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O trabalho que vira 20 segundos: Isabela Cabral revela os bastidores da pesquisa em podcasts narrativos

Jornalista que atuou em Projeto Humanos — Altamira e Pico dos Marins compartilhou com estudantes da UERJ técnicas de apuração, checagem e organização de grandes volumes de informação.

 


Uma apuração que consome semanas pode terminar em uma frase de poucos segundos. Para a jornalista Isabela Cabral, aceitar essa desproporção faz parte do trabalho em podcasts narrativos. A informação talvez quase não apareça no roteiro, mas o caminho percorrido até ela ajuda a construir uma história mais rigorosa, segura e profunda.

 

Foi essa experiência de bastidores que Isabela compartilhou, em 31 de março de 2023, com a turma de podcasts narrativos da Faculdade de Comunicação Social da UERJ. Realizado no Audiolab, o encontro percorreu sua trajetória no áudio e os trabalhos de pesquisa e checagem em duas produções de grande repercussão: Projeto Humanos — Altamira e Pico dos Marins, do Globoplay.

 

Isabela começou a ouvir podcasts em 2008, quando o formato ainda era pouco conhecido no Brasil e produzido, em grande parte, por comunidades de ouvintes e criadores independentes. Entrou nesse universo como hobby, integrando equipes, participando de programas e acompanhando as trocas da então pequena “podosfera” brasileira.

 

O interesse pelo áudio ajudou a conduzi-la ao jornalismo. Na graduação, dedicou sua monografia aos podcasts narrativos, embora encontrasse poucos exemplos profissionais produzidos no país. Naquele momento, uma das principais referências brasileiras era o Projeto Humanos, criado por Ivan Mizanzuk.

 

A aproximação entre os dois começou por meio de um treinamento oferecido por Mizanzuk a pessoas interessadas em produzir histórias em áudio. Como trabalho final, os participantes deveriam construir um episódio a partir de uma entrevista. Isabela contou a história de Samuel Lourenço, que concluiu o Ensino Médio na prisão, foi aprovado em diferentes universidades e passou a lutar pelo direito de estudar.

 

O episódio foi selecionado para a terceira temporada do Projeto Humanos. A experiência abriu caminho para que Isabela, anos depois, fosse convidada a integrar a equipe de Altamira, quinta temporada do podcast.

 

A produção investigou os ataques, desaparecimentos e assassinatos de meninos ocorridos entre o fim da década de 1980 e o início dos anos 1990, em Altamira, no Pará. O caso atravessou investigações policiais, julgamentos, disputas políticas, mobilizações sociais e acusações marcadas por intolerância religiosa e homofobia.

 

Isabela começou a trabalhar no projeto em janeiro de 2021. Sua atuação envolvia diferentes frentes: examinar o material já reunido, pesquisar o contexto histórico e social, localizar especialistas, procurar novos documentos e conferir as informações incluídas nos roteiros.

 

O volume do acervo foi um dos primeiros desafios. A equipe reuniu dezenas de milhares de páginas de processos judiciais, trabalhos acadêmicos, reportagens de jornais e revistas, gravações televisivas, documentos públicos e horas de material em áudio e vídeo.

 

Antes que a escrita dos episódios pudesse avançar, foram necessários meses de leitura, reuniões e familiarização com o caso. A equipe elaborou uma estrutura geral da temporada, definiu a ordem de apresentação dos acontecimentos e identificou os temas que precisariam de investigações complementares.

 

“Uma pesquisa minuciosa é muito importante para o podcast narrativo: para embasar bem, não ser raso e descobrir novos ângulos a serem explorados”, afirmou Isabela.

 

A apuração também precisava explicar o lugar onde os crimes ocorreram. A equipe investigou a formação de Altamira, os fluxos migratórios, as características territoriais e as relações políticas da região. O objetivo era compreender em que contexto aqueles crimes, as acusações e as falhas do processo judicial haviam se tornado possíveis.

 

Entre os materiais localizados estavam gravações de audiências públicas realizadas no Congresso Nacional. Os áudios permitiram recuperar o clima das discussões no momento em que o caso ainda se desenrolava e trouxeram as vozes de pessoas que não poderiam mais ser entrevistadas.

 

Para Isabela, documentos sonoros desse tipo funcionam como uma janela para o passado. Além de fornecer informações, eles preservam hesitações, conflitos e emoções que dificilmente apareceriam com a mesma força em uma transcrição escrita.

 

O trabalho exigiu também cuidado com as famílias das vítimas. Embora parte delas defendesse a condenação dos acusados, o podcast procurou não responsabilizá-las pelos erros da investigação. Naquele momento, ressaltou a jornalista, elas acreditavam que a Justiça havia identificado os culpados pelos crimes cometidos contra seus filhos.

 

A apuração de Pico dos Marins apresentou outro desafio. O podcast reconstruiu o desaparecimento de um escoteiro de 15 anos durante uma excursão à Serra da Mantiqueira, em 1985. Para organizar os documentos, Isabela criou uma extensa linha do tempo com os acontecimentos relacionados ao caso.

 

Em uma tabela, registrou datas, depoimentos, reportagens e referências precisas às páginas dos processos. Quando duas fontes apresentavam versões diferentes, a divergência era assinalada. Assim, cada informação usada no roteiro poderia ser rastreada até sua origem.

 

A cronologia permitiu corrigir até detalhes aparentemente pequenos. Se uma fonte afirmava que a polícia havia sido avisada 48 horas depois do desaparecimento, por exemplo, era possível confrontar o relato com documentos e verificar o dia e o horário em que a comunicação realmente ocorreu.

 

“Cada frase precisava estar detalhada. A gente sabia se aquela informação vinha do depoimento de alguém, de uma página específica do processo ou de uma reportagem”, explicou.

 

Outra tarefa recorrente era localizar personagens mencionados apenas de passagem nos documentos. Às vezes, a equipe possuía somente um nome e uma referência vaga — como a informação de que determinada pessoa trabalhava como motorista de ônibus décadas antes. Para seguir os rastros, Isabela recorria a Diários Oficiais, arquivos públicos, registros civis e outras bases documentais.

 

Nem toda busca produzia uma entrevista ou uma revelação. Algumas consumiam dias sem chegar a um resultado conclusivo. Outras forneciam apenas uma confirmação breve para o roteiro.

 

“Você vai trabalhar horas, dias, semanas, talvez meses em busca de uma informação ou de uma pessoa. No trabalho final, aquilo pode virar 20 segundos. E faz parte. No fim das contas, foi importante para construir um trabalho mais cuidadoso e mais denso”, resumiu.

 

Isabela também falou sobre o peso emocional das investigações. Em Altamira, a equipe precisou lidar com fotografias, laudos e descrições gráficas dos crimes. A experiência mostrou que a pesquisa em podcasts narrativos não envolve apenas dominar ferramentas de busca e organização, mas também reconhecer os limites pessoais diante de histórias traumáticas.

 

Ao final do encontro, a jornalista deixou uma recomendação para quem deseja trabalhar com o formato: formar repertório pela escuta. Ouvir produções brasileiras e estrangeiras ajuda a perceber como entrevistas, documentos, narração, cenas e arquivos podem ser combinados na construção de uma história.

 

“Escute tudo o que puder. Aos poucos, a gente vai introjetando como essa linguagem funciona”, aconselhou.

 

Como referência para os estudantes, Isabela indicou ainda o Cochicho, projeto criado pelas jornalistas e produtoras de áudio Bia Guimarães e Sarah Azoubel. O site reúne orientações acessíveis sobre roteiro, produção, pesquisa e entrevistas — etapas que, embora nem sempre sejam percebidas pelo ouvinte, sustentam cada minuto de um podcast narrativo.

 
 
 

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