Coordenador do Lunar discute narrativa jornalística e teorias da conspiração em encontro da SBPJor
Conversa com Juliette De Maeyer abordou também a subjetividade do narrador e a transparência sobre dúvidas e limites da apuração
As teorias da conspiração podem oferecer explicações aparentemente coesas para acontecimentos complexos. O jornalismo, comprometido com a realidade, precisa preservar contradições, reconhecer lacunas e apresentar respostas que nem sempre satisfazem o desejo de ordenar o mundo. Esse contraste motivou a pergunta apresentada por Andriolli Costa, coordenador do Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ — Lunar, à pesquisadora Juliette De Maeyer, da Universidade de Montreal.
Integrante da Rede Fundamentos Teóricos do Jornalismo, Costa participou de uma entrevista com a professora no âmbito do SBPJor em Redes 2026. A conversa abordou a verificação da informação na era da inteligência artificial, a objetividade e a transparência no jornalismo.
Doutora pela Universidade Livre de Bruxelas, De Maeyer atua na Universidade de Montreal desde 2014 e é cofundadora do laboratório de pesquisa Atelier −30−. Seus estudos investigam as tecnologias, a materialidade e a epistemologia do jornalismo: como a atividade produz conhecimento e fundamenta suas afirmações sobre o mundo.
A disputa pela explicação dos acontecimentos
Costa retomou uma pesquisa de De Maeyer que compara investigações jornalísticas e produções conspiratórias. Sua intervenção destacou que o jornalismo também organiza acontecimentos por meio de narrativas, mas encontra limites nas contradições e incertezas da realidade. Questionou, então, como responder à força de explicações que parecem preencher todas as lacunas.
“Não tenho uma resposta simples”, afirmou De Maeyer, em tradução do francês. Segundo ela, os materiais analisados em seu estudo recorrem a recursos semelhantes, como entrevistas com especialistas, fontes e números. Essa proximidade na apresentação pode dificultar a distinção pelo público.
A professora argumentou que reafirmar a autoridade profissional dos jornalistas é insuficiente diante de produções que também reivindicam credibilidade. Sua resposta apontou para a necessidade de examinar como o conhecimento jornalístico é produzido e como pode ser comunicado sem sacrificar a complexidade.
Subjetividade e compromisso com o real
A presença de quem narra também ganhou espaço na conversa. De Maeyer apresentou a pesquisa de sua orientanda Clara Champagne sobre Joan Didion para discutir uma distinção: assumir uma perspectiva subjetiva não implica abandonar a possibilidade de conhecer a realidade.
Na leitura apresentada pela professora, o trabalho de Didion combina uma escrita marcada pela subjetividade com o esforço de dizer algo sobre o mundo. Identificar o uso da primeira pessoa, portanto, é apenas o início da investigação sobre como essa narrativa produz conhecimento.
A discussão se aproxima de outra proposta desenvolvida por De Maeyer com Thomas Martine: compreender a objetividade pelas conexões que sustentam o relato. Documentos, registros, testemunhos e observações integram “cadeias de referência” pelas quais os acontecimentos chegam à narrativa jornalística. O rigor depende da consistência dessas relações e de sua capacidade de resistir a questionamentos.
Essas questões dialogam com o interesse do Lunar pelo jornalismo narrativo: permitem discutir a presença do narrador em relação ao trabalho de apuração e à sustentação factual da história.
Transparência também sobre as dúvidas
De Maeyer observou ainda que mostrar os bastidores pode servir para reforçar a autoridade do jornalista, demonstrando que ele trabalhou corretamente. Durante a entrevista, propôs ampliar essa compreensão para incluir os momentos em que a apuração encontra dúvidas e limites.
Essa preocupação orienta o projeto de pesquisa e criação sobre “jornalismo hesitante”, no qual ela e seus colegas desenvolvem oficinas de escrita com jornalistas. A iniciativa experimenta formas de narrar que acolham a incerteza e examinem as possibilidades de comunicar conhecimento nessas condições.
O tema retoma a tensão apresentada por Costa: construir uma história compreensível sem atribuir aos acontecimentos uma certeza que a investigação não permite sustentar.
A entrevista foi conduzida por Rafael Paes Henriques, da UFES, com mediação e tradução de Lia Seixas, da UFBA. Publicada em 15 de setembro no canal da SBPJor no YouTube, a conversa está disponível na íntegra. A pergunta do coordenador do Lunar começa aos 43min54s.






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