Roteiro - Falta. Episodio 3
- Andriolli Costa
- 13 de jul.
- 28 min de leitura

- Paisagem sonora Chácara
PAI
Então era muito raro aquilo... e pênalti eu pegava todos os pênaltis. De cinco pênaltis eu pegava três, quatro. Era normal para mim. Mas não seria... não teria futuro naquele tempo, casado ou descasado, ou jovem ou solteiro... não teria futuro. Porque não tinha gente para olhar. Não tinha gente. Então não. Não me arrependo nem um pouquinho disso.
Acho que a vida apontou outros caminhos que eu não esperava, mas que foram caminhos muito brilhantes, muito interessantes... Como eu ia pensar que eu ia ser um diretor de universidade, né? Como? Jamais eu pensei isso, né? São conquistas mesmo que a vida traz para a gente. E fora do caminho que você sonhou, né?
Eu não me arrependo. Não... Pensei muito sobre isso. Não me arrependo. Acho que eu teria tido chance sim se tivessem me olhado quando eu era moleque, 17, 18 anos, né? Que eu já era bom. E se eu tivesse sido treinado, eu seria muito melhor ainda, né? Mas não era o tempo. Não era o meu tempo.
- Som de apito
- Som de bola quicando
Trilha: Martin Baekkevold - Absent
NARRADOR
Chegamos ao nosso episódio derradeiro. O apito final já está se aproximando. No entanto, o podcast, assim como o futebol, é uma caixinha de surpresas. E quando a bola finalmente sobra, livre, na sua frente... você tem que chutar.
Ao longo destes três episódios, pudemos entender um pouco mais sobre esse personagem tão complexo: meu pai. Um professor universitário, nascido no interior de Mato Grosso do Sul, que sonhou em ser jogador de futebol. E que, de alguma forma, projetou esse sonho no seu único filho. Filho homem, como lembra minha irmã, a Kívia.
Sonora Kivia
As vezes se meu pai tivesse dedicado a mim jogar futebol, ou alguma coisa assim nesse sentido, eu teria.. Não uma jogadora de futebol, acho que jamais passaria na minha cabeça. Era o sonho do meu pai, né? Mas eu teria pelo menos, ido numa escolinha e tal. E ele poderia falar, né? Que meu filho... um filho não deu certo no meu sonho, mas a outra está tentando, tipo assim.
NARRADOR
Meu pai é muito bem-sucedido na profissão que escolheu — ou talvez na profissão que a vida acabou escolhendo para ele. Mas acho natural que a gente se demore, de vez em quando, nesse universo do “e se”. E se eu tivesse insistido mais? E se eu ainda estivesse com ela? E se eu tivesse engolido mais aquele sapo? E se eu tivesse saído de casa mais cedo? E se... E se alguém tivesse me visto.
Você já deve ter notado como meu pai usa muito esses verbos relacionados ao “ver”, não é verdade? Nenhum treinador percebeu seu talento quando jovem, nenhum olheiro enxergou sua capacidade de organizar a barreira, não havia empresários para ver nele o investimento ideal para qualquer time... Pelo menos na sua perspectiva.
Quando se faz podcast narrativo, um exercício comum é de olhar para um personagem da vida real e tentar reconhecer em sua história duas respostas: o que ele quer e o que ele precisa. Muitas vezes essas coisas vão andar juntas, mas as respostas, invariavelmente, vão ser diferentes. É aí que está o conflito.
No caso do meu pai, para a primeira questão, parecia fácil: o que ele queria? Ser jogador de futebol. Um desejo, depois, substituído. Que EU fosse jogador de futebol. Ou que herdasse sua vontade não concretizada. Mas o que ele realmente precisava?
- Trilha Jon Bjork: An Abyss of Sadness
NARRADOR
Acho que a resposta se aproxima quando pensamos nessa chave de leitura. Meu pai precisava ser visto. Por um profissional do futebol? Talvez. Mas acho que é mais do que isso. Precisava ser visto pelos outros. Visto como mais do que um menino do interior condenado à incerteza de uma roça de arroz. Talvez visto como alguém tão capaz quanto ele próprio já se via. Será que só ele é assim?
Eu sou Andriolli Costa e este é o Falta, um podcast sobre ausências. Um programa que é sobre futebol, mas também sobre aquilo que nunca aconteceu.
Episódio Final: Além do Espelho.
SONORA PEDRO
Quando se fala sobre o futebol, assim, como algo que aproxima pais e filhos, né? Um meio de se criar laço, de se criar assunto... Você fala sobre o jogo de ontem, você fala sobre como está o time, como é a escalação... Então... o futebol pode unir, mas ele também pode muito bem separar.
Comigo tive um momento muito perto que eu ia para jogos com o meu pai e com o meu irmão, mas isso durou até assim uns 7, 8 anos. Depois dessa idade eu acho que a minha sexualidade começou a transparecer mais. Então acho que, na mente, começou como se eu tivesse abdicado da minha masculinidade, né? Então eu perdi esse elo com meu pai.
Trilha: Piper Ezz - Lost in your arms
- Canto da torcida
SONORA PEDRO
Então, hoje em dia, eu não tenho essa relação com meu pai tão próxima, né? Como, por exemplo, meu irmão tem, que eles saem para o bar para ver o jogo, quando eles podem eles vão ao estádio... Eles têm essa conversa sobre como tá o Vasco, como está a escalação, como tá tal jogador. Então, quando se fala sobre futebol, eu não consigo ver apenas o futebol...
Eu penso também nas expectativas que estão ali também dentro dessa relação. A expectativa sobre essa sexualidade, expectativa sobre como o outro performa masculinidade e como isso me afetou, né? Já que na visão dele eu abdiquei dessa masculinidade, então dentro disso eu abdiquei também de gostar de futebol, de torcer pelo Vasco, então essa forma de se relacionar acabou e a relação foi se distanciando com o passar dos anos, né?
- Som de ônibus
ANDRIOLLI
Thales, o que a gente está fazendo aqui agora?
SONORA THALES
A gente tá num ônibus para ficar horas até Ribeirão Preto. Eu não sei quantas horas, eu tô com fome...
ANDRIOLLi
São 12 horas.
SONORA THALES
São 12 horas, tá... Eu estou contando que tenha o que comer na primeira parada. E estamos indo entrevistar Paulinho Andrioli, ex-futebolista. Jogou na base do Grêmio, depois foi para o Fluminense, jogou na Seleção Brasileira de base do juvenil - hoje o sub-20. Jogou Copa do Mundo Sub-20...
Jogou na Suíça, onde acho que foi a melhor fase da carreira dele... E ele é gaúcho, mas mora hoje em Ribeirão Preto, né? Porque ele jogou no Botafogo de Ribeirão Preto. Se não me engano é onde ele encerrou a carreira.
NARRADOR
Esse, você se lembra, é o Thales Martins. Jornalista e torcedor do Fluminense que reconheceu o nome de craque com que meu pai me batizou.
SONORA THALES
Quando você me falou sobre o seu nome e tudo, eu lembrei imediatamente dele porque ele é um dos primeiros jogadores, assim, de quando eu comecei a acompanhar futebol criança. Ele era um dos jogadores da minha lembrança.
Então, o que eu falei para você daquela vez e repeti agora: ele é da formação do time que me formou torcedor. Que eu comecei a acompanhar. Por isso que é um cara que quando você falou imediatamente lembrei. Por isso que quando eu encontrei o Macula (ex-jogador) parei e falei para ele: “Cara, você fez parte do time que me formou torcedor!”.
ANDRIOLLI
Pausa para a entrada de passageiros...
- Paisagem sonora ônibus
NARRADOR
Essa viagem ainda vai demorar um pouco. Então vamos deixar o ônibus andando para percorrer um pouco mais o caminho das memórias e falar com um outro amigo do meu pai e que teve uma trajetória bem diferente do futebol.
SONORA BAIANINHO
Edgar era de uma índole, de um caráter maravilhoso!
NARRADOR
Dizem que Luiz Carlos Pereira Andrade recebeu o apelido de Baianinho em Narandiba porque ele andava todo esquisito... É, eu sei. Mas o detalhe aqui da nossa história: a família dele também é toda da roça.
SONORA BAIANINHO
Sim, a minha criação toda foi na roça. Depois que nós mudamos para Presidente Prudente, mas eu já tinha 13 anos e aí mudamos aqui para o Espigão e continuei trabalhando na roça de boia-fria.
- Som de cortar cana
SONORA BAIANINHO
E aí com 15 anos eu saí da roça aqui e fui para o Operário.
ANDRIOLLI
E o futebol entra na sua vida como?
SONORA BAIANINHO
Desde criança, desde criança... Na roça tinha aquele time lá de fazenda, que a gente já jogava e as pessoas diziam que eu sobressaía. E quando eu vim para morar em Presidente Prudente, disputei, comecei a disputar campeonato Dente de Leite aqui, né? Na época com 11, 12 anos.
E aí a gente foi sobressaindo e eu dei sorte que joguei dois jogos ainda de criança no profissional do Corinthians de Presidente Prudente. Tinha um treinador que gostava muito de mim, e me colocou pra jogar. E aí coincidiu do rapaz que era o olheiro do Operário, pegar e me levar.
- Som de interferência
Acervo Globo Esporte
O Operário virou com um gol de alta categoria. Baianinho ajeitou para o pé esquerdo e tocou por cima, consciente, fora do alcance do goleiro. Tava adiantado, hein? Operário 2 a 1.
NARRADOR
A história do Baianinho é um contraponto importante à do meu pai. A trajetória deles, no início, parece a mesma. Mas tinha alguém lá para prestar atenção nele.
Agora a questão que fica é: quem é esse profissional que tem como ofício, justamente, procurar essas pequenas promessas pelos campos do interior? Para saber mais sobre isso eu passei para a nossa produtora, Bruna Sebollela, uma missão: entrevistar um olheiro. Ou melhor, um observador técnico.
SONORA GÉSIOS
Meu nome é Gésios Mike. É um nome diferente, mas eu costumo sempre falar para os atletas que é um nome diferente, mas é um nome que fica. Então é um nome que vai marcar e a gente espera que sempre de forma positiva para eles, né?
NARRADOR
Não se preocupe, Gésios. Nome não é um problema nesse programa.
SONORA GÉSIOS
E eu sou natural de Brasília, sou candango, né? Nasci em Taguatinga. Mesmo eu trabalhando em um clube do Sul, eu continuo morando aqui representando o clube aqui na região.
NARRADOR
O Gésios também tentou ser jogador de futebol, mas ficou pelo caminho, ainda nas categorias de base. Depois acabou se formando em educação física, trabalhou como técnico de futsal e, hoje, trabalha como scout para o Curitiba no Centro-Oeste. Ou melhor, para o Coritiba. Curitiba é a cidade.
BRUNA
Você disse que começou tentando a carreira de atleta profissional, escolinha e tudo mais. Como foi esse processo para você também como atleta? Você já passou por muitas peneiras?
SONORA GÉSIOS
Então, acho que hoje a gente vai até entrar num tema assim, que é a diferença da daquele meu tempo para esse tempo, né? Antigamente tinham menos olheiros. É, eu como morador de Brasília, a gente sempre teve menos oportunidades, a gente tinha que sair daqui e não a oportunidade de vir até nós, que é algo que acontece muito hoje em Brasília, é a oportunidade de vir para cá, né? A oportunidade de estar aqui.
Hoje de scout em Brasília, comigo deve ter uns oito, nove de clube de Série A, Série B. Então, tem essa facilidade hoje para eles. No meu tempo não tinha essa facilidade, eu lembro que a gente ia fazer uma peneira, né? Eh, juntavam-se todos os meninos da cidade, então, dava 3.000, 4.000 meninos por peneira, para fazer uma peneira do Cruzeiro, para fazer uma peneira do Vasco da Gama. E assim, era bem pouquinho tempo, você jogava 10 minutos ali e se o olheiro viu, bom, se não viu... Chorou ali e depois é treinar de novo para tentar ser visto.
NARRADOR
Dez minutos para se destacar em meio a outras três mil crianças com o mesmo sonho. Às vezes a sorte também precisa estar do seu lado. No caso de Baianinho, Eloy José do Carmo, então supervisor do Operário, morava na cidade onde ele foi jogar nos torneios de base.
SONORA BAIANINHO
E o seu Eloy José do Carmo, ele, ele que fazia a papelada do time do Operário e morava em Presidente Prudente. E eu jogava do dente de leite aqui, a categoria de base aqui em Presidente e ele levou, não só eu, como levou mais ou menos seis, sete jogadores aqui da região de Presidente Prudente para a escolinha do Operário. Inclusive, a escolinha de 75, todos os jogadores subiram para o profissional. Nem todo mundo conseguiu se manter, mas todos os jogadores conseguiram chegar no profissional.
NARRADOR
Aos vinte e três anos de idade, Baianinho foi emprestado para o Corinthians. O time que tinha o Sócrates na equipe. Mas não... Em trinta partidas, fez apenas dois gols, e acabou voltando para o Mato Grosso do Sul. Então vieram as lesões, a aposentadoria, os times da várzea e a escolinha de futebol.
ANDRIOLLI
Para a gente encerrar, então: o que você tem mais saudade da época do futebol, Baianinho?
SONORA BAIANINHO
Andriolli, olha, eu vou ser honesto com você. Eu sinto saudade, por exemplo, dos domingos do Morenão cheio, daquela (avenida) Calógeras que saía do centro ali, com aquele povo andando a pé... a torcida do Comercial de um lado e a do Operário do outro lado da rua... aquele movimento maravilhoso e tal, tal. Mas hoje eu me coloco mais na presença de Jesus, porque Jesus me encontrou. E hoje eu sou mais feliz ainda do que naquela época.
NARRADOR
Hoje, Baianinho é pastor evangélico da Igreja Expansão Church.
ANDRIOLLI
Então acho que a pergunta, a melhor pergunta seria outra: O que te faz falta hoje?
SONORA BAIANINHO
Não me faz falta nada, porque eu tenho Jesus Cristo no meu coração. O único e suficiente Salvador.
- Som de carro
ANDRIOLLI
Pode abrir? Falou, muito obrigado!
THALES
Qual é o seu nome?
UBER
Edvaldo.
THALES
Prazer, Edvaldo.
ANDRIOLLI
Abração, obrigado, bom trabalho.
UBER
Bom trabalho para vocês também. Valeu!
- Som de porta batendo
ANDRIOLLI
Segura aí pra eu botar meu “manto”. O gravador...
THALES
Vai botar a camisa do Fluminense?
ANDRIOLLI
Eu vou.
THALES
Você se empolgou com esse negócio de Fluminense, né?
ANDRIOLLI
Ah, é pro programa, né?
THALES
Não, não vem com essa não, porque você me ofende com esse negócio de que é só para o programa. Tu vai malhar de Fluminense, tu faz boxe de Fluminense... Tá ao contrário...
ANDRIOLLI
Tá ao contrário?
- Som de apito
NARRADOR
Acho que eu estava um pouco mais nervoso do que parecia em finalmente encontrar o Paulo Andrioli. Nós o visitamos num feriado após algumas boas tentativas de agendamento. Ele tinha compromissos em Dubai, que não tinham data certa para acontecer. Assim que a agenda liberou, partimos.
SONORA PAULO
E aí, meu amigo? Como é que você tá? Tudo bem? Muito prazer! Joia? Satisfação? O que vocês querem fazer? Vamos subir?
ANDRIOLLI
Se for possível!
NARRADOR
Mas o que, afinal, eu estava esperando? Eu tive uma namorada que não gostava da ideia deste programa. Ela dizia: e você vai fazer o que quando encontrar com ele? Vai confrontá-lo? Ele não tem culpa de nada. Mas não, nunca foi isso.
SONORA PAULO
Ciao, amore. Vi presento Andriolli, ma come primo nome.
SONORA ANE
Prazer, tudo bem?
SONORA PAULO
Ane, minha filha. Esse é o Andriolli (Risos).
SONORA ROBERTA
Tinha que pegar os dois... (na filmagem).
SONORA PAULO
Quer fazer de novo? Thales, eu só falo com eles em italiano, desde que ela estava grávida.
ANDRIOLLI
A gente leu!
NARRADOR
O Paulo nos recebeu no saguão do seu condomínio, em uma região nobre de Ribeirão Preto. Ele tem sorriso fácil, daqueles que fazem os olhos quase desaparecerem. Rosto amplo, testa alta, nariz bem-marcado. É um homem mais baixo, um metro e setenta e cinco, mas muito elegante. Para mim, a figura de um italiano. Mesmo que, em nossa conversa, ele tenha me contado que sua família é muito mais da parte alemã do Rio Grande do Sul.
SONORA PAULO
Ciao, amore...
NARRADOR
Olhar para o Paulo era tentar montar um quebra-cabeças. Recuperar os fragmentos de um espelho montado ainda antes de eu nascer. É o que acabei confessando para sua esposa, Roberta, quando ela chegou para me apresentar aos filhos.
SONORA ROBERTA
É realmente o seu nome?
ANDRIOLLI
É o meu primeiro nome.
SONORA ANE
Ele falou com o papai a história dele, ele falou: “Não, e daí as pessoas falavam Andriolli, e ele sempre pensava: ele tá falando comigo?”.
ANDRIOLLI
E eu falei com o Thales assim que era engraçado, porque, claramente, obviamente, eu não tenho nenhuma relação familiar com vocês, né? Mas eu olhava para as fotos de vocês e ficava olhando para o rosto... E eu pensava: “Por que eu tô olhando o rosto? A gente não tem ligação de família!”.
SONORA ANE
Até você confunde!
- Trilha Jon Bjork: An Abyss of Sadness
NARRADOR
O que eu queria? Entender melhor quem eu sou? Saber o que esse nome diz sobre mim? No fundo, no fundo, eu sabia. O Paulo nos fez uma gentileza muito especial: ele não só assinou uma camiseta do Fluminense para mim e para meu pai. Ele também nos deu uma camiseta do seu próprio acervo. Uma manga longa, amarela e preta do Ares – um dos times pelo qual jogou na Grécia. Mandei a foto para o meu pai e ele respondeu imediatamente.
SONORA PAI
Você tá brincando, filhão. Porra, você me faz chorar logo hoje, logo hoje, filhão. Porra. Filho, que lindo. Que lindo, filho. Puxa vida.Nossa, não sei o que te falar, filhão. Te amo muito, te amo muito, te amo...
NARRADOR
Por que eu fiz tudo isso? Só agora eu consigo perceber e admitir. Eu fiz para agradar o meu pai. Eu fiz para mostrar... que me importo. Que eu o vejo.
Trilha: Piper Ezz - Lost in your arms
SONORA MARIA CLARA
A minha vó, minha vó materna, quando ela chega no Rio, né, em 74, 75, ela se apaixona de cara pelo Flamengo por ele ser rubro-negro, como o Santa Cruz do Recife. E aí minha mãe nasce flamenguista, né? Ela conhece meu pai também através do esporte, eles jogavam basquete juntos, iam assistir aos jogos do Flamengo no basquete, ambos eram flamenguistas.
Então eu cresci muito nesse círculo familiar muito ligado em esportes, que gostava muito de futebol, que assistia a todas as finais do Flamengo, é, final de 2009, acho que era do Carioca.
- Canto de torcida
SONORA MARIA CLARA
Eu lembro que foi a primeira vez que eu assisti um jogo de futebol inteiro... O jogo de ida e o jogo de volta, os dois com meu pai.
E eu lembro da gente comemorar muito aquela final, sabe? E eu chegar empolgada no dia seguinte falando para todo mundo que tinha visto o jogo todo com meu pai, não sei o quê... E acho que foi uma lembrança muito boa desse dia. A gente ganhou os pênaltis.
No dia que meu pai saiu de casa, foi um domingo. Porque apesar do domingo ser um dia que ele estava em casa, que o clima estava mais tranquilo, o domingo também podia ser um dia de briga, já que os dois estavam em casa.
E eu lembro que o dia que o meu pai saiu de casa assim de vez que foi o divórcio deles. Foi um domingo e teve jogo do Flamengo no dia e eu lembro que eu assisti ao jogo arrasada.
PEDRO
O Flamengo ganhou?
SONORA MARIA CLARA
Não lembro. E foi uma coisa que me marcou muito, depois do divórcio dos meus pais, que foi essa ausência, sabe? Porque meu pai saiu de casa e eu não... eu não conseguia sentir a mesma empolgação para assistir aos jogos, porque parecia que faltava alguma coisa, sabe? Ele não tava presente ali. Então, até os gols não eram tão comemorados por mim depois que ele saiu...
A primeira vez que eu fui assistir o jogo do Flamengo, foi com a minha mãe no meu aniversário de 15 anos. A minha relação com o meu pai na época tava super conturbada. Eu não fui com ele, mas eu fiquei muito emocionada assistindo ao jogo. Acho que ali foi a primeira vez que eu consegui comemorar de volta um gol, né? Sentir felicidade de ver o meu time ganhando sem a presença do meu pai.
PEDRO
Você sente falta do seu pai?
SONORA MARIA CLARA
Às vezes... Às vezes eu sinto sim.
- Som de estática
ACERVO EPTV
Carioca, 23 anos, Paulinho Andrioli passa o tempo em Ribeirão Preto recordando os bons momentos de Fluminense, em época de muitos gols. Gol usando a canhotinha diante do Grêmio pela Copa União de 81, que deu ao time o terceiro lugar do Brasileiro, e de peixinho em grande estilo contra o Cabo Frio, que colocou o Fluminense na final do Campeonato Carioca.
Esse carioca tem apenas um problema em Ribeirão Preto, a falta de uma praia. Longe do Rio de Janeiro para matar a saudade, o jeito é curtir uma piscina com um bom bate-papo.
Repórter: Mesmo sem praia, dá para ficar em definitivo no Botafogo?
Paulo: É, muita gente acha que não, né? Que eu não tenho essa vontade, mas eu já falei com o presidente...
SONORA PAULO
OK. Meu nome é Paulo Henrique Andrioli, mais conhecido como Paulinho Andrioli. Sou natural de Novo Hamburgo e joguei futebol, fiz uma carreira de profissional no futebol, começando na base do Grêmio e depois passando pelo nosso tricolor e indo para a Europa. E sou muito conhecido no futebol, mais do que tudo por Andrioli.
ANDRIOLLI
Quando alguém te pergunta: Quem você é? A primeira resposta que vem na sua cabeça é: ex-jogador, empresário, pai de família, é o quê?
SONORA PAULO
Sem dúvida nenhuma, eu sou filho de Deus. (risos) Desculpa, mas isso é o que eu realmente sinto na minha alma... E procuro ser um bom filho, primeiro de tudo, né? Das minhas origens... E depois um pai que dê exemplo para os filhos, né?
Trilha: Martin Baekkvold - Absent
NARRADOR
A relação entre jogadores de futebol e cristianismo não é nenhuma novidade. Mas acho que podemos olhar para essa questão sobre outro prisma. É que, para quem crê, a relação entre Deus e seus fiéis também é uma relação entre pai... e filho.
SONORA PAULO
Eu não estou falando contra nenhuma religião, pelo amor de Deus, mas assim, para mim só existe a verdadeira conversão com a transformação da tua vida. Você tem que ser transformado, né? E a primeira coisa que imediatamente começou a acontecer comigo, e foi absurdo, foi falar palavrão. A gente falava, né? Alguns palavrões... E eu não sei como, em um mês, eu não falava mais palavrão nenhum. Comecei a me controlar mais dentro do campo e tal. E aí a gente quer compartilhar, a gente quer fazer...
NARRADOR
Ainda assim, acho importante insistir nessa metáfora. Porque pensando nas inúmeras vertentes religiosas que existem por aí, a partir de um mesmo Deus, o que temos são os filhos tentando entender, afinal, quais as expectativas que seu pai deposita sobre eles.
SONORA PAULO
Como o nosso amigo lá da igreja, o pastor, ele me chamou, fomos lá no centro de Lugano... Eu estava para ir embora de férias, aí vem a cereja, a melancia do bolo.
Ele falou para mim: “Qual é o teu desejo para Deus?” Mas assim, um desejo. É O desejo, não é para amanhã, é para agora. Deus te perguntando. Você só pode falar uma coisa: “Ah, não tenho dúvida nenhuma”, falei para ele. “Eu estou sendo muito questionado aqui, porque eu sou o único sozinho praticamente do clube”. Aí as meninas vêm lá: “aí, será que o Paulo está fazendo isso? Será que está fazendo aquilo? E isso me prejudicava um pouco dentro de campo. Eu ouvia o zumzumzum e tal e não eram verdades... Mas isso me incomodava. E eu falei: “Sem dúvida nenhuma, eu quero a minha cara metade”. (e ele disse:) “Então, você quer encontrar alguém e casar?” (e eu:) “Quero!”. Aí fizemos uma oração, eu vim embora para o Brasil.
NARRADOR
O que deve ou não deve ser feito? Isso pode ou não pode? Será esse o destino que Deus traçou para mim, ou eu que não entendi direito o seu chamado?
SONORA PAULO
Se eu te contar como eu conheci a minha esposa, você vai embora daqui dando 87... você vai se pendurar no avião para o Rio de Janeiro, porque você vai falar assim: “Esse cara é um... como eles falam, né, um fanático. Mas não tem nada de fanatismo, eu tenho várias provas, tenho várias pessoas comigo como testemunha...
E aí, linda, maravilhosa, a minha esposa... Pergunta se eu me preocupei com qualquer coisa que não fosse falar de Deus para ela?
- Som de telefone
SONORA PAULO
Olha, ela aí! O sinal, ó!
A BÊNÇÃO JOÃO DE DEUS
A bênção João de Deus
Seja bem-vindo
E abençoa este povo
que te ama!
NARRADOR
Por falar em religião, você está ouvindo “A bênção João de Deus”, música de mil novecentos e oitenta composta em homenagem ao papa João Paulo Segundo e que foi apropriada pela torcida tricolor como uma espécie de talismã em momentos difíceis. Quando a coisa aperta, afinal, nada mais simbólico que o futebol.
SONORA THALES
Foi muito emocionante, muito emocionante... E aí, a semifinal, o jogo contra o Inter. Quando o Inter fez o gol, eu fui pro quarto...
SONORA PAULO
Ah, nem me fale, imagina o meu estado ali?
SONORA THALES
Eu não vi o jogo! Até hoje eu não vi... Eu fiquei rezando o jogo todo!
SONORA PAULO
Minha mãe faz a mesma coisa...
SONORA THALES
Os últimos dois jogos eu tive que...
ANDRIOLLI
Rezar é uma coisa que você fazia?
SONORA THALES
Cara, pouco, mas assim, eu lido com o futebol de uma forma metafísica. Eu não consigo lidar com o futebol como uma coisa material que tá acontecendo ali. Acho que por eu ter crescido com esse envolvimento: “meu pai está morto, então eu estou vendo um jogo com ele”... Eu via os jogos desde moleque falando: “Pai, ajuda o Fluminense”. Eu estava rezando ali, sempre foi assim, desde o primeiro dos primeiros, com 7 anos, até hoje.
Eu sempre penso nele quando eu sento no Maracanã. Eu dou um jeito de pensar... Acho que também pela torcida do Fluminense cantar a música do João de Deus... Pô, o gol que a gente fez agora no jogo contra o.. Não foi contra o Corinthians... no jogo anterior contra o Santos! A torcida do Fluminense estava cantando o João de Deus na hora!
Então assim, para mim o futebol é metafísico. E aí tem aquela coisa de Nelson Rodrigues que as crônicas eram muito metafísicas. Ele falava do Sobrenatural de Almeida que vinha para atrapalhar e o Gravatinha que vinha para ajudar... e que ele falava que quando o Fluminense precisava...
Tem uma crônica dele maravilhosa que ele fala que a torcida do Flamengo tem mais número, mas quando o Fluminense precisa, vivos e mortos sobem as rampas imortais do Maracanã. Os vivos saem de suas casas, os mortos saem de suas tumbas e não sei o que... Então, assim, a minha relação com o Fluminense é metafísica. Não é material.
- Som de estática
ACERVO FLUMINENSE
Amigos, a humildade acaba aqui! Desde ontem o Fluminense é o campeão da cidade. No maior Fla-Flu de todos os tempos, o tricolor conquistou a sua mais bela vitória. E foi também o grande dia do Estádio Mário Filho. A massa “pó-de-arroz” teve o sentimento do triunfo. Aconteceu, então, o seguinte: — vivos e mortos subiram as rampas. Os vivos saíram de suas casas e os mortos de suas tumbas. E, diante da plateia colossal, Fluminense e Flamengo fizeram uma dessas partidas imortais.
Daqui a duzentos anos a cidade dirá, mordida de nostalgia: — “Aquele Fla-Flu!”.
- Som de estática
SONORA PAI
Acho que era isso.
ANDRIOLLI
E para além do futebol o que mais você sonhava para mim?
SONORA PAI
Bom, que você fosse um estudioso mesmo. Eu espero que você seja um pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da UERJ, né? Talvez um reitor! Talvez um reitor... e então, espero que você me supere, claro, com toda certeza. Eu já falei para você que ia deixar bem difícil.
ANDRIOLLI
Falou mesmo, me lembro...
SONORA PAI
Eu tenho algumas coisinhas ainda para você me superar, mas você vai superar, eu tenho certeza. Eu acho que esse é o grande orgulho de qualquer mestre e de qualquer pai, com toda certeza.
Então, como você não foi no futebol, eu espero que você me supere na parte do ensino, né? Daquilo que eu consegui construir de legado na academia. E acho que você vai superar, com toda certeza. Você tem muito mais elementos do que eu tenho...
Trilha: Jon Bjork - An Abyss of Sadness
NARRADOR
Essa é mais uma daquelas lembranças de infância. Meu pai me apresentando para algum conhecido. A frase era sempre a mesma: “Esse é meu filho, Andriolli. Ele vai ser maior que eu em tudo. Inclusive em conhecimento.”
Havia um orgulho transparecendo ali, uma bênção, mas também uma aposta. Uma missão. Outra expectativa repassada. Algo que era só reforçado pela segunda parte da frase, que ele dizia só para mim: que eu iria superá-lo, claro, mas que ele deixaria bem difícil.
Ele era minha régua, minha medida. Se não foi no esporte, seria em outra coisa. Minha mãe já criticou bastante isso. Esse negócio de parecer que eu e meu pai estávamos competindo. E talvez ela tenha razão. Talvez essa competição tenha começado antes de eu sequer nascer, quando meu pai me batiza com nome de craque. Durante muito tempo, essa foi a nossa comunicação. Mas era ela que preenchia a falta.
Seria possível preencher com outra coisa?
SONORA THALES
É difícil, cara. Eu tô te falando, ninguém ensina nada pra gente sobre isso. Nossos pais não tiveram recursos, os pais dos nossos pais tiveram menos recursos ainda. E bem ou mal a gente ainda tem um pouco de recursos, né? A gente é uma geração que procurou terapia. Então, isso ajuda, né?
Isso ajuda a gente a tentar estancar... Se a gente for pensar que as relações familiares podem ser um sangramento de gerações, a gente é uma geração que está tentando estancar esse sangramento.
E, assim, eu não conheço o seu pai, eu tô falando pela minha mãe, e pelo que você me fala do seu pai... Mas eu acho que eles não tentaram estancar esse sangramento em momento algum. Eles só tavam levando a vida com os recursos que eles tinham e a gente tem um pouco mais. E o que é uma responsabilidade fodida, né?
Nós somos os responsáveis por resolver gerações e gerações de problema, mas a gente vai criar os nossos problemas e vamos passar adiante.
Eu tenho certeza que os meus filhos vão resolver problemas na terapia causados por mim, pela mãe deles...
ANDRIOLLI
Que você nem tem noção agora.
SONORA THALES
Que eu não tenho noção de que estão acontecendo.
- Som de telefone tocando
- Som de atender ao telefone
NARRADOR
Nós somos reflexos dos nossos pais, dos seus erros e acertos, dos seus sonhos e expectativas, mas não somos suas cópias. O que fazer então para ir além do espelho?
- Som de espelho quebrado
- Paisagem sonora: campinho
SONORA PAULO
Lucas, vamos! Uma... Cadê a opção? Provoca! Vamos, Laranja, pode jogar de lá. Jogador do Inter costuma errar esse passe, mesmo!
ANDRIOLLI
E eles estão ansiosos pra jogar?
SONORA PAI
Tranquilo... O meu tá jogando todo dia. Ele faz futsal; faz aqui, no Paulinho, três vezes por semana; ele joga na escolinha do Comercial...
ANDRIOLLI
Você jogava também?
SONORA PAI
Jogava.
ANDRIOLLI
Como é que é a expectativa de ter um filho e torcer para ele ser um bom jogador?
SONORA PAI
Cara, eu tô apoiando, né? Porque eu não tive esse apoio quando era criança, mas a gente tem que apoiar. E daí é ver o que vai acontecer, porque se eu tirar esse gosto dele de jogar futebol, ele vai me cobrar depois.Então, eu tenho que pegar e deixar ele à vontade aí, ver o que ele vai querer, se vai querer campo, se vai querer futsal...
ANDRIOLLI
Você diz isso porque seu pai não achava legal?
SONORA PAI
Não, meu pai não tinha tempo. Não tinha tempo. Meu pai trabalhava muito e aí não levava a gente para fazer as peneiras, para outros lugares para jogar bola. Eu tô acompanhando ele aí todos os dias, de segunda a sábado.
ANDRIOLLI
Você acompanha ele de segunda a sábado? Que legal!
SONORA PAI
Segunda, quarta e sexta ele joga das 5 às 6h, depois das 6:30 às 8 horas e eu fico acompanhando. E terça e quinta e sexta aqui no Paulinho também. Todos os dias... aí sábado eles vão jogar campeonato.
- Som de bola dominada
SONORA PAULO
O meu pai, como eu te disse, era gremista roxo lá no interior. E ele não tinha condições de ir no estádio, Não tinha condição de fazer nada. E é até uma pergunta legal, que eu lembrei...
ANDRIOLLI
Qual o nome dele mesmo?
SONORA PAULO
Miron Andrioli...
NARRADOR
Airton Andriolli foi o primeiro dos filhos a jogar no Grêmio. E detalhe, seu nome vem de um ex-zagueiro do tricolor gaúcho, Ayrton Ferreira da Silva.
Depois veio o irmão mais novo, Paulo. Era o sonho realizado do pai gremista.
SONORA PAULO
Ele se mudou para uma cidade um pouco mais assim, moderna, né? Que é Novo Hamburgo. E ele abriu o que ele aprendeu com o pai dele. Meu pai foi a vida inteira vassoureiro, ele fazia vassouras. Mas fazia, construía, não revendia! Ele construía desde a palha, ele preparava tudo. A gente ajudava... ele tinha uma fábrica de vassoura e ele acordava 4 horas da manhã, trabalhava até as 7 da noite...
Ele falou: “Eu vou mudar para uma cidade porque eu quero ter um filho jogador de futebol”. Ele não falou: “Eu vou morar para trabalhar como vassoureiro”, porque vassoureiro era melhor ele trabalhar lá!
- Som de vassoura
NARRADOR
Só que a coisa não acabou bem. Por questões internas, assim que o mais novo começou a brilhar, Airton acabou demitido. Para o velho Miron, foi um golpe pesado demais. Uma traição do time dos seus sonhos. Paulo tomou as dores do irmão, mesmo com o contrato ainda em andamento.
SONORA PAULO
Aí na quinta-feira eu chamei toda a diretoria e eu falei assim: “Eu quero uma reunião antes do treino”. Eu peguei, chamei eles, já tinha arrumado todas as minhas malas, falei para eles: “A partir de hoje eu não sou mais jogador do Grêmio”.
E só para vocês terem uma ideia, eu não era jogador do Grêmio. Eu era um filho do Grêmio. Eu não comia no bandejão, eu comia dentro com as tias. Eu era um filho, um filho!
Os caras já me tinham como uma certeza absoluta de um craque do profissional. Pum, bati a porta e fui embora. Peguei todas as minhas malas e fui para Novo Hamburgo. Chamei o meu pai, falei: “Pai, eu quero te fazer uma pergunta. O que eu faço?” Ele: “Não sei, para mim o futebol acabou”. Falou para mim assim, desse jeito: “Para mim o futebol acabou”.
Trilha: Jon Bjork - An Abyss of Sorrow
NARRADOR
O futebol morreu. Paulo continuou jogando, mas seu pai não se interessava. Não queria saber. Ainda assim, ele continuou. Mas havia contas para acertar... com o Grêmio, com o pai, com o esporte.
Eu pergunto, afinal, o que significa futebol para Paulo Andrioli. Como ele poderia me explicar o que o esporte simboliza? E ele retoma essa história. Quando saiu brigado com o Grêmio, foram anos na justiça até conseguir liberação para jogar no profissional. Já era mil novecentos e oitenta e oito, e Paulinho estava com seus vinte anos de idade.
SONORA PAULO
E ele: “Eu não vou no jogo, eu não vou aguentar, não vou no jogo, não vou no jogo...”
NARRADOR
A hora da desforra foi numa partida entre Fluminense e Grêmio. E a família toda foi para a plateia.
SONORA PAULO
Aí o lance pela direita, o cara cruza, o Washington ajeita de calcanhar... Só que quando o cara foi cruzar, o meu pai tava atrás de toda a família, né? Um monte de gente assim na frente, o meu pai assim: “Gol do Paulinho, gol do Paulinho, a bola tá lá na lateral”. Ele: “Gol do Paulinho!”. Eu acho que ele já tava vendo eu entrar, né?
O cara foi no fundo, o Romeu cruzou para trás, o Washington... achei! Então, eu peguei de canhota no Mazaropi. Um cruzado que, meu irmão... Naquela fração, foi incrível. Foi uma sensação...
E o meu pai desmaiou, né? Não contei? Foi “gol do Paulinho, gol do Paulinho, gol do Paulinho”, bum, caiu assim, na frente de todo mundo. Todo mundo ri até hoje dessa história. Então, assim, foi a coisa mais maluca e nós ganhamos de 2 a 1. E na (revista) Placar, lembra da Placar? O título: “Faca com talho gaúcho!”.
Puta de uma matéria! E mais: “criado nos Pampas...”. Quando eu voltei para casa, foi o momento mais...
ANDRIOLLI
Para casa, Novo Hamburgo?
SONORA PAULO
Exatamente, depois do jogo eu fiquei em casa, não viajei, não voltei com o Fluminense, eu fiquei lá um dia. Foi o momento mais emocionante...(choro)
Desculpa. Foi o momento mais emocionante da vida do meu pai. Naquele momento o meu pai pediu perdão por tudo que ele disse. “Que o futebol acabou”, que não sei o quê... (Disse:) “Eu estava te tolhindo...”. Eu falei: “Pai, pai, tu falou como estava sentindo”.
E ali o meu pai era só eu! O Rio Grande do Sul inteiro, só ouvia falar de mim...
NARRADOR
O que é futebol, então? É a capacidade de sintetizar, em uma partida, tudo aquilo que nunca foi dito.
SONORA PAULO
Tu entendeu a diferença? Eu poderia ter feito um gol no Fla-Flu. Não seria... Não seria...
CANTO DA TORCIDA
Fluminense vai jogar
Eu vou ficar
Louco da cabeça
Nada me interessa
Fluminense vai jogar
Eu vou ficar...
NARRADOR
Mas tem horas que não dá para escapar. Algumas conversas simplesmente precisam acontecer.
Trilha: Piper Ezz - Lost in your arms
SONORA MATHEUS
Fala, Andriolli. Pô, seu podcast me fez pensar e lembrar aí também da situação com o meu pai e do lugar que o futebol tem na nossa relação. Então, quando eu tinha 9 anos, mais ou menos, meu pai separou da minha mãe, ficou ainda 1 ano vindo de vez em quando, aí as visitas foram ficando espaçadas. E aí ele sumiu no mundo por uns 3, 4, 5 anos, ninguém sabia dele.
Depois eu encontrei ele pouquíssimas vezes, em situações todas desagradáveis. E a gente não tinha vínculo nenhum, né? Foi de fato um abandono paterno. E a última grande lembrança assim forte do momento bacana que eu tive com ele foi justamente a comemoração do título da Libertadores de 99 do Palmeiras. A gente saiu na praça aqui da minha cidade...
Tem também os presentes que ficaram daquela época, né? A maioria deles relacionada a futebol: mini craque, um cobertor do Palmeiras, né? Me lembro claramente que tinha um álbum de figurinha do Palmeiras, que ele comprava para mim também...
- Som de fogos
- Som de torcida
SONORA MATHEUS
Aconteceu que em 2015, o Palmeiras venceu a Copa do Brasil. Foi um grande título depois de muitos anos de seca. Tinha ganhado em 2012, mas caiu no mesmo ano, não teve o mesmo sentido... Então foi uma catarse coletiva, né? 15 anos ali, sendo zoado pelos amigos e aquele título representou muito.
Eu não consegui o ingresso, fui para a porta do estádio. Ganhamos, estava no auge daquela loucura com a torcida, todo mundo comemorando, eu estava em cima num caminhão de lixo. Um cara, deu um rojão na minha mão... Soltei o rojão, levantei a massa, olhei lá e comecei a gritar Palmeiras, Palmeiras!
E naquele momento teve algo que fazia tempo que eu não tinha, no mínimo aí uns 15 anos: eu tive um sentimento bom pelo meu pai, uma gratidão por ele ter me feito palmeirense. Aí eu cheguei até a escrever uma mensagem...
- Som de SMS
SONORA MATHEUS
“Pai, obrigado por me fazer palmeirense.” Mas eu não mandei.
Quando eu cheguei em casa, no outro dia de manhã, a minha tia me ligou e falou que meu pai tinha tido um AVC depois do jogo e tava em coma. Poucos dias depois ele faleceu.
E eu fiquei pensando, né, se não foi isso que faltava... Um pensamento desse, um sentimento para ele desapegar aqui desse plano.
Mas a história é essa. Poucas... provavelmente esse é o único lugar de vínculo nosso que pode ter uma paz, então, quando o Palmeiras ganha, quando o Palmeiras vence o título, é o momento que eu tenho uma gratidão, penso nele assim com um pouco de carinho... e foi isso assim.
- Paisagem sonora Chácara
ANDRIOLLI
Última, pai. Última agora então, para a gente ir para dentro que está cheio de mosquito aqui já. O que é que te faz falta hoje ainda?
SONORA PAI
Ah, me faz falta? Olha filho, eu acho que hoje é estar mais perto da família, né? E entender que eu já fiz muito pelos outros, eu acho que tenho que fazer um pouco por mim. E o que está em mim, eu acho que é recuperar o amor dos meus filhos. Não tem coisa igual. Nem amor de mulher, é o amor dos meus filhos. Eu sinto falta disso. Sinto falta disso. Muita falta. Muita falta. É isso...
- Som de abraço
SONORA PAI
Desculpa...
ANDRIOLLI
Que é isso...
SONORA PAI
Você perguntou, eu não podia ser mentiroso...
ANDRIOLLI
Eu achei que a gente ia chegar nisso na segunda entrevista. Tava no planejamento...
SONORA PAI
Valeu, filhão.
ANDRIOLLI
Ainda dá tempo, né?
SONORA PAI
Com certeza. Deixa que eu levo isso, filho...
- Paisagem sonora rural
NARRADOR
“Ainda dá tempo”, foi o que eu disse. Eu sei. Eu podia ter dito: “Que isso, pai? Nosso amor, você já tem”. “Sempre teve”. E em alguma medida é verdade. Mas não. Isso era o que a gente queria ouvir, mas não o que a gente precisava. E o que a gente precisava, naquele momento, era entender que aquele não era o fim, mas podia ser um outro começo. Aquilo que a gente perdeu não volta mais. Mas podemos ter outras conversas, caminhar por estradas menos solitárias. Menos destrutivas.
- Som de passos
NARRADOR
É difícil quando se tem, como metáfora, um esporte muito baseado no talento individual, no craque do jogo, mas a gente pode sempre tentar. Eu lembro do meu pai contar que meu avô nunca deu um feliz aniversário para ele. Meu pai já disse até um eu te amo. Acho que estamos no lucro.
Mas, a bem da verdade, nem sempre dá tempo. O Thales, por exemplo, não teve esse tempo. A vida aconteceu. E a morte também. Talvez para alguns, este programa seja o convite para entender que a hora de uma conversa chegou. Talvez seja justamente o contrário: a pedra sobre um assunto nunca verbalizado. Isso, só você vai saber. É você quem melhor sabe o que te faz falta.
DIOGO NOGUEIRA - ESPELHO
Num dia de tristeza me faltou o velho e falta lhe confesso que ainda hoje faz...
Eu me abracei na bola e pensei ser um dia um craque da pelota ao me tornar rapaz...
um dia chutei mal e machuquei o dedo, e sem ter mais o velho pra tirar o medo...
foi mais uma vontade que ficou pra trás.
É, vida à toa
Vai no tempo vai
E eu sem ter maldade,
Na inocência de criança de tão pouca idade,
Troquei de mal com Deus por me levar meu pai...
- Som de apito
Trilha: Hino do Fluminense
NARRADOR
Falta é uma produção original do Laboratório de Podcasts Narrativos da UERJ, o Lunar. A apresentação e edição foram feitas por mim, Andriolli Costa. Bruna Sebollela faz a produção do programa. Os alunos Carlos Geremias, Daniela Machado, Pedro Fávera e Pedro Rubim trabalharam na divulgação.
Agradecimentos especiais a Thales Martins, Paulo e Roberta Andrioli e a todos os membros da minha família, que aceitaram conversar conosco para este programa.
Neste programa você ouviu depoimentos de Pedro Rubim, Maria Clara Sousa Monteiro e Matheus Schwab.
Saiba mais sobre estes e outros projetos do Lunar acessando www.podcastnarrativo.com.br .
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Um abraço e até a próxima!
- Som de suspiro
DIOGO NOGUEIRA - ESPELHO
E o meu medo maior é o espelho se quebrar... X8
O meu medo maior...



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