top of page

Do mito ao podcast: livro da APEC reúne pesquisa de Andriolli Costa sobre narradores digitais

há 8 horas
3 min de leitura

Capítulo do coordenador do Lunar investiga como programas brasileiros recontam histórias mitológicas e constroem vínculos com seus ouvintes. Texto está disponível gratuitamente no site do S.A.C.I.


Por que histórias de deuses, heróis e criaturas mitológicas continuam mobilizando ouvintes de podcasts? Entre referências a aplicativos de relacionamento, comparações com o cinema e situações familiares a quem escuta, narrativas antigas ganham novas formas de circular. Compreender essa permanência é o objetivo do capítulo “Aedos digitais: a persistência da narrativa mitológica no podcast brasileiro”, de Andriolli Costa, coordenador do Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ — Lunar.


O estudo integra o livro Diáspora Científica e a Diversidade Cultural na Pesquisa, publicado em 2026 pela Associação de Pesquisadores/as e Estudantes Brasileiros/as na Catalunha (APEC). A coletânea resulta do 28º Seminário Internacional da associação, realizado em novembro de 2024 na Universidade de Barcelona, e reúne 29 trabalhos selecionados após avaliação científica. A organização é de Taluana Laiz Martins Torres, Elaine Nogueira Dias, Karla Núbia Magalhães e Michele Dias Medeiros.


No capítulo, a figura dos aedos — poetas da Grécia antiga que transmitiam histórias pela performance oral — ajuda a pensar a atuação dos narradores de podcasts. Ao recontar mitos, esses produtores selecionam episódios, interpretam personagens e aproximam histórias herdadas das experiências de seus públicos. A tradição se mantém também por meio das transformações introduzidas por quem conta.


Um dos pontos de partida da pesquisa é a presença do Noites Gregas, apresentado por Cláudio Moreno e produzido por Filipe Speck, entre os podcasts mais ouvidos do Spotify em setembro de 2024. O estudo recupera também a trajetória de outros programas brasileiros dedicados à mitologia, incluindo o Papo Lendário, para investigar como essas produções surgem, permanecem e estabelecem relações com seus ouvintes.


No Noites Gregas, a análise observa como humor, linguagem informal e alternância entre narrador e personagens participam da construção das histórias. Ao narrar a chegada de Tétis à casa de Hefesto, por exemplo, Moreno apresenta um deus que lamenta não ter preparado café e bolo para receber a visita. A cena aproxima o universo mitológico de um gesto cotidiano de hospitalidade. É nesse movimento que o capítulo reconhece a mitologia como “um repertório vivo, capaz de dialogar com questões atuais”.


Em diálogo com Gilbert Durand e Paul Zumthor, Costa examina também o que acontece quando a narrativa oral passa pela gravação e pela edição. A escuta do podcast dispensa a presença simultânea de narrador e público, permitindo que uma mesma performance alcance pessoas em diferentes tempos e lugares. Ao mesmo tempo, deixa de compartilhar elementos do encontro presencial, como os gestos, a proximidade dos corpos e as variações de cada apresentação.


Essa mediação abre possibilidades próprias de criação. A montagem, as trilhas e o trabalho com a voz ajudam a construir o ritmo e a imersão, enquanto a circulação dos episódios favorece a formação de comunidades em torno das histórias. A continuidade dos programas envolve, assim, tanto escolhas narrativas quanto vínculos afetivos entre produtores e ouvintes.


A preservação dessas performances, porém, tem seus limites. Embora o arquivo gravado possa documentar e transmitir histórias, sua disponibilidade depende das condições de hospedagem e circulação. O capítulo chama atenção para essa tensão: as tecnologias ampliam o acesso às narrativas, mas a memória que ajudam a constituir também fica sujeita à permanência dos arquivos e das plataformas.


O capítulo ocupa as páginas 104 a 116 do livro e está disponível gratuitamente na bibliografia do grupo de pesquisa S.A.C.I. — Sociedade, Arte, Cultura e Imaginário.

Comentários


bottom of page