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Rodrigo Alves: como pauta, roteiro e som constroem uma história

há 4 horas
4 min de leitura

Criador do Vida de Jornalista compartilha, em entrevista ao Observatório Lunar, escolhas que articulam pesquisa, composição sonora e proximidade com os ouvintes.


No episódio de Vida de Jornalista sobre a chegada do homem à Lua, o relógio do programa acompanha a descida da nave: aos trinta minutos de reprodução, chega o momento do pouso. Até ali, gravações da NASA marcam a aproximação, enquanto o público conhece os bastidores da transmissão pela televisão brasileira. A organização do roteiro permite acompanhar a expectativa daquele acontecimento.


A solução é um dos exemplos apresentados por Rodrigo Alves no episódio piloto do Observatório Lunar, programa de entrevistas do Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ. Na conversa com Andriolli Costa, divulgada inicialmente em 2024, o jornalista explica como encontra formas de contar, trabalha com a música e avalia suas escolhas de edição.


Criador do Vida de Jornalista, lançado em 2018, Alves também atua com roteiro e direção no Rio Memórias. A entrevista aproxima esses trabalhos de questões presentes na formação de produtores: como transformar um assunto em pauta, reconhecer o que o som pode oferecer e construir uma relação com quem escuta.


A pauta começa na maneira de contar


Para Alves, identificar um assunto é apenas parte do trabalho. “A pauta não é o tema, não é o assunto”, afirma. É preciso encontrar uma abordagem e uma forma de desenvolver a história.


Em A chegada do homem à Lua, publicado em janeiro de 2022, o recorte está na cobertura televisiva brasileira de 1969. Sandra Passarinho, então estagiária da Globo, participa recuperando experiências daquele momento.


Segundo o jornalista, a produção levou quatro meses, com tempo para pesquisar e experimentar soluções de roteiro. A alternância entre o relato sobre a televisão e as comunicações dos astronautas permite desenvolver duas linhas simultâneas: o trabalho das emissoras na Terra e a aproximação da nave à superfície lunar.


Os registros da NASA oferecem referências temporais ao longo da primeira meia hora. O ouvinte acompanha os bastidores da cobertura sabendo que o pouso se aproxima. Assim, a pesquisa de arquivo participa da estrutura do episódio e do ritmo com que a história avança.


A música precisa considerar a voz


As mudanças no uso da trilha sonora ajudam a compreender como Alves revê suas práticas. Nos primeiros episódios do Vida de Jornalista, a música permanecia ao fundo durante toda a entrevista. Na conversa com o Lunar, ele explica que passou a preferir mais espaço para o depoimento: “A voz da pessoa é soberana”.


A colaboração com o compositor Gabriel Falcão ampliou as possibilidades de trabalhar essa relação. As músicas podem nascer de conversas sobre o projeto, da leitura do roteiro ou da escuta de uma versão já editada. Esse processo permite ajustar entradas, mudanças de clima e passagens musicais ao andamento da narrativa.


A experimentação também pode alterar a própria forma do episódio. Em Casimiro e o disco voador, da série Memórias, uma composição de Lulina ajuda a contar a história da expectativa pela chegada de uma nave extraterrestre a Casimiro de Abreu, em 1980.


O programa, já analisado em resenha publicada pelo Lunar, combina entrevistas e narrativa musical. Alves apresenta essa experiência como uma possibilidade favorecida pela autonomia de seu projeto autoral.


O que uma escuta coletiva permite perceber


Em 2019, Alves reuniu cerca de setenta pessoas em um auditório da ESPM, no Rio de Janeiro, para uma pré-estreia do episódio sobre a Guerra do Vietnã, com José Hamilton Ribeiro. Durante aproximadamente uma hora, o público ouviu o programa pronto, sem apoio de imagens.


Sentado de frente para a plateia, o produtor pôde acompanhar reações que habitualmente ficam distantes de quem publica um podcast: risos, expressões de surpresa e a procura inicial por um lugar onde fixar o olhar. Ao recordar a experiência, ele destaca o interesse de observar as pessoas enquanto escutavam.


Outra proposta foi desenvolvida no Rio Memórias, em uma apresentação realizada em 2023. Nesse caso, o episódio foi construído ao vivo no palco, com narração, entrevistados, músicos e efeitos sonoros feitos com a participação da plateia.


As duas experiências colocam a escuta no centro do encontro. Uma permite acompanhar a recepção de uma montagem concluída; a outra transforma a realização sonora em apresentação. Para Alves, ambas demonstram possibilidades de reunir pessoas em torno de uma história contada em áudio.


A proximidade também se escreve


A relação com o público aparece nas próprias escolhas de locução. Alves descreve sua comunicação com o ouvinte como uma conversa de “um para um”. Ao longo dos episódios, dirige perguntas a quem escuta e convida essa pessoa a pensar sobre o que está sendo contado.


Essa proximidade continua nas redes e nos encontros que organiza quando visita outras cidades. Na entrevista, ele relata como conversas com jornalistas e estudantes ajudam a perceber a presença do Vida de Jornalista em suas trajetórias de formação.


A participação do público pode alcançar também decisões de produção. Em depoimento publicado pelo Cochicho em 2020, Alves contou que preparou duas versões de um trecho da entrevista com José Hamilton Ribeiro, com e sem pausas, e pediu a opinião dos ouvintes nas redes sociais. A comparação ajudou a examinar como aqueles intervalos eram percebidos.


Há ainda uma dimensão material desse vínculo. Na conversa com o Lunar, Alves explica que o apoio financeiro dos ouvintes era reinvestido no projeto, em despesas como viagens, estúdio, equipamentos e contratação de música original. A comunidade participa, assim, das condições que permitem realizar as histórias.


Voltar ao acervo para refazer escolhas


A experiência acumulada levou Alves a revisitar a primeira leva da série Memórias, publicada originalmente em 2019. Ao preparar a continuidade da série, decidiu reapresentar os episódios para um público que havia crescido desde o lançamento.


O retorno envolveu novas gravações de suas narrações, com equipamento melhor, além de ajustes na edição e nos níveis de volume. Os roteiros estavam preservados, permitindo trabalhar novamente a realização sonora das histórias.


A reedição deu aos episódios uma nova oportunidade de circulação e permitiu corrigir problemas que o produtor passou a reconhecer com a prática. Entre a música contínua dos primeiros programas e as composições pensadas para cada história, entre a gravação inicial e a narração refeita, a entrevista revela um processo de aprendizagem que continua depois da publicação.


O episódio piloto do Observatório Lunar tem apresentação de Andriolli Costa e edição de Leonardo Tremeschin.



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