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Em nome do pai, do filho e do futebol

Podcast sobre ausências nos convida a olhar para o outro e, nesse movimento, compreender nossa própria história


 

Autor: Carlos Geremias | Revisão: Andriolli Costa

 

A Copa como ritual compartilhado

A Copa do Mundo é um vestígio de um mundo que parece ter ficado para trás: um mundo no qual milhões de pessoas interrompem a rotina para compartilhar o mesmo acontecimento. Talvez seja essa a razão da magia do maior evento esportivo do planeta. Até quem não gosta de futebol acaba diante da televisão, discutindo consigo mesmo ou com o amigo no sofá por que determinado gol foi anulado. Às vezes, a ponta de uma chuteira basta para denunciar uma posição de impedimento, assinalada pela tecnologia do árbitro assistente de vídeo.

 

Foram muitos os gritos interrompidos pelo impedimento semiautomático, ferramenta que ganhou destaque no Mundial de 2026. Houve também quem se preocupasse com questões menos decisivas, como a quantidade de chicletes mascados pelo treinador Carlo Ancelotti. Enquanto assistia comigo a Brasil × Japão, minha mãe, Maria Aparecida — personagem de enorme importância nesta coluna —, perguntava-se o tempo todo quantos chicletes ele colocava na boca. Era uma maneira de se distrair enquanto a seleção jogava uma partida pífia, de causar náuseas.

 

Há ainda aqueles que não conseguem acompanhar os jogos e, quando finalmente se sentam diante da televisão, veem a seleção ser eliminada. Surgem então as teorias, a sensação de terem sido pés-frios e até certo peso na consciência. Para quem não estava tão interessado no evento, resta o sarcasmo. Pelo menos foi o que interpretei ao ler uma mensagem do professor e coordenador do Lunar, Andriolli Costa, divertindo-se após a derrota da seleção para a Noruega.

 

O futebol que faltou entre pai e filho

O comentário de Andriolli me fez lembrar que o futebol também pode ser importante para quem não gosta dele. Não necessariamente como paixão, mas como uma linguagem por meio da qual se elaboram memórias, relações familiares e ausências.

 

No último podcast lançado pelo Lunar, Falta, Andriolli conta os motivos que o levaram a tratar futebol com indiferença. Quando criança, era levado por seu pai, Edgar, para lhe assistir nas partidas. O menino até ganhava bola, mas permanecia em um canto, esperando o jogo dos adultos acabar. Faltava, o mais importante: alguém que jogasse com ele.

 

Segundo o sociólogo Émile Durkheim, a formação dos laços sociais e da sociabilidade é fundamental para a vida em sociedade. No caso de Andriolli, faltou justamente essa cooperação cotidiana que poderia ter transformado o futebol em um vínculo entre pai e filho. Edgar desejava que o menino seguisse um caminho que ele próprio não havia conseguido trilhar como atleta profissional. Mas como transmitir esse sonho se o verde solo sagrado nunca foi verdadeiramente apresentado ao filho?

 

Meu pai e a rejeição ao planeta-bola

O relato do professor me levou de volta à minha própria infância. Em minha casa, o afastamento do futebol aconteceu de outra maneira: meus pais não apenas deixaram de incentivar o esporte, mas cultivavam verdadeira aversão a ele. Acreditavam que a violência e as mortes associadas ao futebol eram provocadas pelos torcedores e até pelos jogadores que se digladiavam em campo.

 

Ao ouvir apenas essa perspectiva, passei a enxergar o futebol como uma desgraça da humanidade, embora soubesse que aqueles episódios de violência não correspondiam ao verdadeiro espírito esportivo.

 

Havia provavelmente outra razão para a rejeição de meu pai, Carlos Reis Geremias. Motorista da extinta empresa Estrela Azul S.A. – a atual Viação Tijuca. No seu trabalho, ele precisava conduzir torcedores que faziam uma tremenda algazarra nos ônibus: zombavam dos adversários depois das vitórias e xingavam a todos após as derrotas.

 

Nunca cheguei a perguntar diretamente se essa experiência influenciou sua relação com o esporte, mas é possível que tivesse, sim, motivos para repreender o planeta-bola.

 

Para ele, o mundo do futebol talvez se resumisse sempre a mesma cena. “Lá vêm eles de novo, com suas bandeiras, tambores, coolers de cerveja... e muito, mas muito barulho”.

 


Carlos Reis Geremias, meu pai, posando no abacateiro no quintal de casa. O contato com a natureza, principalmente aos fins de semana, não podia ser trocado pelo barulho do futebol. Reprodução: Tatiana Alves
Carlos Reis Geremias, meu pai, posando no abacateiro no quintal de casa. O contato com a natureza, principalmente aos fins de semana, não podia ser trocado pelo barulho do futebol. Reprodução: Tatiana Alves

Dois Carlos, duas heranças

Se meu pai, Carlos Reis, não gostava de futebol, outro Carlos teve papel decisivo em minha aproximação com o esporte. Carlos Alberto, mais conhecido como Gino, era um grande torcedor e foi ele quem me fez, acima de tudo, rubro-negro.

 

Lembro-me de um jogo em que o Flamengo perdeu por 3 a 2 para o Vasco da Gama — não me recordo do ano. Os vascaínos riam e comemoravam, enquanto as lágrimas de Gino se misturavam à chuva e à lama. Seus chinelos haviam arrebentado depois de um escorregão. Ao vê-lo sofrer daquela maneira por causa de uma derrota, pensei: “É por esse time que eu quero torcer”.

 

Naquele momento, entendi de alguma forma que o modo como lidamos com a alegria e com a tristeza ajuda a revelar quem somos. Foi assim que minha carteirinha simbólica de torcedor flamenguista foi registrada.

 

Gino me considera um filho, e eu o reconheço como meu segundo pai. Segundo a psicóloga Jéssica Piazza, o ser humano é também um ser de filiação psíquica. Isso significa que a experiência de ser pai ou filho não se limita necessariamente ao vínculo biológico. A filiação também se constrói pelo acolhimento, pela convivência e pelo reconhecimento mútuo.

 

Na psicanálise, afirma-se que todo filho é, em alguma medida, adotivo. Não porque lhe falte um vínculo biológico, mas porque nenhuma criança nasce pronta para os pais, assim como os pais não nascem prontos para a criança. Ao longo da convivência, ambos precisam se reconhecer, acolher e adotar uns aos outros.

 

É essa sacralidade da filiação construída que o título desta crônica procura destacar. Não ter recebido de meu pai biológico os valores do esporte não diminui tudo o que ele me ensinou, nem produz em mim ressentimento. Em vez de me conduzir ao futebol, Carlos Reis apontou outro caminho.

 

Quando criança, eu também quis ser motorista como ele. Meu pai, porém, dizia que eu deveria dirigir outra coisa: minha carreira na comunicação. Hoje, essa condução vive lotada, não de torcedores barulhentos, mas de anotações que ocupam todos os espaços das folhas. Já não há onde puxar novas “setinhas” para acrescentar uma ideia. É preciso comprar outro caderno.

 


Carlos Alberto, o Gino, estendendo a camisa do goleiro Vozinha, destaque da Copa do Mundo de 2026. Ao me abrir os caminhos para apreciar o futebol, tornou-se meu segundo pai.
Carlos Alberto, o Gino, estendendo a camisa do goleiro Vozinha, destaque da Copa do Mundo de 2026. Ao me abrir os caminhos para apreciar o futebol, tornou-se meu segundo pai.

A camisa que devolveu a infância a Gino

Gino voltou a ocupar o centro desta história durante a Copa do Mundo. No jogo entre França e Inglaterra, pela disputa do terceiro lugar, entreguei a ele um presente: a camisa do goleiro Vozinha, de Cabo Verde, um dos grandes destaques do torneio.

 

Os Tubarões, como são conhecidos os jogadores da seleção cabo-verdiana, conquistaram o coração dos torcedores pela dedicação e pela coragem demonstradas em sua estreia mundial. Conseguiram anular o poderoso ataque da Espanha na fase de grupos e fizeram uma partida heroica contra a Argentina. A eliminação não apagou a história de superação construída pela equipe.

 

Gino, assim como muitos torcedores brasileiros, procura em outras seleções aquilo que sente faltar à nossa. Quando viu a camisa de Vozinha, ficou encantado como uma criança diante de um presente especial. Ser pai nos convida a olhar para nossa criança interior.

  

O que fazemos com aquilo que faltou

O podcast despertou em mim memórias boas e ruins. Também mostrou como o futebol pode nos conduzir a questões importantes para a comunicação e para a vida em sociedade.

 

Falar sobre ausências em um contexto marcado pela união e pela solidariedade pode parecer paradoxal. A ausência, porém, não transforma automaticamente alguém em um sujeito incompleto. O que importa é a maneira como lidamos com expectativas não cumpridas, afastamentos e lembranças dolorosas.

 

Elaborar essas experiências é uma responsabilidade que assumimos para cuidar das feridas deixadas por elas. As gerações de nossos pais dificilmente tiveram a oportunidade de refletir sobre esses sentimentos. As gerações anteriores à deles tiveram ainda menos espaço para isso.

 

No terceiro e último episódio do podcast, Thales Martins reforça essa dimensão ao tratar da importância de encontrar pessoas dispostas a expressar sentimentos que, durante muito tempo, permaneceram silenciados. Talvez esse seja um dos caminhos possíveis: falar sobre o que faltou para entender o que ainda pode ser construído.


  • Carlos Geremias é bolsista de extensão do Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ e atuou na divulgação do podcast Falta. É acadêmico de Jornalismo da mesma universidade.

 
 
 

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