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Roteiro - Falta. Episodio 1



- Paisagem sonora Chácara


ANDRIOLLI

Engraçado que desde que eu me recordo, para mim você sempre foi professor. Então, para mim, era difícil pensar: “por que meu pai que é um intelectual quer que eu não seja um intelectual, quer que eu seja um jogador de bola”? Eu achava engraçado. Eu não entendia...


PAI

Eu achava. Bom, lógico, o que pensa um homem da roça naquele tempo e que sai para jogar futebol? Que o filho dele fosse um jogador de futebol por causa do DNA que tinha. Era normal pensar isso. É porque eu achava que estava no meu DNA, e que você era... você era isso. E você teria essa... Bom, seria o que eu não fui.


- Som de apito

- Som de bola quicando



Trilha: Martin Baekkevold - Absent


NARRADOR

Futebol. A paixão nacional... é o que dizem. Um dos elementos que, conforme o ditado, não se discute - junto com Política e Religião. Mas em tempos de redes sociais, você há de convir, este mote não parece estar sendo seguido.


O que é realmente inquestionável é a onipresença do futebol na vida do brasileiro. E eu não estou falando necessariamente de torcida. Morando no Rio de Janeiro - e ao lado do estádio do Maracanã - já há três anos, eu pude ver isso na prática.


Futebol para a cidade, muda a direção do trânsito, altera a estrutura do transporte público. E na própria universidade as aulas volta e meia são canceladas quando um jogo mais… intenso acaba sendo agendado. Gostar ou não, é indiferente.


- Som de torcida


Existem ainda as transformações mais subjetivas: futebol muda vidas, inspira histórias, constrói identidades.


- Som de corrida na grama

- Som de bola correndo


NARRADOR

Tem gente, inclusive, que carrega realmente futebol na identidade. E isso não é uma metáfora.


- Som de rádio


ACERVO GE

Quando eu fui lá o pessoal chamou geral. “Ah, vou registrar o Gabigol”. E eles ficaram nessa: “Pô, não é Gabriel, não?”. E eu: “Não, é Gabigol! Gabriel é um nome normal. Para ficar marcado, eu falei: “É Gabigol que eu quero!”.


REPÓRTER

Só que essa história é diferente, por que a Fernanda e o Vitor não têm só um filho. Apresentando o time: Shevchenko, Petkovic, Arrascaeta, Gabigol e por último, Neymar!


NARRADOR

Eu também sou um deles. Meu nome é Andriolli. Parece sobrenome, eu sei, mas é meu nome. Andriolli de Brites da Costa. Ao longo dos anos, sempre que eu me apresento, as pessoas costumam perguntar se é meu nome de família. Como o “Felipe Andrioli”? Elas perguntam.


- Som de corrida


NARRADOR

Para alguns, ex-CQC e do Globo Esporte. Para outros, o homônimo, que é baixista da banda de metal melódico Angra. Depende do referencial.


- Som de baixo


NARRADOR

Mas não, não é nada disso. Meu pai, tricolor de coração, se inspirou no sobrenome de um meia que jogou no Fluminense entre mil novecentos e oitenta e seis e oitenta e nove - justamente o ano em que nasci. Paulo Henrique Andrioli, o Paulinho Andrioli - a depender da fase da carreira.


- Som de rádio


ACERVO FLUMINENSE

Vai tentar mais uma vez o time do Fluminense. Edinho olhou, cabeceou, não se deu bem no lançamento. Mas Andrioli se deu bem na sobra, hein? A falta aconteceu do jogador João Marcelo. É a pressão do time do Fluminense que está ganhando o jogo por um tento a zero. Cobrança do Andrioli, a bola tocada de longe e é gol! Goooooool do Fluminense!


NARRADOR

Eu nasci em Mato Grosso do Sul, no Centro-Oeste do Brasil, e, a bem da verdade, o time carioca nunca foi dos mais notórios da região. Por isso, demorei mais de 30 anos de vida para escutar, pela primeira vez, um sinal de reconhecimento.


- Som de sinal


NARRADOR

Eu sempre ouvi essa história, mas, sinceramente, ela nunca foi mais do que isso pra mim: uma anedota. Mais uma das estratégias do meu pai para me fazer gostar de futebol.


ANDRIOLLI

Eu cheguei a gostar em algum momento, você lembra de eu brincar, feliz?


SONORA MÃE

Nem uma vez. Nunca se interessou.


NARRADOR

Essa é minha mãe. Alda Maria Ferreira de Brites. Ela e meu pai, Edgar Aparecido da Costa, foram casados até os meus dez anos de idade.


ANDRIOLLI

Eu lembro de uma vez que era pra brincar de gol e meu pai tava chutando a bola pra eu pegar. Aí eu sentei no chão e falei “vai, chuta pai!”. E ele “Não, assim não tem graça, assim você não tá brincando!”. E eu “Não é pra eu pegar? Vai, chuta…”. Desanimado.


SONORA MÃE

Desanimado, na marra ali. Ah, não, Andriolli…


- Trilha Jon Bjork: An Abyss of Sadness


NARRADOR

Eu perdi a conta de quantas bolas de futebol eu recebi de presente. Quantas camisetas de time. Quantos olhares de decepção quando eu não demonstrava nenhuma habilidade com os pés. Para a tristeza de meu pai, no entanto, o amor esperado pelo esporte nunca veio.


Não. É mais do que isso. Porque, se para muitos, futebol é sinônimo de euforia, de esperança, ou até de nostalgia, pra mim sempre foi outra coisa. Futebol era sinônimo de… solidão.


Este é o Falta, um podcast sobre ausências. Um programa que não é sobre futebol… mas talvez seja. Vou deixar você decidir.


Episódio um: Meu Filho Vai Ter Nome de Craque


— Paisagem sonora: Campinho


NARRADOR

Eu me lembro de me ver criança em um campinho de futebol. Qual campinho? Não sei. Talvez no Tiradentes, bairro da capital do estado perto de onde a gente morava. Talvez em Terenos, cidade dos meus avós, a cem quilômetros de Campo Grande… Ou em qualquer outro lugar. Nas memórias de infância, tudo parece igual. As quadras, os rostos, as crianças… não guardo quase nada. É um borrão que só me passa sensações, e não das melhores.


Também não sei ao certo quantos anos eu tinha quando comecei a acompanhar meu pai nos jogos, mas eu sei quando parei. Eu já devia ter uns onze anos de idade, talvez doze, e precisei usar toda a coragem acumulada da minha terceira passagem pela terapia para dizer: eu não quero mais.


- Som de carro

- Som de freio


NARRADOR

As coisas vêm em flashes na minha cabeça. Lembro de atividades no contraturno escolar: peças de teatro, seminários, provas tipo simulados... Os pais dos meus colegas vinham um depois do outro buscar seus filhos na portaria. Restava eu.


- Som de porta abrindo


NARRADOR

Sempre. Só eu, o porteiro e meus pensamentos.


- Som de porta fechando


NARRADOR

O jogo tinha hora pra acabar, eu sabia, mas nunca era só o jogo.


- Trilha: “Martin Baekkevold : Absent”

- Som de garrafa


NARRADOR

Era a “resenha depois”, a cervejinha, o comentar com os amigos - relembrando cena a cena a partida recém-finalizada. Todas as distrações que não incluíam, ou pareciam não incluir, um filho.


Mas será que eu estou lembrando disso direito? Uma coisa que eu aprendi ao longo dos anos ouvindo pessoas é duvidar de tudo, inclusive de mim mesmo. Talvez não fosse tão ruim assim, talvez eu que esteja lembrando só de uma parte da história. Então, para conseguir montar corretamente o panorama desse acontecimento, eu fui conversar com as únicas testemunhas que eu tenho certeza que estiveram ali comigo. Minha família:


ANDRIOLLI

Então talvez tenha sido o Baixinho. Eu achava que você que tinha visto quando os filhos dos outros jogadores estavam me sacaneando, me batendo.


SONORA TIO DIMÁ

Era o Baixinho que pegava essa parte. Eu ficava assistindo, mas você ficava sempre perto de mim, então se fosse os moleque te bater, eu não ia deixar, né? Porque eu tava ali cuidando. Agora o Baixinho e ele largavam você para lá...


NARRADOR

Esse é meu tio. Edmar Almeida da Costa. O Tio Dimá, como aprendi desde criança.


SONORA TIO DIMÁ

O Baixinho saia demais com ele e levava vocês. Só que o Baixinho jogava também. E jogava no time dele, ai você ficava lá largado. (risos). Então o Baixinho fez parte dessa malvadeza.


NARRADOR

Baixinho é o apelido de um velho amigo da família. Que sempre acompanhou meu pai em suas aventuras. Eu não me lembro, necessariamente, dele ficar cuidando de mim. Mas também, como eu disse, lembro de muito pouco.


ANDRIOLLI

Uma das que eu lembro, tio. Um dia um menino chegou assim: “Ô, baixinho, baixinho... deixa eu te contar um segredo”. Aí chegava no meu ouvido e fazia “BLURP”. E eu “Ai, para com isso…” (risos)


- Som de bola


BRUNA

Mas você não lembra de acompanhar nada com seu pai de futebol naquela época?


ANDRIOLLI

Acompanhar você diz ver TV?


BRUNA

É, ver TV, ter memória dele falando de futebol, te incentivando a gostar?


ANDRIOLLI

Só lembro, né? Minha infância inteira foi isso…


NARRADOR

Aqui eu estou falando com a Bruna. Bruna Sebollela, bolsista do Lunar e produtora deste podcast.


ANDRIOLLI

Eu e minha irmã, né? Uma casa que tinha muito adulto, pouco convívio com criança, então a gente ficava muito ensimesmado. Então, os adultos se juntavam, iam fazer campeonato de truco e ficavam horas ali bebendo e gritando. Azar das crianças. Para vocês, da geração mais nova, isso não faz mais tanto sentido, mas para mim o domingo para quem não tinha cabo, só tinha TV aberta, era Faustão, Gugu... Eram horas infinitas de nada acontecendo na sua vida. E dia de jogo era isso. Eram horas de espera pra ir embora.


NARRADOR

Uma pergunta que a Bruna me fez talvez muita gente já tenha se feito também. Mas se o futebol era inevitável, por que eu não tentei aproveitar? Entrar na brincadeira. Bom, é claro que eu tentei. Eu tinha que fazer alguma coisa com aquelas bolas que eu volta e meia ganhava do meu pai, não é verdade?


- Som de intervalo

- Paisagem sonora: escola


NARRADOR

Até o ensino médio eu sempre havia estudado de tarde. E todo dia, tínhamos aqueles 15, 20 minutos de intervalo. Fazia o típico sol do centro-oeste, uma lua para cada um, mas os meninos sempre corriam para a quadra aproveitar cada um dos instantes de liberdade.


- Som de bola


NARRADOR

Depois, voltavam todos suados, fedendo, bola manchando o uniforme. Eu gostava da sala de aula, mas precisava me enturmar, então virei o clássico “dono da bola”. Eu que levava, então tinha que ser escolhido, mesmo tendo claramente dois pés esquerdos e não levando jeito nenhum pra coisa.


SONORA TIO DIMÁ

A gente treinava você pra goleiro aqui no meio da granja. Não sei se você lembra.


ANDRIOLLI

Ah, é? Aquele que vocês jogavam futevôlei?


SONORA TIO DIMÁ

É, tinha um campinho no meio da granja e a gente ficava treinando você ali para ver se você catava alguma coisa e você não catava nada, cara. Mas a gente tentava incentivar para ver se você gostava e ele principalmente. Porque na linha não tinha jeito. Aí queria ver se de repente você dava um goleiro. Porque ele era um bom goleiro, né? Um excelente goleiro, um dos melhores goleiros aqui da região, até hoje o pessoal lembra dele. Então tinha uma esperança de que você honrasse ali, pegasse algumas bolas aí… Por outro lado, você não falava para nós, mas você tava ali, forçado, querendo... Como é que se diz? Agradar ele, né? Você queria agradar ele de alguma maneira… para ver se ele te elogiava. E muitas das vezes ele tentava elogiar, mas esse elogio às vezes não vinha…


Trilha: Piper Ezz - Lost in your arms


NARRADOR

Eu desisti da bola. Desisti de tentar. Pelo menos eu acho. Quantas vezes você já se sentiu assim também? Quantas vezes tentou fazer algo para ser reconhecido por alguém? E o que aconteceu quando você também desistiu? Esse é o mote deste programa. No meu caso, a falta de relação com o futebol também se refletiu na minha relação… com meu pai. Uma relação que por muitos anos carregou o peso dessas expectativas não cumpridas. E veja, isso é uma coisa sutil. Não estou dizendo que eu detestava meu pai ou que nossa relação era marcada por algum tipo de toxicidade. Não, eu sempre o admirei. Tanto é que hoje temos a mesma carreira. Somos ambos professores universitários. Mas com o passar dos anos, essas ausências nunca preenchidas foram criando mais e mais distância. Falar com meu pai, depois que eu saí de casa, virou quase uma conversa de trabalho: quantos artigos publicados, como eram os alunos, coisas assim… Parecia que sempre faltava alguma coisa.


Revisitando essas lembranças, levei o tema para o melhor divã possível: a mesa de bar.


SONORA TARCIZO

Essa é uma forma de você lidar com a falta estrutural. Mas é importante você saber o seguinte: a falta ela não é uma deficiência do sujeito. Não é assim “ah, você é um frustrado”. Você não concluiu aquilo que você queria concluir, então você é um fracassado. Não é essa ideia meritocrática que a gente vende hoje, pelo contrário.


NARRADOR

Esse é meu amigo, Tarcizo Ferreira, que além de bacharel em Filosofia formado pela UERJ, atua também como terapeuta. Nessa conversa, ele está falando sobre Jacques Lacan, psicanalista francês que viveu entre mil novecentos e um e mil novecentos e oitenta e um.


SONORA TARCIZO

Essa ideia de que você não parte de uma completude que você precisa recuperar, que é uma ideia de Freud… Freud vai falar da experiência primordial de satisfação. A primeira mamada. Você dá a primeira mamada e você mata sua fome, e você quer recuperar essa sensação de matar a fome. Lacan vai dizer não: em primeiro lugar vem a falta. Pra todo mundo. Como você lida com esse vazio é que vai dizer que você é.


ANDRIOLLI

Porra…


- Som de apito


NARRADOR

A ideia da falta, na obra lacaniana, é também o que leva a outro problema: a repetição. Tentar agradar, cumprir o que os outros esperam, faz parte desse processo. Desistir, simplesmente, é deixar o problema de canto, mas ele ainda está lá.


“Rompe-se a repetição ao tocar o real que a sustenta”, diz Lacan. Este programa é isso: uma tentativa de tocar aquilo que por tanto tempo eu não consegui, ou mesmo evitei. Quem sabe assim, você possa aceitar esse convite e tentar também.


- Canto de torcida


NARRADOR

Para continuar nessa jornada, uma pessoa precisaria topar primeiro.


SONORA PAI

O que você tá inventando, filhão?


ANDRIOLLI

Eu vou te contar um briefing que eu fiz pros alunos e vou gravar sua reação.


SONORA PAI

Você tá de brincadeira…


NARRADOR

Eu encontrei meu pai em um quarto de hotel em São Paulo, durante uma breve viagem em 2024.


ANDRIOLLI

Todo começo de semestre eu peço para os alunos se apresentarem e dizerem o nome e por que receberam o nome. E eu falo assim: todo mundo tem a primeira história para contar e ela começa com o seu nome. Por que você recebeu esse nome? Depois que todo mundo fala, eu falo o meu. Que eu recebi por causa do…


SONORA PAI

Andriolli! Jogador do Fluminense.


NARRADOR

Ele é um homem bem alto, maior do que eu. Deve ter mais de um metro e noventa. Não é por acaso que começou no futebol jogando no gol.


ANDRIOLLI

Disso eu vou derivando no brainstorming do nada. E aí eu falo pros alunos assim: imagine que eu fosse fazer um podcast narrativo documental por exemplo em que eu resolvo ir atrás do Paulo Andrioli e depois gravar o trajeto até eu
































chegar lá? E depois sentar e conversar com ele?


NARRADOR

Os cabelos já rareiam, mas estão grisalhos, denotando seus quase sessenta anos. Os olhos são verdes, e ficam bem clarinhos quando ele se emociona.


ANDRIOLLI

E aí eu parei e falei assim: na real, isso é uma boa ideia! Porque aí eu posso aproveitar e conversar com meu pai sobre futebol e todas aquelas experiências que, na minha infância foram daquele jeito, né?


NARRADOR

“Daquele jeito”. É… foi o que consegui.


ANDRIOLLI

O que você acha da ideia?


SONORA PAI

Eu acho a ideia fantástica. Até porque às vezes as pessoas dão certo no futebol e às vezes não. (...) e às vezes você não dá certo no futebol, e dá certo em outras profissões… Como é o caso de você e de mim… Futebol não resume tudo… E você chega na onde nem imaginou chegar. E não significa que uma ideia original é a melhor. Nunca significou.


NARRADOR

Pronto. Meu pai aceitou. Mas eu não conseguiria fazer esse percurso sozinho. Então convidei um outro amigo, Thales Martins, para caminhar comigo.


SONORA THALES

Eu sou Thales Martins, sou jornalista. Eu sou torcedor do Fluminense… Esse é neófito, ele é novato…


NARRADOR

Thales é aquele que havia reconhecido o nome de craque na minha identidade.


Trilha Jon Bjork: An Abyss of Sadness


ACERVO FLUMINENSE

Vamos aos quarenta e cinco. Zero a zero. Vai acabar. Fluminense fica fora com o resultado. Estava impedido o Adílio, o Aldo foi lá. Partiu Assis, penetrando Washington, ainda o Assis, chegou na frente do Raul, tocou. Gooooool! Aos quarenta e cinco…


NARRADOR

O pai do Thales, Luiz Henrique Martins Monteiro, era um notório torcedor do time do bairro das Laranjeiras.Em mil novecentos e oitenta e três, o Flu conquistou o campeonato carioca, após um clássico contra o Flamengo. Segundo o site do time, foi este o início de uma era histórica para o tricolor. A comemoração foi tanta que o próprio estádio se converteu em palco para a festa da torcida.


ACERVO FLUMINENSE

E aí, Washington? No finalzinho, o Fluminense faturou e agora está numa condição que pode ser campeão até domingo. - Ah, graças a Deus. Isso tudo é fruto do trabalho que nós realizamos e em trinta segundos…


NARRADOR

O pai do Thales estava presente, fazendo parte de mais esta conquista do time. Infelizmente, naquela mesma noite, ele não voltaria para casa. Ele foi encontrado sem o relógio, com suspeita de latrocínio. Nunca houve investigação maior sobre isso.


Thales tinha tudo para odiar futebol, aquilo que indiretamente levou seu pai, mas foi bem o contrário. Ele encontrou na paixão pelo time o grande laço para manter os dois juntos.


SONORA THALES

Isso é uma coisa que eu aprendi, por ter perdido o pai muito pequeno, Uma vez eu falei para minha terapeuta sobre a ausência do meu pai na minha vida. Aí ela falou: “Você tem certeza que ele é ausente”? Porque você só fala dele. É tipo, é uma presença vazia, uma sombra, mas tá ali. Sabe? Então, assim, um pai ou uma mãe agressiva é presente, mesmo que seja de uma forma escrota. E você fica sonhando com uma outra forma que as coisas aconteçam. Você quer que seja de outro jeito. Você fica idealizando situações...


NARRADOR

Eu conheci o Thales quando ele participava de um dos mais antigos podcasts do Brasil, o Melhores do Mundo. E uma coisa que o pessoal do programa sempre brincava era sobre o quanto ele ficava chateado quando debochavam do Fluminense. Parecia só mais uma curiosidade, um temperamento difícil. Qualquer piada sobre o time e Thales desconectava da chamada, saía do programa no meio. Depois eu entendi. Não era só sobre o time. Nunca foi.


ANDRIOLLi

Para encerrar, então, Thales. O que te faz falta?


SONORA THALES

O que me faz falta? Meu pai faz falta. Por mais que eu não saiba como fosse ser, eu tenho certeza que vou morrer e vou pensar... vou estar sempre tentando descobrir como teria sido se ele tivesse ficado vivo. Não vou... Dificilmente eu vou me desvencilhar disso. Como teria sido se ele não tivesse morrido quando eu tinha três anos de idade. Ah, teria sido melhor, teria sido pior? Não tem como saber. Seria diferente, com certeza. E eu vou morrer com essa dúvida. Essa é uma dúvida impossível de ser resolvida, mas não tem resposta. E eu não vou nunca ficar satisfeito com essa falta de resposta. Vou ser eternamente frustrado. Vou morrer frustrado com isso… Caralho eu tenho que mandar isso pra minha terapeuta.


- Som de apito.


NARRADOR

Isso tudo é Falta. É mais do que ausência, é a incerteza, a indefinição. É a declaração de amor nunca dita, o sonho nunca concretizado, o gesto carinhoso que nunca veio. Talvez você já tenha sentido isso, e não estamos falando apenas de futebol. E, é claro, não apenas sobre a relação de um pai com seu filho.


ANDRIOLLI

Quando você casou com meu pai, ele ainda jogava muito bola?


SONORA MÃE

Ah, ele jogava bastante bola


ANDRIOLLI

Aonde?


SONORA MÃE

Ah, nesses campinhos aí na volta.


ANDRIOLLI

E você ia junto?


SONORA MÃE

Algumas vezes…


NARRADOR

Essa é minha mãe, Alda Maria. Nascida em mil novecentos e sessenta e um, é a mais nova de outros dez irmãos. Praticamente um time de futebol. Esporte que, assim como eu, ela até tentou gostar. Não deu muito certo.


ANDRIOLLI

O que você lembra do jogo?


SONORA MÃE

Vocês pequenos. Eu não lembro nada. Ficava lá assistindo, porque eu não entendo nada de jogo… E ficava lá, olhando.


ANDRIOLLI

Você gosta de futebol?


SONORA MÃE

Não. Não gosto. Nem quando aparece o Brasil aí, nem assisto.


NARRADOR

Na verdade, o futebol era mais um dos motivos de atrito entre o casal. Meu pai era muito novo quando eu nasci, tinha vinte e três para vinte e quatro anos, e o seu fim de semana era basicamente sair para as peladas com os amigos. Minha mãe, já na casa dos trinta, tinha outras prioridades.


SONORA MÃE

Uma vez, tinha campeonato, aí precisava pagar a quadra. E aí seu pai vai e paga. Ninguém tinha dinheiro para pagar essa quadra. Aí seu pai vai e paga essa quadra. Quando eu fiquei sabendo, aí fiquei brava. Ele falou “Ah, então vai lá, cobra dele lá, porque ele falou que vai me devolver”.


ANDRIOLLI

Por que você ficou brava?


SONORA MÃE

Porque a gente não tinha dinheiro, nem para comprar gás a gente tinha. Aí peguei e liguei para ele… Aí ele falou: “Ah, mas como já tinha corrido o jogo, ele não tava nem aí mais, né?” Ele falou assim: “Ah, eu vou ver aqui”. Ele falou. E eu “Não, a gente não tem nem gás, nosso gás tá acabando”. Eu fiz aquele drama, mas nem tchum…. Ninguém se sensibilizou comigo. Você acredita em uma coisa dessas? Aí ficou por isso mesmo, mas fiquei com tanta raiva, tirando da gente para dar para um negócio de jogo. Pagar uma quadra!


NARRADOR

Era quase uma obsessão. Hoje me parece bem uma coisa do homem dos anos noventa: o fim de semana sagrado após a semana inteira de trabalho. Sem família, sem preocupações. Mas a família estava lá, e acabava pagando o preço. Por exemplo. Uma coisa que minha mãe e eu nos lembramos sempre, mas os detalhes escapam, é a famosa história da pipoca.


SONORA KIVIA

Eu lembro um dia que minha mãe deu pipoca pra gente comer no carro e a gente tava indo… tava só eu, você e meu pai pra algum jogo. E você falou “tô passando mal, tô passando mal!”. Meu pai não conseguiu parar o carro e você vomitou tudo no carro. Porque a gente não tinha comido nada. Depois a gente foi conversar com a minha mãe, mais velho, e ela falou que a gente não tinha nada no estômago, era só pipoca mesmo.


ANDRIOLLI

E você lembra o que aconteceu depois?


SONORA KIVIA

Você foi no banco da frente e me deixou com seu vômito lá atrás!


- Som de baixo


NARRADOR

Aqui sou eu contando para a Bruna como me lembro:


ANDRIOLLI

Ficou com nojo, Bruna? (risos). Aí meu pai tocou para o jogo e me deixou assistindo junto com as outras crianças, os filhos dos outros jogadores de futebol, só de cueca. E eu lembro que eu não devia mais ser tão novo assim, porque eu sabia que eu não devia estar de cueca ali no meio daquelas crianças. Aí estava todo mundo me encarando, olhava para mim, aquelas meninas assim filhas dos outros jogadores, assim: “por que você está de cueca aqui?”. “Ah passei mal, não sei o que…” Então, além do tédio, é vergonha, né? Uma vergonha gigantesca, não sabia onde enfiar minha cara…


- Som de rádio


ACERVO COPA 2002

Bem amigos da Rede Globo, falamos ao vivo do estádio de Yokohama, no Japão. Tá chegando a hora. Prepare o seu coração…


Trilha: Piper Ezz - Lost in your arms


NARRADOR

Outra cena que me vem à cabeça remete a dois mil e dois, quando tivemos a Copa do Mundo no Japão e Coreia do Sul. Não sei se você se lembra, mas no Brasil inteiro aquilo foi um evento: mesmo quem não gostava de futebol se sentia na obrigação de colocar o despertador para as duas, três da manhã para acompanhar os jogos da seleção.


Meus pais já não estavam juntos, então eu e minha mãe acordamos para assistir. Só que qualquer comentário que ela fazia do jogo, eu discordava. Afinal, no alto dos meus doze anos de idade, mesmo odiando futebol, achava que sabia de tudo. A reação da minha mãe me impactou mais do que qualquer resposta. Ela simplesmente se calou. Assistiu o jogo até o final em silêncio. Depois, parou de acordar cedo. Acho que essa era a sua maneira de evitar conflitos.


Acho que por muito tempo eu me vi assim também. Todas essas histórias me marcaram e magoaram, mas talvez nunca tenha dito isso com todas as palavras. Nem para mim mesmo. Esse podcast pode ser uma maneira de responder de outro jeito. Enfrentar essa falta de comunicação.


E foi só quando comecei a fazer esse programa, e realmente parar para escutar algumas pessoas, que eu consegui ter a dimensão de quanta peça faltava nesse quebra-cabeças familiar.


SONORA KIVIA

Eu lembro, quando a gente era criança eu sempre fui mais próxima do meu pai e essas coisas de homem, vamos falar assim, eu que tava sempre do lado dele, tipo, meu pai me ensinou a trocar pneu de carro. Aham. Ele me ensinou a acender a churrasqueira, tanto é que depois que meu pai separou, quem fez todos os churrasco de casa sempre fui eu.


ANDRIOLLI

Fazia daquele jeito, né? É. Largava lá assando…


SONORA KIVIA

Ah, mas eu sempre fui eu.


ANDRIOLLI

E eu não sei trocar pneu, eu não sei nem dirigir.


SONORA KIVIA

Então... E meu pai tentou te ensinar aqui.


ANDRIOLLI

Uma vez. Só que aí a ex-mulher dele me esculachou e meu pai nunca mais…






























NARRADOR

Essa é minha irmã. Kivia. Kivia de Brites da Costa. O nome dela também foi escolhido pelo meu pai. Segundo o último censo, há mais de 2 mil Kívias pelo Brasil, com ou sem acento. Andreoli, com “E”, são 27. Com “I” e dois “Ls”, só eu.


ANDRIOLLI

E você torce pra algum time?


SONORA KIVIA

Não. Já torci muito pro Corinthians na época do Dentinho, Mano Menezes, acompanhava tudo. E depois eu fui parando, foi um surto assim, como diz, e aí passou. Hoje eu torço pro Corinthians perder, porque meu ex torce pro Corinthians e eu tenho certeza que ele vai ficar puto…


NARRADOR

Minha irmã é três anos mais nova do que eu e, por isso, não me lembro de muitos diálogos de nossa infância que não tenham sido apenas ofensas. Gravando com ela eu descobri, por exemplo, que ela estudou em outra escola durante um ano inteiro e eu nem percebi. Mas a maior descoberta mesmo foi quando ela me disse que jogar bola não era apenas o grande prazer do meu pai. Era um sonho.


SONORA KIVIA

Mas é um sonho dele, né? Que eu, o dia que ele conversou comigo sobre isso, ele falou sério assim: “Sempre foi meu sonho ser jogador de futebol”. Eu quase comecei a rir, porque eu achei que era piada.


ANDRIOLLI

Dele?


SONORA KIVIA

É, ele queria ser jogador. E eu achei que era brincadeira, porque no nosso mundo, nunca...


NARRADOR

Descobrir isso mudou tudo. Foi como se finalmente eu tivesse entendido o tamanho dessa história. Porque junto com cada bola, cada uniforme dado de presente, ele me oferecia também o seu sonho. Um sonho nunca realizado, que eu sempre recusei.


E veja, eu não acho que eu deveria ter aceitado. O sonho era dele, não meu. E, talvez, seja justamente essa projeção que fez nossa relação se tornar o que é hoje. As expectativas não cumpridas se converteram em falta. Em algo que não tinha como ser preenchido da maneira que se esperava.


De repente, eu me vi querendo olhar para esse sentimento e entender como tudo isso começou. Então, se é para começar do início, o melhor jeito talvez seja voltar para a origem de tudo. No meu caso, daquele jogador cujo sobrenome eu herdei.


ANDRIOLLI

E o Paulo Andrioli? Você sabe onde ele está hoje em dia?


SONORA PAI

Não tenho ideia… Não tenho ideia.


NARRADOR

Então eu fui atrás. Mas a continuação dessa história você só vai descobrir nos nossos próximos episódios.


Trilha: Hino do Fluminense - MC Gorila

Sou Tricolor de coração

Sou do clube tantas vezes campeão / Fascina pela sua disciplina, o Fluminense me domina /Eu tenho amor ao Tricolor


Salve o querido pavilhão Das três cores que traduzem tradição /A paz, a esperança e o vigor, unido e forte pelo esporte / Eu sou é Tricolor


NARRADOR

Falta é uma produção original do Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ, o Lunar. A apresentação e edição foram feitas por mim, Andriolli Costa. Bruna Sebollela faz a produção do programa, e também auxilia no roteiro. Agradecimentos especiais a Thales Martins e a todos os membros da minha família, que aceitaram conversar conosco para este programa.


Saiba mais sobre estes e outros projetos do Lunar acessando www.podcastnarrativo.com.br . Lá você encontra também fotos da produção de cada um dos episódios de Falta, incluindo uma foto minha, criança, que mostra claramente toda minha paixão por futebol.


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Um abraço e até a próxima!

 
 
 

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