top of page

Falta - Entrevista com o Olheiro

Em entrevista gravada em 2025, Gésios Mike, observador técnico do Coritiba nascido no Distrito Federal divide suas impressões sobre como é sonhar com futebol no Centro-Oeste do Brasil

Por: Bruna Sebollela | Edição: Andriolli Costa



BRUNA: Primeiramente, eu queria que você se apresentasse, falasse sobre sua carreira, como que você foi parar nessa profissão, sua formação e tudo mais.

GÉSIOS: Então, meu nome é Gésios Mike, né? É um nome diferente aí, costumo sempre falar pros atletas que é um nome diferente, mas um nome que fica. Então um nome que vai marcar. E a gente espera que sempre de forma positiva para eles, né? Eu sou natural de Brasília, sou candango, né? Nasci em Taguatinga e moro aqui até hoje. Então mesmo trabalhando em um clube do Sul eu continuo morando aqui, representando o clube aqui na região.


Tenho 34 anos, graduado em Educação Física... Às vezes a gente encontra alguns profissionais que são ex-atletas e não seguiram essa carreira acadêmica, né? Tenho também duas licenças da CBF Academy - que são licenças muito importantes para a gente atuar com uma certa segurança e transparecer um pouco mais de confiança para todo mundo.


Eu sou um ex-aspirante a profissional que foi pelo lado dos estudos para conseguir trabalhar com o futebol e atingi esse objetivo, graças a Deus. Minha história começa nas categorias de base, bem novo... Comecei a galgar esse sonho de ser profissional, mas fiquei ali pelo caminho. Fui até o sub-20, até os 17, 18 anos. Foi aí que ocorreu a decisão de estudar.


De primeira eu não comecei com a Educação Física. Eu estava um pouco saturado de futebol e a família pressionava por uma profissão que fosse mais vistosa, né? Que daria mais dinheiro primeiro. Então tentei fazer Segurança da Informação. Fiz ali um semestre, mas não me identifiquei com os estudos e aí acabei mudando de curso.


A formação

Na Educação Física começa toda minha trajetória já no segundo semestre. Eu não tinha anseio de trabalhar com futebol, porque quando a gente viveu muito tempo uma coisa, quando sai não quer retornar tão rápido para isso... Então eu fiz estágio em natação, musculação, ginástica laboral, até eu chegar no futsal. E aí apareceu uma oportunidade já no sétimo semestre e eu peguei uma turma de futsal e fui ser professor.


Não era uma modalidade que eu já tinha trabalhado, mas estudei e meti a cara. Foi aí que apareceu o Instagram e eu postei meu trabalho lá com futsal. E foi da rede social que surgiu a primeira oportunidade no futebol: um rapaz que já me conhecia havia muito tempo (fui atleta do pai dele) me chamou pelo Instagram para a escola de futebol dele para trabalhar.


Isso é outra coisa que eu sempre cito nas minhas palestras: os meninos hoje eles não têm noção de que o Instagram é o currículo deles. Então, eles colocam muito conteúdo que às vezes não é nada propício para o que eles estão almejando. Se eles começarem a usar de forma correta essa ferramenta, ela vai ajudar bastante a galgar um clube maior, até mesmo para a Europa. Todo mundo hoje usa o Instagram como uma ferramenta de pesquisa e de trabalho também.


Hoje essa escola que eu trabalhei é a maior escola de futebol do Distrito Federal e região. É uma escola muito grande, deu um up na minha carreira. Eu comecei lá como estagiário e virei professor até atingir a coordenação da escola. Aí que eu comecei a andar com os scouts, né? Os observadores, os olheiros...Aí eu vi que eu poderia trabalhar nessa área.


Então, eu fui lá, fiz minhas licenças. Fiz a licença C, a certificação oficial de entrada para treinadores de futebol das categorias de base (até sub-11). E aí depois eu fui fazer minha licença B, que é bem mais abrangente. Ela envolve análise de desempenho e a parte técnica de todas as categorias de base. Então fiz os meus estudos e aí comecei a trabalhar parte de network, né?


Hoje essa profissão ela precisa de uma rede de contatos muito grande, porque ela é uma profissão de confiança, né? Porque querendo ou não, o clube tem que confiar em você. No meu caso, só tem eu aqui no Centro-Oeste representando o escudo do clube. Hoje eu trabalho no Coritiba do Paraná e o clube confia em mim para levar esse escudo para vários lugares do Centro-Oeste, do Norte e até Nordeste.


BRUNA: Você disse que começou tentando a carreira de atleta profissional. Como que foi esse processo para você também como atleta? Você já passou por muitas peneiras e até você perceber que não ia dar?

GÉSIOS: Então, acho que hoje a gente vai até entrar num tema que é a diferença daquele meu tempo para esse tempo, né? Antigamente tinham menos olheiros. Eu como morador de Brasília, a gente sempre teve menos oportunidades... a gente tinha que sair daqui e não a oportunidade de vir até nós, que é algo que acontece muito hoje em Brasília.


De scout em Brasília, comigo deve ter uns oito, nove de clube série A e série B. Então tem essa facilidade hoje para eles. No meu tempo não tinha essa facilidade, eu lembro que a gente ia fazer uma peneira e juntavam-se todos os meninos da cidade. Eram 3 mil, 4 mil meninos para uma peneira do Cruzeiro, do Vasco da Gama... E, assim, era bem pouquinho tempo, você jogava 10 minutos ali, se o olheiro viu bom, se não viu... Era chorar ali e depois treinar de novo para tentar ser visto.


Então, naquele tempo não tinham muitas oportunidades e aqui em Brasília a gente sempre foi muito precário em questão dos clubes profissionais. No meu tempo a gente tinha o Gama e o Brasiliense que despontavam. Jogavam Série A, Série B... O clube que eu fui fazer parte das categorias de base, o Ceilândia, estava na Série C, Série D...


Só que não era um clube que te dava janela, não te dava a oportunidade de você pensar assim: “Ah, vou ser profissional porque vai ser um time série A, top, eu vou pra Europa, vou ganhar dinheiro, vou melhorar as condições de vida da minha família”, algo do tipo... E aí eu fui entendendo que eram poucas oportunidades.


E aí eu via muitos amigos que começaram a rodar, esses clubes menores de Série D, clubes sem séries e eu falei: “Ah, não vou sofrer com isso”. Sofrer com o que a gente chama de ser “dublê de jogador”. Aí foi que entrou a decisão também, que minha mãe falou que pagaria a faculdade. Minha região aqui sempre foi muito precária, essa questão profissional. Até hoje é.


Hoje a gente não tem nenhum clube de expressão, o Gama tá sem série, o Brasiliense tá sem série, a gente tem hoje o Capital e o Ceilândia jogando, mas são times que não proporcionam nenhuma estrutura para o menino chegar e falar: “Eu quero ser profissional do Ceilândia porque ele vai me alavancar para os clubes de fora”. Então, isso me atrapalhou, fez com que eu seguisse outros caminhos e assim foi com muitos talentos daqui da cidade.


BRUNA: Interessante esse recorte de região, porque nosso programa fala sobre Mato Grosso do Sul. Então gostaria que você falasse agora sobre como está sendo seu trabalho na região Centro-Oeste. Você disse que melhorou, mas como você vê essa evolução na região?

GÉSIOS: Mato Grosso do Sul é um estado em que eu estive mês passado. Eu fiquei por volta de 17 dias no Mato Grosso do Sul rodando tudo ali. Até para gerar essas oportunidades que realmente não se tem aqui no Centro-Oeste. E aí a gente pode abranger Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal.


Acabei de aprovar mais um do Mato Grosso do Sul, lá de Campo Grande. Tem um aprovado, um garoto de 2016 aprovado da cidade de Bonito. Eu fui em Bonito, é uma história legal. Eu fiz minha programação para o Mato Grosso do Sul. E aí eu coloquei Campo Grande, né? Lógico, a capital. E o dono do projeto de Bonito entrou em contato comigo. E eu pensei: “Será?”. Por que, para nós, Bonito é terra só de turismo. Mas comprei a ideia e fui. Chegando lá, tinham muitos talentos. Meninos de 10, 11 anos. Se eu não me engano, foram seis selecionados para ir até o clube fazer a avaliação.


E eu não imaginava que o filho do dono do projeto é um ex-jogador do Bayern de Munique e virou guia turístico e fazia tradução para o alemão. E, você não vai imaginar que tem lá no meio do Pantanal um ex-jogador do Bayern, entendeu? São as riquezas do nosso país. E ali, ao lado, tem uma cidade chamada Maracajú, com a maior arena de futsal do estado. É lindíssima.


É um povo maravilhoso, muito receptivo, com muito talento lá e precisa ser mais explorado, é uma área que precisa ser bastante explorada, porque tem muito menino bom de bola lá. Muito menino sonhador que quer virar jogador de futebol.


Antes de entrar no processo de observador técnico, eu fiz um estudo que eu computei quantos atletas em 2024 da série A eram dessa região. Para mostrar que essa região ela é muito rica, só que pouco explorada. Entendeu? Foi também um trabalho que me deu visibilidade para os clubes, os coordenadores virem me procurar e conversar sobre isso, de como eu poderia estar ajudando os clubes a explorar mais essas oportunidades para esses garotos.


Nesse estudo a gente mostra, se eu não me engano, que tem mais de 20 atletas na Série A, que são do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Distrito Federal e Goiás. E são atletas super rentáveis, né? Dentre eles, a gente tem o Endrick que é um garoto que foi direto para o Real Madrid e deu muito lucro para o Palmeiras.


Eu sou o primeiro contato desse menino, desse sonho com o profissional de futebol. Então eu carrego essa responsabilidade de ser muito honesto com eles, muito justo. Eu busco atender a todos, não é fácil porque o Centro-Oeste ele é muito grande, mas eu tento oportunizar ao máximo, tento atender todo mundo bem, tento ir na cidade de todo mundo...


BRUNA: Agora eu queria que você falasse um pouco mais sobre como que é a profissão em si, como que ela funciona de fato?

GÉSIOS: Então, o observador técnico, ele é um cara que tem que ter uma relação muito boa, justamente para atingir esses locais menos explorados, né? É um cara que tem que ter muita paciência, tem que ser muito solidário, mas também muito profissional. E aí a gente busca chegar na avaliação, ser o mais honesto possível, principalmente crianças e adolescentes.


A gente vai buscar muitos indicadores de qualidade, né? A nossa avaliação hoje já se inicia a partir do momento que a gente entrou ali no campo, quando os meninos chegam e vão trocar de roupa. A gente já começa a observar se o menino tem uma boa coordenação, se tem equilíbrio, se sabe conversar, se escuta bem os treinadores, se é desinibido, se vai te cumprimentar ou vai olhar pra baixo, tímido...


Então a gente já começa a nossa avaliação toda aí. E aí quando a bola rola, nós vamos buscar aquilo que está na régua hoje do clube. E isso vai variar de clube para clube, né?

Tem clube que gosta do menino mais baixo, que seja mais forte, mais esguio, mais magro, que seja bem alto, mas que tenha talento, né?


Então vem a avaliação técnica, onde vamos entender a relação dele com a bola. Se ele tem um passe bom, se ele tem um domínio bom, se tem uma boa finalização de curta, média, longa distância... A gente vai analisar também a parte mental dele, como é que ele vai agir perdendo e como ele vai agir ganhando... Como ele age no início de um jogo e como age no final.


Então a gente tem que fazer essas análises de forma muito rápida, né? Tudo em 25 minutos. Mas quem realmente vai avaliar se o atleta está pronto para o clube é a comissão técnica. Quando ele for para uma avaliação. O que a gente faz é uma identificação rápida, e aí a gente tem que nivelar pelo que já se tem no clube para saber se esse menino pode atingir coisas boas também dentro do clube.


Mas tem que ser tudo muito responsável, a gente está mexendo com sonhos, né? A gente não pode iludir um menino: “Ah, porque ele é um garoto legal, a gente vai levar ele só porque ele é legal, ou porque ele tem uma condição financeira”... Não, a gente tem que ser o mais justo possível.


BRUNA: Você disse que a avaliação abrange desde comportamento até a parte técnica. Então para vocês não interessa uma habilidade boa com a bola, mas se no psicológico ele está abaixo do que se espera...

GÉSIOS: A técnica é de suma importância. Só que, assim... Muita gente diz que temos muitos jogadores na Série A que não têm uma qualidade técnica tão boa. Mas são jogadores que estão lá. Por quê? É que hoje a gente tem um grande problema com a questão mental. Um menino muito técnico, muito habilidoso, que chega num clube sem preparo mental e começa a ganhar um dinheiro legal aos 16 anos... Ele vai perder a cabeça.


Então, é como eu falei, do lado de fora a gente já tá avaliando, se o menino é mal-educado, se o menino parece que vai dar problema no alojamento, que vai fazer besteira... Ele pode ser muito técnico, mas a gente vai ter que falar para ele mudar suas atitudes porque, assim, não tem como.


E aí o que que acontece muito hoje? Às vezes aquele menino com a técnica mais baixa, mas que é disciplinado, educado, que tem respeito com todo mundo, que entende que ele tem que trabalhar todos os dias para ser um cara melhor, esse cara vai chegar lá na série A e vai jogar. E o que é super talentoso vai ficar pelo caminho, porque ele não gosta de trabalhar, quer ser mais esperto que todo mundo...


BRUNA: Nesses 25 minutos, o olheiro não fica sobrecarregado tendo que prestar atenção nisso tudo em tantas crianças?

GÉSIOS: Eu acredito que dentro da nossa rotina, eu fazer uma visita hoje à tarde em um projeto não vai sobrecarregar. O que pode ser uma sobrecarga é o tamanho da região. A partir do momento que você passa 20 dias em uma região, lá pelo 15º dia sua mente já vai estar estafada. Então você começa a ver pelo em ovo, entendeu?


Eu até falo isso para os meninos mais novos que tão entrando na captação: ter muito cuidado quando pegar essa carga de viagem, porque você começa a errar muito no final dela. Porque você é ser humano, você não é um robô e começa a cansar. Então, aí você começa a ver que está vendo a mais do que o menino te proporciona.


BRUNA: E aí quantos meninos mais ou menos você avalia?

GÉSIOS: Depende de quanto tempo de divulgação. E depende muito do projeto, né? Esse final de semana eu estive em Minas Gerais, em Formiga. É, foi um projeto onde tinham 140 alunos na escolinha. Foram três dias analisando os alunos, e aí foi bom porque eu pude ver muito bem eles, entendeu? Mas há competições em que a gente vai ver 20 jogos no dia, e aí fica um pouco mais maçante, né? Igual eu fui em um projeto famoso de Goiânia, um clube revelador que eu já sabia que ia haver bastante meninos ali. Foram 400, 500 meninos, por aí.


BRUNA: Então os projetos entram em contato pedindo para você ir avaliar os atletas?

GÉSIOS: Isso, mas a gente também procura os projetos, né? Porque às vezes eles têm receio, acham que vão gastar muito dinheiro para levar um observador, sendo que no clube que eu trabalho, é o Coritiba que custeia tudo. Então tem essa facilidade.


BRUNA: Já teve caso de atletas que você não aprovou em uma peneira, mas pensou “vou ficar de olho na próxima”?

GÉSIOS: Sim, sim. Eu particularmente tenho um banco de dados, onde registro todos os meninos que eu pontuei. Gente que eu vi que daqui seis ou oito meses pode estar evoluindo. Eu falo com o professor para saber como ele está, se ele viu que o menino teve evolução, se vale a pena esse garoto ir no clube... Se for um projeto mais próximo de mim aqui, eu vou lá, visito, vejo os jogos, faço um acompanhamento legal e daí a gente vê se já está no nível para ir para o clube.


Hoje eu atuo desde o sub-7 até o sub-20. A grande questão hoje é que, como está tudo muito precoce, um menino de 7 anos, quando chega ali para os 16 já é muito “mercado”. Provavelmente ele não estará mais no projeto. Ele estará rodando em um clube. É quase impossível chegar num projeto e ter um menino de 17 anos que não tenha passagem por clube.


Os clubes estão captando o menino de 7 anos, né? Então quando chega nos 17, eles já têm 10 anos de carreira. Esse é o processo, é o que está acontecendo hoje.


BRUNA: Então, quanto mais cedo conseguir captar um atleta para entrar na categoria de base do próprio clube é melhor?

GÉSIOS: Depende. No Coritiba, nos foi pedido para que déssemos mais atenção para meninos de 13 e 14 anos. Porque é a idade que a lei permite alojar esse menino no clube. A ideia do clube é não forçar famílias a gastarem demais para viver esse sonho com meninos muito novos. Porque o clube não pode dar ajuda financeira diretamente para essa criança, isso seria aliciamento.


Temos duas datas muito importantes na captação, que são os meses de julho e janeiro. Os meses de férias, quando acontecem várias copinhas. São meses que a gente vai em busca dessas competições, para tentar achar alguma coisa que esteja perdida nessas competições. É muito difícil, porque a maioria dos jogadores já está mapeada, mas a gente vai.


Uma coisa que a gente deixa bem claro para quando vai fazer essas avaliações é que a gente não permite cobrança, né? Porque a gente sabe que tem muitos golpes. Tem muito cara que fala: “Ah, eu sou um representante de tal clube, só que para você fazer essa avaliação, você tem que pagar um valor x”. E com a gente não acontece isso. Não pode ter cobrança alguma, se o observador estiver na avaliação e ver que essa avaliação está sendo cobrada, ele tem que ir embora. Porque a gente já tem o nosso salário. A gente não precisa e não tem que pegar dinheiro de ninguém para dar essa oportunidade, entendeu?


Então, até essas divulgações, quando eles postam, a gente já deixa bem claro, né? Não pode colocar que está cobrando, tem que deixar claro que é totalmente gratuita. Uma coisa que a gente sempre permite é que eles arrecadem alimentos. Aí a gente entende que vai ajudar alguém, que é para o próximo, então é uma atitude legal. Mas a gente tem que ter muito cuidado.


BRUNA: E quando o menino é selecionado, o que acontece?

GÉSIOS: Então, ele vai até o clube e deve jogar amistosos, passar por treinos avaliativos, e aí a comissão técnica vai ver como utilizar esse atleta no momento ou se ele ainda não está no nível esperado.


BRUNA: Então, o seu trabalho é o primeiro filtro pelo qual o atleta passa...

GÉSIOS: Isso, isso. Eu sou o primeiro contato desse menino com o clube, dos pais com o clube, então aí a gente vai fazer um agendamento e eu vou acompanhar eles até terminar a semana de avaliação deles. Todas as dúvidas que eles tiverem eu vou ajudar, vou perguntar como estão, tentar deixá-los o mais confortável possível para que seja uma semana de aprendizado. É uma nova cultura, né?


Imagina só, um menino que só fica no calor, chega lá no frio. Como ele se adapta? Ou como se adapta a outro linguajar, outra cultura? Quando eu faço esse agendamento deles, eu envio toda uma listagem com locais que eles podem visitar, os museus de Curitiba, os parques de Curitiba, o próprio estádio para eles irem em jogos, para eles terem uma nova experiência. Então, hoje o que a gente tem de muito positivo é mesmo que esse menino, ele não seja aprovado no clube, a gente recebe muito feedback positivo pela forma como a gente os tratou.


BRUNA: Como é o dia a dia do seu trabalho como scout?

GÉSIOS: No Coritiba, a gente trabalha com uma programação semanal. Um calendário online, onde a gente vai colocar toda a nossa programação. Hoje eu não saí para fazer visita, mas eu já acompanhei jogos online que o nosso coordenador já prédetermina para nós. Então, hoje eu já fiz alguns jogos do Campeonato Paulista para poder fazer esse mapeamento de atletas que podem compor a nossa categoria.


Se hoje eu fiz online, amanhã eu vou fazer uma visita, vou assistir um jogo... Eu tenho essa liberdade de montar a minha programação. Tem clubes que o observador, o coordenador manda toda a programação da forma como ele tem que seguir. No meu caso não, eu monto minha programação e passo tudo para o meu coordenador. Mas o meu dia a dia é bem maleável.


Em viagens também é a mesma coisa, eu monto minha programação, né? Salvo algumas viagens que o clube pré-determina, que aí a gente tem que fazer conforme eles determinarem.


O nosso relatório ele é de indicadores. A gente vai falar: “O menino finaliza bem de longa distância, mas eu não vou precisar colocar no relatório: “Ah, cinco vezes ele bateu de longa distância”. Entendeu? Isso é trabalho de analista. A gente vê que o menino tem um passe para frente, que rompe linhas, mas a gente não vai colocar em números. Embora eu tenha um amigo que junte as duas coisas, na página Fair Scout. O que ele faz é muito parecido com o que os caras fizeram no filme lá do Moneyball. É tudo em cima de números com os indicadores. Eles já são mais cientistas.


BRUNA: E você avalia futsal também?

GÉSIOS: Eu costumo fazer futsal, mas até uma determinada idade, que a gente entende que dá para tentar transferir a qualidade do menino para o campo. Entre os 7 e 12 anos. Passou disso aí já fica um pouco mais difícil. O jogo dentro da quadra é muito mais contato, muito forte... A passada dos meninos fica menor porque o futsal é mais curto, eles ficam fazendo movimentos mais de futsal mesmo. Então, cria-se um vício, né?


BRUNA: O que é preciso para ser scout?

GÉSIOS: Hoje para ser olheiro não tem essa necessidade de o cara ser formado, ter uma licença... é uma profissão de confiança. Então, se um coordenador lá em cima confia que o cara tem bons olhos, pode ser que ele seja contratado. E pode ser que o cara que fez várias licenças não tenha bom olho e nem bom networking. Aí é o embate dos acadêmicos com os ex-atletas, né? Então, até dentro da licença tem muito essa discussão e eu sempre fui a favor do ex-atleta acadêmico ou acadêmico que consegue praticar o esporte. Entendeu?


Também não sou radical de falar: “Ah, tem que ser só ex-atleta”, porque eu estaria sendo contrário, mas também não sou radical de falar só acadêmico. Porque eu entendo também que o acadêmico tem que saber bater numa bola - para você exemplificar alguma coisa, entendeu? Mas hoje e realmente na profissão assim, de observador técnico olheiro, não precisa ter licença, não precisa ser graduado em educação física.


Como eu não tinha relações no futebol, eu sabia que precisaria estudar e me capacitar. Na minha licença tinha o Fred, tinha o Thiago Neves, tinha o Volpato, tinha o Gilberto que estava no Flamengo, que jogou Copa do Mundo... então são caras assim que vão te dar bagagem, entendeu? Até porque eu sempre sou questionado se eu joguei bola. E aí sempre que eu falo que não fui profissional, o olhar da pessoa já muda.


Só que aí, que a gente falou lá no início, é a questão de um Instagram. Quando a pessoa entra no meu Instagram e vê lá que eu fiz o curso com tal pessoa, ela já te dá outro respaldo. Então, querendo ou não, a gente vive num mundo aonde as pessoas vão querer te qualificar pelo que você fez ou por quem você anda.


BRUNA: Você disse que tem as licenças C e B. Já pensou em fazer a A?

GÉSIOS: Eu poderia, mas entendo que no momento para mim não é legal. Não tem uma margem de crescimento, porque eu não tenho a ideia de trabalhar no profissional dos clubes, minha ideia é continuar na categoria de base. E para cá, para Brasília, ela não ia me abranger em nada. Seria um investimento alto, sem retorno.


BRUNA: E agora para a gente encaminhar para o final, queria que você falasse um pouco sobre como você viu a mudança da profissão de scout nos últimos anos.

GÉSIOS: Ela tem mudado bastante, né? Os clubes estão entendendo que a captação é uma forma muito boa de você trazer lucro para dentro do seu clube. A grande mudança igual eu falei é a questão dos mais novos que estão chegando. A gente está numa geração agora aonde tudo acontece aqui no celular e, assim, os mais velhos ainda têm muita dificuldade com isso. Então a gente pode ensinar muita coisa para eles de tecnologia e a gente, como captador, pode entender como eles faziam para achar tantos jogadores bons e tão rápido. Vendo coisas que, às vezes, você não pegou.


Nesse último final de semana eu estava com o Balu. Balu é um ex-jogador, foi bola de prata, tudo. Ex-jogador do Cruzeiro, da Portuguesa Santista, jogou fora, tudo. Então é um cara que foi top e hoje é um captador. E aí você entra com o cara, você só escuta, porque ele viveu tudo no futebol e não pode ser simplesmente deixado de lado, entendeu? E ele falava: “Cara, mas você não tá anotando nada!”, só que eu estava anotando no celular e ele ainda no caderninho. Ainda assim, eu busco sempre ouvir os mais velhos. Vão ter novas ferramentas, o computador vai vir ajudar muito, mas não vai substituir o olho humano, não tem como.



 
 
 

Comentários


bottom of page