que ultrapassava aquela madrugada.


Essa relação entre o fato noticiado e as temporalidades que o constituem orienta o vídeo Tempo e narrativa em podcasts, publicado em maio de 2025 no canal do Lunar — Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ. O trecho foi gravado durante a reunião do grupo de estudos “Faces do Tempo”, realizada em 24 de outubro de 2024. Nele, o professor e coordenador do laboratório, Andriolli Costa, parte da audiossérie Yawara: uma história oculta sobre o Brasil para discutir os limites de uma cobertura concentrada no presente imediato.


A história que antecede a notícia


Apresentada por Alice Braga e Daiara Tukano, Yawara é uma produção da South Living Stories para a Audible. Seus oito episódios investigam a violência contra os povos indígenas e suas relações com a história brasileira. O terceiro episódio é dedicado a Galdino.


No vídeo do Lunar, Costa comenta a leitura que a audiossérie faz da cobertura do assassinato. A crítica destaca a atenção concedida ao crime e aos agressores, enquanto a trajetória da vítima e as razões de sua viagem recebem menos espaço.


Galdino pertencia ao povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, do sul da Bahia. Foi atacado na madrugada de 20 de abril de 1997, enquanto dormia em uma parada de ônibus. Sua participação nas mobilizações indígenas estava vinculada a uma disputa territorial que já atravessava décadas.


O território Caramuru/Paraguassu havia sido reconhecido pelo governo baiano em 1926 e demarcado em 1938. Posteriormente, sofreu ocupações irregulares e emissão de títulos a particulares. Em 1982, a Funai ingressou com uma ação para anular esses títulos. O julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, favorável à nulidade, ocorreu em 2012, quinze anos depois da morte de Galdino.


Esse percurso permite acompanhar a duração de uma reivindicação coletiva: suas condições anteriores ao crime, sua continuidade e seus desdobramentos posteriores. O site de Yawara reúne documentos, imagens e referências que permitem acompanhar a pesquisa da produção.


Construir relações entre as informações


A reflexão dialoga com A crise da narração, do filósofo Byung-Chul Han, obra mencionada por Costa. O autor discute uma experiência contemporânea marcada pela circulação acelerada de informações e pela dificuldade de estabelecer vínculos entre elas.


Nessa perspectiva, a sucessão de atualizações pode reunir acontecimentos próximos na tela e distantes na compreensão. A narração tem a possibilidade de articular experiências, estabelecer continuidades e oferecer orientação em meio à dispersão.


Em texto publicado pela Editora Vozes, o tradutor Daniel Guilhermino apresenta essa discussão destacando a relação entre narrar, produzir sentidos e construir vínculos entre pessoas.


Para o jornalismo, trabalhar essas relações exige apuração. As conexões propostas precisam encontrar sustentação em documentos, testemunhos e outras evidências. A investigação também pode reconhecer lacunas, versões conflitantes e questões ainda abertas.


O trabalho narrativo envolve, portanto, escolhas sobre quais relações apresentar e como sustentá-las. Uma história pode favorecer a compreensão de um processo e também pode simplificá-lo excessivamente. O compromisso com a complexidade permanece na pesquisa, na escrita e na montagem.


O futuro também participa do presente


Costa aproxima essa discussão do pensamento de Cremilda Medina e de sua compreensão do jornalismo como narrativa da contemporaneidade.


O presente reúne consequências de decisões antigas, memórias transmitidas entre gerações e conflitos ainda abertos. Também é constituído por expectativas: as pessoas agem em função do que desejam conquistar, preservar ou transformar.


No caso de Galdino, a reivindicação territorial permite observar essa articulação. A disputa recuperava direitos e conflitos anteriores, enquanto a mobilização buscava construir outras condições de vida para seu povo. O futuro participava do presente como projeto coletivo.


No artigo “Povo e personagem em fina sintonia”, Medina articula a escuta dos protagonistas, o contexto social, as raízes histórico-culturais e os diagnósticos e prognósticos de especialistas. Essa perspectiva amplia os caminhos pelos quais o jornalista pode interpretar os acontecimentos.


Memórias, símbolos e imaginários também integram essa leitura: participam da maneira como sujeitos e comunidades compreendem suas experiências e formulam seus projetos.


No vídeo, Costa sintetiza o risco de restringir a cobertura à sucessão das ocorrências: “Se a gente fica fixado no presente imediato, não existe passado, não existe futuro, né? Não existe então contexto possível”.


Antecedentes, permanências e expectativas no roteiro


Para a produção de podcasts, essa reflexão abre caminhos de investigação organizados em torno de três perguntas: o que antecede o acontecimento, o que permanece dele e quais expectativas de futuro mobiliza?


Investigar os antecedentes pode envolver entrevistas sobre trajetórias de vida, consulta a documentos e recuperação de gravações antigas. A pesquisa procura identificar as experiências, decisões e disputas que ajudam a compreender uma situação.


Acompanhar permanências exige observar consequências e continuidades. Retornar às pessoas entrevistadas, confrontar compromissos públicos com decisões posteriores e acompanhar uma reivindicação ao longo dos anos permite perceber o que mudou e o que continua em disputa.


Investigar expectativas significa escutar os projetos que orientam as ações. Em uma narrativa histórica, isso inclui recuperar o que as pessoas esperavam naquele momento, preservando a incerteza com que viveram um processo cujo desfecho o público talvez já conheça.


A montagem pode colocar esses tempos em diálogo, aproximando uma promessa de seus resultados ou um registro antigo das lembranças atuais de quem participou dele. Cada aproximação precisa responder às perguntas da investigação e permitir que o ouvinte compreenda a relação proposta.


A duração do episódio, por si só, pouco informa sobre a profundidade desse trabalho. O que importa é como a produção pesquisa e articula as experiências. Contar o presente exige atenção tanto às histórias que nele permanecem quanto aos futuros que seus protagonistas procuram construir.



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