Conexão Lunar acompanha pesquisa sobre infância e memória no Cemitério dos Anjinhos
Gravação com Isabela Silveira explora como a narrativa sonora pode compartilhar a experiência de uma pesquisa de campo.
A equipe do Lunar esteve no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no dia 28 de março, para a gravação do primeiro episódio de “Conexão Lunar”. As estudantes Giovanna Garcia e Daniela Machado acompanharam a pesquisadora Isabela Silveira em uma revisita ao Cemitério dos Anjinhos, espaço que marcou o início de sua investigação.
A pesquisa de Isabela aproxima infância, memória e educação, examinando as representações das crianças nos espaços cemiteriais. A investigação combina visitas de campo, documentos e narrativas para compreender como diferentes formas de reconhecer a infância aparecem nos registros e nas práticas relacionadas à morte.
Em trabalho apresentado à Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), em 2023, a pesquisadora observa os contrastes entre as sepulturas infantis do São João Batista. Esculturas, fotografias, brinquedos e homenagens preservam a memória de algumas crianças. No Cemitério dos Anjinhos, localizado na quadra 19, a retirada das cruzes e a ausência de identificação compõem outra paisagem de lembrança e esquecimento.
Esses elementos também expressam diferentes concepções de infância: crianças representadas como anjos, estudantes ou figuras que recebem devoção popular. Ao estudar essas diferenças, Isabela investiga quais vidas ganham visibilidade e quais permanecem à margem da memória coletiva.
A atenção aos apagamentos também aparece em uma entrevista publicada pela pesquisadora na Revista Teias, em 2025. Em conversa com o historiador Júlio Cesar Medeiros da Silva Pereira, Isabela aborda as crianças africanas escravizadas sepultadas no Cemitério dos Pretos Novos, na Gamboa. Os registros que as identificavam como “crias” ou “moleques novos”, muitas vezes sem nomes individuais, revelam outra dimensão das desigualdades na preservação da memória das infâncias.
Isabela começou a visitar o Cemitério dos Anjinhos em 2021. Em seu relato sobre a gravação, conta que percorria o caminho pensando nas mães e nos familiares que haviam feito aquela mesma caminhada para sepultar uma criança. As mudanças na paisagem, a ausência de nomes e cruzes e as condições do terreno compunham uma experiência difícil de transmitir apenas pela escrita.
“Eu não consegui, em palavras, trazer o leitor para esse ambiente”, escreveu a pesquisadora.
A gravação para o podcast ofereceu outra possibilidade de compartilhar esse percurso. Enquanto Isabela caminhava e conversava com as estudantes, a equipe registrou o som ambiente e os passos sobre diferentes superfícies — do chão pavimentado ao terreno arenoso e pantanoso.
Realizada após a defesa de sua tese, a experiência foi descrita por Isabela como uma forma de dar fechamento ao trabalho. A narrativa sonora permitiu reunir o lugar, a caminhada e as sensações que acompanharam seus anos de pesquisa.
“Conexão Lunar” é um projeto do laboratório voltado a aproximar os ouvintes de pesquisas desenvolvidas na Uerj. Neste primeiro episódio, a proposta ganha forma no encontro entre a investigação acadêmica e a escuta do espaço em que ela foi construída.






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